20140828

Eduardo Campos. Quem beneficia com o atentado?

Estranho quando, aparentemente, o beneficiário de um crime é aquele que, em princípio, seria a principal vítima, não? Os defensores da tese do atentado contra o avião Cessna do candidato presidencial brasileiro, Eduardo Campos, lançaram suspeitas na direcção do partido no poder, mas as sondagens insistem em indicar que o atentado foi a melhor coisa que aconteceu ao partido da vítima. Isto é uma leitura factual, vista à distância de um Oceano, a frio, sem acusar ou defender qualquer parte. Não voto nas eleições no Brasil, ainda sei muito pouco sobre o momento que vivem os irmãos brasileiros, mas estou cada vez mais interessado. Como já disse num texto anterior, através da minha experiência como jornalista que investigou a morte do primeiro-ministro de Portugal e ministro da Defesa na queda de um avião Cessna nos arredores do aeroporto de Lisboa, a 4 de Dezembro de 1980, foi necessário esperar quase 30 anos até que a tese de atentado fosse dada como sendo a mais certa. Só que ao fim deste tempo, a sociedade portuguesa ainda tem dúvidas e está demasiado distante dos factos para avaliar a importância daquilo que se concluiu. Pior ainda, Portugal vive mergulhado nos problemas criados pelos efeitos daquelas mortes, pelo que nem sequer tem tempo para parar e pensar nas implicações que, ainda hoje, a confirmação de atentado poderia provocar no panorama político e económico. Temo que o mesmo possa vir a acontecer no Brasil. Pelo pouco que vou tendo acesso via Internet, vejo que no Brasil estão a cometer os mesmos erros de investigação e que, muito provavelmente, só daqui a 30 anos vão concluir aquilo que hoje muitos avisam que pode ser verdade. E para o esclarecer, é urgente seguir alguns procedimentos de investigação. Sei, por exemplo, que os corpos das vítimas já foram enterrados. Mas, houve tempo para serem feitas análises por raio-x aos seus ossos? Em Portugal, os corpos das vítimas tiveram de ser exumados e descobriram-se vestígios de estilhaços nos ossos. E que isso era compatível com a suspeita da explosão de uma bomba a bordo. Dizem-me que no Brasil há quem sustente a hipótese de terem ocorrido duas explosões no avião. Uma primeira, no interior do aparelho, ainda no ar, e outra na queda - a pique e que abriu uma cratera no chão. Os corpos terão ficado despedaçados e não sei, do ponto de vista forense, até quanto um análise poderia ser indicativa de uma explosão criminosa. No entanto, reforço a minha dúvida: foram ou não feitos exames aos corpos no sentido de esclarecer uma eventual explosão criminosa do Cessna? Depois, os vestígios do avião. Foram ou não feitos exames destinados a detectar a existência de explosivos na estrutura do aparelho? Há ainda a questão das gravações das caixas pretas – caixas negras como nós dizemos deste lado do Oceano. Não são conclusivas, dizem-me. Um facto que aumenta a probabilidade de ter havido crime, tal como em Portugal, em 1980, quando o avião Cessna caiu no bairro chamado de Camarate sem que tenha sido registado qualquer comunicação de emergência por parte do piloto antes da queda. Entretanto, temos que considerar também factores tecnológicos que, em 1980, ainda não estavam tão presentes como hoje. Haverá assim a possibilidade do aparelho do candidato presidencial brasileiro ter sido sujeito a uma controlo remoto exterior que o conduziu para a queda? Será esta hipótese demasiado fantasiosa nos dias de hoje? Não me parece... Eduardo Campos seguia em terceiro lugar nas sondagens e, após a sua morte, o panorama político mudou. Agora, aquela que era candidata a vice-presidente, subiu para a cabeça da candidatura e ameaça derrotar a actual Presidenta na segunda volta das eleições. Quero acreditar que a morte de Eduardo Campos foi um golpe do destino, um acidente. Mas, este acidente tem tudo para ser apontado como tendo sido provocado por mão humana do que pela mão do destino. Claro que o destino guia a mão dos homens, mas dita-me também a experiência que isso acontece nos pequenos momentos da vida em que temos de tomar uma decisão e recebemos um sinal, dito divino, que nos ajuda a decidir por um lado e não pelo outro. Quando o homem está decidido a desafiar o destino e decide antecipar o fim da vida dos outros, não há maneira de ser parado pelo divino. Divino é depois o que acontece com as ondas de acção iniciadas por uma acção criminosa. E, para já, tudo aponta que uma possível acção criminosa vai colocar no Planalto uma pessoa que, antes da morte de Eduardo Campos, não era suposto lá chegar.

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20140816

Caso Boqueirão

Para os meus leitores no Brasil: Queridos irmãos brasileiros, compartilho a dor que sentem com o trágico desaparecimento de Eduardo Campos, um político carismático e que resultou de um alegado acidente aéreo. Digo "alegado", pois vejo que no vossa imprensa já se começa a falar da possibilidade de atentado. Quero então dizer-vos que o que aconteceu com Eduardo Campos tem semelhanças assustadoras com algo que também já aconteceu com um político português e que teve lugar há mais de 30 anos! Um avião Cessna caiu numa zona habitacional nos arredores de um aeroporto, causando a morte de todos os sete ocupantes. Isso teve lugar em plena campanha de eleição presidencial e testemunhas falam de "bola de fogo" "bola de fogo" no ar e de um avião que vinha já a arder antes de embater no solo. As gravações das comunicações entre piloto e torre de controlo são inconclusivas e não há o registo de qualquer pedido de auxílio - o usual "Mayday" - da parte do piloto antes do embate fatal. Onde é que isto tudo aconteceu? Aconteceu em Lisboa, na noite de 4 de Dezembro de 1980, quando o avião Cessna que transportava o primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, despenhou-se pouco depois de ter descolado do aeroporto de Lisboa. Ia a caminho do Porto, onde era esperado para discursar numa acção de campanha de apoio ao seu candidato a Presidente da República, Soares Carneiro. O avião caiu no bairro de Camarate, sendo que, desde então, esta queda ficou conhecido em Portugal como o "Caso Camarate". E esse é hoje, caros irmão brasileiros, o vosso "Caso Boqueirão". Juntamente com o primeiro-ministro, figura bastante carismática entre os portugueses, morreram ainda o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e o chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia. Faleceram igualmente as esposas dos governantes, Snu e Manuela, e os dois pilotos do aparelho, Jorge Albuquerque e Alfredo Sousa. Ao fim de mais de 30 anos de investigação, a justiça portuguesa encerrou o caso sem que tivesse encontrado uma explicação lógica para o que teria levado à queda do aparelho. Entretanto, face às dúvidas de acidente ou atentado, o Parlamento português realizou várias comissões parlamentares de inquérito. Em 2004, a oitava comissão concluiu que houve uma explosão a bordo, provocada por um engenho colocado na parte dianteira da aeronave, supostamente junto ao trem de aterragem. Em 2012 escrevi um livro intitulado "Camarate - Sá Carneiro e as Armas para o Irão", onde explico que o móbil do atentando poderia estar relacionado com o facto de haver um negócio secreto de tráfico de armas dos EUA para o Irão, usando o território português como plataforma giratória para esse negócio. Sá Carneiro teria mandado investigar e isso levou à sua morte. Por outro lado, ele era uma pessoa que não hesitava em enfrentar poderes muito acima da força internacional de Portugal, pelo que a sua substituição no panorama político nacional levou depois a uma espécie de "harmonização" da vida política e que perdura até hoje. Estive no ano passado no Parlamento português a testemunhar na décima comissão parlamentar de inquérito, que tem agora a tarefa de confirmar se a tese do móbil da rede internacional que levou ao atentado tem sustentabilidade ou não. Vou lendo o que me chega do Brasil e chamo a vossa atenção para a possibilidade de surgir muita desinformação. Vão ser dias difíceis, os próximos, pelo que estejam atentos a tudo o que vos parecer informação credível e que, com o tempo, poderá desaparecer da rede. Como, por exemplo, os primeiros testemunhos que falam de uma explosão do avião no ar e que vinha a arder antes de embater no solo. Há 30 anos, não havia ainda Internet e só existia um único canal de televisão em Portugal e que era controlado pelo Estado. Hoje, com a profusão de canais de informação, podemos pensar que estamos melhor informados. É mentira. Existe é cada vez mais uma grande dispersão da informação e aquela que acaba depois por ficar é somente a que querem que seja a oficial. Por isso, mantenham a memória destes dias, pois sabe-se lá se daqui a 30 anos ainda vamos estar a discutir detalhes do que aconteceu na semana passada.

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20140603

Bilderberg 2014 - Álbum de recordações

20131204

Porque hoje é 4 de Dezembro

Vamos lá ver se nos entendemos de uma vez por todas, pois mais vale 33 anos de atraso do que nunca. O primeiro-ministro Sá Carneiro não desistiu à última hora das reservas do voo da TAP, como veio na primeira página do semanário "O Jornal" no dia seguinte a Camarate. Estas reservas existiam sim, mas apenas como cautela caso o mau tempo de Dezembro não permitisse que o avião privado Cessna pudesse descolar. Logo, é falsa a informação na primeira página daquele jornal. Não que os jornalistas de então tenham mentido de propósito, mas foram induzidos em erro. Conceição Monteiro, assessora de Sá Carneiro ajudou a propagandear esta informação como sendo a maneira mais correcta de interpretar algo que, não sendo propriamente uma mentira, também não era exactamente a verdade que depois se construiu. Da mesma forma, uma semana depois, quando o semanário "Expresso" revelou que, pouco antes do Cessna fatídico descolar, Sá Carneiro perguntou pelas reservas na TAP, este é um facto verdadeiro, mas esconde um outro dado que ficou de fora e dá igualmente uma imagem diferente. Sim, Sá Carneiro perguntou pelo avião da TAP, mas porque desconhecia que, ao lado do Cessna, estava um outro aparelho Cessna, propriedade da empresa Refinarias de Açúcar Reunidas - RAR - que tinha voado do Porto para Lisboa, de propósito, nessa manhã, para o transportar ao comício extra no Porto. Recentemente, na Xª Comissão de Camarate, foi ouvida pela primeira vez a secretária de Sá Carneiro, Isabel Veiga Macedo, que confirmou estes factos e acrescentou que Pinto Balsemão, o homem que estava no Porto há 33 anos à espera de Sá Carneiro, foi informada por ela, à hora do almoço, que o primeiro-ministro iria no avião de campanha, com Adelino Amaro da Costa, e não viajaria no avião da RAR, pelo que não era necessário mandar ir este aparelho do Porto para Lisboa. Balsemão, se calhar, não sabia que o avião já estava em Lisboa, pois não o transmitiu à secretária. E, se depois o soube, não terá conseguido avisar Sá Carneiro a tempo de ele poder ter a hipótese de trocar o avião fatídico pelo avião da RAR. O avião da TAP é que, ao fim destes anos todos, continua a surgir como sendo aquele que foi trocado. Não. Não e não. Foi o avião da RAR. E 33 anos depois, basta de mentiras. Por favor, basta.




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20131011

Esclarecimento à Assembleia da República sobre testemunho de Rui Carp na comissão de Camarate

E-mail que acabei de enviar ao Presidente da Xª Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate: Caro Dr, Estive ontem à noite a assistir à transmissão em diferido do Canal Parlamento da audiência ao antigo subsecretário de Estado do Orçamento do Governo da AD, Dr. Rui Carp, que teve lugar ao fim da tarde de ontem no âmbito do Inquérito à tragédia de Camarate. Não tive oportunidade de assistir desde o início, mas espero que seja disponibilizada a totalidade da audiência no arquivo do Canal Parlamento. Contudo, vi que, já perto do fim da audiência, ao responder a uma pergunta da deputada do PS, Isabel Oneto, sobre uma passagem do meu livro "Camarate - Sá Carneiro e as Armas para o Irão", onde era referido o nome de Rui Carp a propósito de um almoço com o então ministro da Defesa e vítima de Camarate, Adelino Amaro da Costa, no qual foi debatido o caso do fundo ilegal dos militares, o ex-subsecretário disse não se lembrar de me ter contado isso ou sequer de alguma vez ter falado comigo. O deputado do CDS, Ribeiro e Castro, que tinha um original do meu livro, mostrou depois a minha fotografia e, uma vez mais, Rui Carp disse não se lembrar de ter falado comigo. Acrescentou ainda que poderia ter conversado ao telefone, mas garantiu que nunca teria contado a um jornalista que houve aquele almoço. Acrescente-se que, pelo que consegui depreender daquilo que assisti, Rui Carp teria revelado esse almoço durante o seu testemunho na comissão e garantiu aos deputados que era a primeira vez que contava essa informação. Achei extraordinário e surreal que, uma informação publicada no meu livro, há um ano - a obra foi lançada para o mercado a 22 de Novembro de 2012 -, fosse considerada no dia 10 de Outubro de 2013 como um "exclusivo" para a Assembleia da República. Já escrevi muitas coisas, mas confesso que não tenho a capacidade de prever exclusivos com uma tão longa distância temporal. Quero então esclarecer a comissão, para que não fiquem dúvidas sobre a minha qualidade profissional e o rigor da obra sobre Camarate, como é que a informação desse almoço foi parar às páginas do livro, impressas há um ano. Refira-se, para o devido enquadramento, que as afirmações de Rui Carp estão contidas no epílogo, onde relato histórias que devem ser ainda aprofundadas. E, nesse sentido, devo dizer que os senhores deputados estão a fazer um excelente trabalho. O nome de Rui Carp foi-me transmitido pelo, infelizmente, já falecido Dr. Carlos Sousa Brito, que em 1980 era o secretário de Estado da Comunicação Social. Carlos Sousa Brito era amigo de Soares Carneiro, o general candidato da AD a Presidente da República contra o general Ramalho Eanes. De acordo com o testemunho de Sousa Brito, os documentos do fundo militar chegaram ao primeiro-ministro Sá Carneiro através do general Soares Carneiro. Por sua vez, como diziam respeito a questões financeiras, Sá Carneiro pediu a Sousa Brito que os fizesse chegar ao ministro das Finanças, cargo então ocupado pelo actual Presidente da República, Cavaco Silva. Ainda segundo o testemunho de Sousa Brito, os documentos foram mesmo entregues a Cavaco Silva e, recordava-se o antigo secretário de Estado, foi nessa altura que ele conheceu a chefe de gabinete do professor Cavaco, a futura ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite. Passado uns tempos, Sousa Brito quis saber do andamento do caso e foi informado que o subsecretário de Estado do Orçamento, Rui Carp, estava com o assunto em mãos. Foi na sequência deste testemunho que tentei, obviamente, tentar confirmar com Rui Carp a alegada circulação de documentos entre o gabinete do ministro das Finanças e o seu gabinete. Foi assim que, a 3 de Novembro de 2010, mandei um e-mail para o Dr. Rui Carp, então presidente do Instituto Seguros de Portugal, onde lhe coloquei essas dúvidas, assim como o facto do seu chefe de gabinete ser então o Dr. Ramiro Ladeiro Monteiro, futuro director do SIS. Segue em anexo o meu e-mail com o pedido de entrevista, enviado no dia 3 de Novembro de 2010 e segue também em anexo a resposta de recusa que recebi da parte da sua secretária, a 8 de Novembro, e que motivou ainda um segundo e-mail da minha parte, no mesmo dia, a agradecer a resposta – mesmo negativa -, e a manter em aberto a possibilidade de uma conversa sobre o assunto para mais tarde. Sem a possibilidade de poder confirmar a veracidade das afirmações de Sousa Brito, mantive essa história de fora da estrutura central do meu livro. Contudo, certo dia da Primavera de 2011, em data que não posso precisar, ao passar por uma feira de antiguidades no Jardim Conde Valbom, ao lado da Avenida Marquês de Tomar, em Lisboa, encontrei por acaso o Dr. Rui Carp, que estava na companhia de uma pessoa amiga. Estava ele a ver as antiguidades expostas e aproveitei a ocasião para me apresentar e dizer quem era e lhe tinha pedido uma entrevista para um livro de Camarate, há uns tempos, mas que ele recusara. A reacção de Rui Carp, que se mostrou muito simpático para comigo, foi a de dizer-me que se lembrava do meu contacto, mas não tinha nada a acrescentar. Então, sem ter que me tivesse pedido qualquer reserva de publicação, acrescentou, de moto próprio, a informação de que costumava "cruzar-se" com Adelino Amaro da Costa no restaurante Central da Baixa. Explicou-me ainda que isso acontecia porque trabalhavam todos no Terreiro do Paço, nos dois torreões opostos. Avançou com a informação de que andou depois a fazer perguntas aos vários ramos militares, mas que tal fora inconclusivo. Agradeci aqueles minutos no meio da feira de antiguidades e cada um seguiu o seu caminho. Por isso, senhor presidente, é que existe a tal informação "exclusiva" no meu livro. Informação que o Dr. Rui Carp não desmentiu perante a comissão e que deu detalhes que podem ser úteis para futuras audiências. Destaco a necessidade de ouvir o secretário de Estado acima de Rui Carp, Figueiredo Lopes, e ainda o ministro das Finanças de então, Cavaco Silva. E, parece-me útil, ouvir também a antiga chefe de gabinete do ministro das Finanças, Manuela Ferreira Leite. Penso que o Dr. Rui Carp foi sincero ao dizer à deputada Isabel Oneto que não se lembrava de mim, pois foi um encontro que terá durado cerca de 3 minutos, no meio da rua, há mais de dois anos. Mas, foi um importante encontro entre um jornalista e uma testemunha da época que se recusara a responder a contactos anteriores. E, se foi necessário esperar 33 anos para confirmar essa informação na Assembleia da República, então aqueles 3 minutos estão certamente entre os mais importantes da minha carreira profissional. Com os melhores cumprimentos Frederico Duarte Carvalho

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20130627

Estamos Unidos à América...

O Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, garantiu que não vai dar ordens de descolagem a aviões a jacto para prender um "hacker" de 29 anos, que já foi funcionário da CIA. Entretanto, o cidadão português José Esteves perguntou ao representante de Obama em Lisboa, se os EUA podem esclarecer o seu próprio envolvimento e o papel do cidadão americano, Frank Sturgis, no alegado plano de derrube de um avião onde seguiam a bordo, entre outros, o primeiro-ministro de Portugal, Sá Carneiro e o ministro da Defesa, Amaro da Costa. Nisso, estamos unidos à América. Obama a dizer que não iria "scrambling jets to get a 29-year-old hacker"... José Esteves a dizer que “os americanos têm de dizer o que sabem sobre a morte de Sá Carneiro”.

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20130620

Hoje, às 18h30, no Museu República e Resistência

20130528

Camarate à porta aberta

Depois da sessão de autógrafos - com um abraço a todos conhecidos e desconhecidos que apareceram no domingo à tarde - irei regressar ao Parque. Desta vez será para uma conversa à volta do livro "Camarate - Sá Carneiro e as armas para o Irão". Um tema que está a ser objecto de uma comissão de Inquérito na Assembleia da República e que, devido à sensibilidade do que ainda está em causa, tem vindo a decorrer com várias sessões à porta fechada. Neste caso, Camarate vai ser debatido à porta aberta, para que todos os interessados possam esclarecer as suas dúvidas. Para além de mim, estarão dois outros jornalistas: João Ferreira, ex-director do Tal&Qual e ainda João Vasco Almeida, ex-chefe de redacção da Focus. Vai ser no sábado, dia 1, a partir das 18 horas, na tenda amarela. Até breve!

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20130524

Feira do Livro - Lisboa

Se puderem, apareçam no domingo, dia 26, na Feira do Livro de Lisboa, a partir das 16 horas, onde estarei no pavilhão da Planeta a autografar a obra "Camarate - Sá Carneiro e as armas para o Irão". 



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20130507

Camarate à porta fechada

Fernando Farinha Simões esteve hoje de manhã na Assembleia da República para testemunhar sobre Camarate. Mas, segundo me informou há pouco num telefonema, via o seu advogado, desde a prisão de Vale de Judeus, recusou-se a acrescentar dados para além daqueles publicados há um ano na carta colocada no YouTube. E explicou porquê: a sessão foi à porta fechada, contra a sua vontade. Os deputados quiseram que a sessão fosse à porta fechada, mas Fernando Farinha Simões não se sente protegido para avançar com mais dados sobre a morte do primeiro-ministro Sá Carneiro e do ministro da Defesa, Amaro da Costa, caso não possa falar livremente em público para o maior número possível de testemunhas. Daí exigir que a AR, como casa de Democracia e de transparência, o deixe falar à porta aberta. Acrescentou ainda que, quando um deputado do PSD o confrontou com o facto de ele ser o "assassino" de Sá Carneiro, Farinha Simões respondeu-lhe: "Assassinos são vocês, que andam a matar o povo à fome". Assim, 30 anos depois de Camarate, ainda há medo em conhecer a verdade. Mas, esse medo já não parte dos autores do caso. Parte agora dos deputados e, ainda, dos jornalistas. Estive presente esta manhã na AR para poder ouvir o testemunho de Fernando Farinha Simões. Falei com o presidente da comissão, o deputado Matos Rosa, e disse-lhe que estaria na sala não como jornalista, mas como autor de um livro sobre o caso e antiga testemunha da mesma comissão. Ele compreendeu o pedido, mas não podia autorizar, pois corria o risco de estar a abrir uma excepção. Não vi por ali nenhum jornalista e, à saída do edifício, reparei num carro da RTP estacionado no parque reservado aos órgãos de Comunicação Social. Não creio que a equipa da televisão do Estado estivesse lá para acompanhar os trabalhos da comissão que anda a investigar a morte do primeiro-ministro e ministro da Defesa, mas sei que, na RTP, há um ano que existem entrevistas que Farinha Simões e José Esteves deram à jornalista Sandra Felgueiras e que continuam inéditas. Talvez hoje, dia em que a Democracia funcionou à porta fechada, a RTP pudesse fazer jornalismo e fosse buscar essas entrevistas e explicasse ao povo português aquilo que anda a ser escondido. Mas isto, claro, seria pedir muito aos jornalistas do canal público.

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20130418

Frederico D. Carvalho speaking about the international importance of Camarate

20130415

Louçã sabe que eu sei

Francisco Louçã, agora que deixou de ser deputado, começou a dizer coisas que não dizia. Agora, diz o que realmente sabe e pensa ou, em alternativa, tornou-se numa pessoa "irresponsável", adepta de "teorias da conspiração". Explique-se: a minha mais recente obra fala sobre a morte de Sá Carneiro, onde aponto o tráfico de armas para o Irão como o provável móbil para um atentado. Isso está a ser investigado na Assembleia da República, onde fui testemunhar há cerca de um mês. Fiz ver aos deputados da Nação que, em 1980, era proibido vender armas para o Irão, pois havia um embargo internacional devido à crise dos reféns de Teerão. Ainda hoje se suspeita, nos EUA, que o então ex-director da CIA e candidato a vice-Presidente dos EUA, George Bush (pai), teria negociado secretamente, em Paris, durante o fim-de-semana de 18 e 19 de Outubro de 1980, o envio de armas para o Irão de modo a que os iranianos pudessem combater contra o Iraque de Saddam Hussein. A guerra Irão-Iraque começara um mês antes e viria a prolongar-se até 1989. Em troca, os iranianos atrasariam a libertação dos reféns até ao dia das eleições presidenciais nos EUA, que teriam lugar daí a um mês, a 4 de Novembro de 1980. Foi assim que Jimmy Carter não conseguiu ser reeleito e George Bush tornou-se vice-Presidente, depois Presidente e, mais tarde, pai de Presidente (ainda poderá vir a ser avô de Presidente...). Frisei que a morte de Sá Carneiro, a 4 de Dezembro de 1980, ocorreu depois das eleições, mas também antes da libertação dos reféns de Teerão, facto que só veio a acontecer no dia da tomada de posse de Reagan como Presidente, ou seja, no dia 20 de Janeiro de 1981. Falei ainda do negócio do tráfico de armas durante os anos Reagan/Bush e que deram origem ao chamado escândalo "Irangate", que teve ramificações em Portugal. Fiz ainda notar aos deputados da Xª Comissão de Camarate para o facto de George Bush ser muito amigo do actual Presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, a ponto de ter sido um dos convidados de honra da tomada de posse de Cavaco em 2006. Era ainda uma amizade que remontava ao ano de 1986, altura do tráfico de armas por Portugal. São factos que mereciam ser debatidos muitos antes de eu ter sido obrigado a escrever o meu livro. Mas, por exemplo, nunca ouvi nada da parte do Bloco de Esquerda sobre estes factos. Se calhar não sabiam de nada. Nunca vi nada escrito por Francisco Louçã sobre estes factos - e, se o fez, lamento mas nunca os vi. Se, entretanto, alguém quiser elucidar-me ou desmentir qualquer acusação de deslealdade intelectual da minha parte, por favor, diga-me e reconhecerei humildemente o erro. Agora, vi que o ex-deputado Francisco Louçã é autor de um livro "Isto é um Assalto" , feito em conjunto com Mariana Mortágua e com ilustrações de Nuno Saraiva. Depois de ter lida uma das Bandas Desenhadas que está na obra, considero que Francisco Louçã, afinal, já sabia tudo aquilo que fui dizer. Porquê? Porque agora eu tenho a certeza que ele sabe o que eu também sei. Ele sabe que Bush pai foi chefe da CIA. Ele sabe que Sá Carneiro morreu em 1980. Ele sabe que havia tráfico de armas para o Irão e que isso passou por Portugal. Ele sabe qual era o banco que servia para esses negócios. E ele sabe que Bush esteve na tomada de posse de Cavaco. Ele sabe isso e muito mais. Mas nunca o disse como deputado. Prefere "esconder" aquilo que sabe numa Banda Desenhada. Nunca se comprometeu, enquanto deputado, pela denúncia ou pela divulgação pública destes factos. Para mim, a BD é uma arte nobre, muito importante do ponto de vista da Comunicação. Mas, para Francisco Louçã, parece ser uma coisa menor, para crianças, onde, aparentemente, pode dizer o que quiser sem risco de dissabores. Pode dizer o que nunca disse no Parlamento. Mas, agora fica aqui o registo que eu sei que ele sabe...











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20130322

Dez anos depois

Passei ontem na FNAC do Chiado e estive a assistir ao lançamento do livro de Bernardo Pires de Lima sobre a cimeira das Lajes de há 10 anos, antes da invasão do Iraque. Durante os discursos, o especialista em questões internacionais, Miguel Monjardino, disse que a questão do Iraque passou por cinco administrações norte-americanas: Ronald Reagan, George Bush, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. No fim, abordei este especialista e perguntei por que motivo continuam os "especialistas" a ignorar que a guerra entre o Iraque e o Irão começou em Setembro de 1980, ainda durante a administração de Jimmy Carter? Ele ficou visivelmente embaraçado. Perguntei-lhe depois por que motivo se continua a tentar esconder que o tráfico de armas para o Médio Oriente em Portugal começou ainda antes da chegada de Reagan ao poder e que o caso Irangate não começou em 1982, mas sim alguns meses antes de Camarate? Ele sorriu e disse que isso daria um bom debate. Enfim, são coisas que aprendi há 10 anos, quando desci a Avenida da Liberdade - a da "suposta" Liberdade para ser mais exacto - para marcar a minha posição contra a invasão do Iraque, e vi o ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República, Mário Soares, a lanchar no Rossio depois dos discursos. Daí nasceu a ideia para o livro "Eu Sei Que Você Sabe", publicado em Novembro de 2003. Entretanto, Pires de Lima disse que está a pensar escrever um livro sobre Durão Barroso. E, de forma algo misteriosa, deixou a indicação de que a preparação da ida de Durão Barroso para a Comissão Europeia, e que aconteceu no rescaldo do Euro2004, afinal terá sido planeada na altura em que Guterres se demitiu em Dezembro de 2001. Achei piada a isso, pois já abordei essa questão num outro livro que escrevi há três anos. Chama-se "Estado de Segredos" e nessa obra lembrei uma notícia do "Público", de 18 de Dezembro de 2001, com o título "Guterres poderá ter falhado por 24 horas uma carreira europeia oferecida de bandeja". Essa carreira era, naquela altura, ser presidente da convenção para a reflexão do futuro da Europa. Só que Guterres era primeiro-ministro e, para aceitar o cargo, teria de se demitir a meio do mandato. A questão fora analisada na reunião de líderes europeus na sexta-feira, dia 14 de Dezembro de 2001. Guterres não aceitou demitir-se para seguir para a Europa. Mas, dois dias depois, na noite de 16 de Dezembro, demitiu-se quando o seu PS perdeu as câmaras municipais de Lisboa e Porto na eleições autárquicas. E, ao contrário do protocolo, anunciou a demissão antes das declarações de Paulo Portas, o líder do CDS/PP que estava a ser pressionado também para se demitir depois de não ter conseguido fazer a diferença na eleição em Lisboa (era ele o cabeça-de-lista). Se Guterres tivesse falado no fim da noite, após todos os outros, como qualquer grande líder, Portas teria de falar sem conhecimento da decisão de Guterres. Mas, depois do anúncio da demissão do primeiro-ministro do PS, quando Portas apareceu perante as câmaras nessa noite, já não o fez como o candidato derrotado contra Santana Lopes, mas sim como o líder de um partido que, de acordo com as sondagens da altura, poderia ser governo em coligação com o PSD de Durão Barroso caso houvesse eleições antecipadas. E foi isso o que Guterres "ofereceu" ao País naquela noite de 2001. Deu-nos o pântano, deu-nos um Durão Barroso que, dois anos depois, em plena euforia do Euro2004, não hesitou em demitir-se a meio do mandato e a ir "jogar" para a Europa. E foi assim, com Santana pelo meio, com a demissão de Ferro "Casa Pia" Rodrigues, apareceu José Sócrates. E foi assim que viemos parar a este "pântano". Sim Bernardo, escreve lá o livro que bem nos faz falta...

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20130321

Comissão cumprida

Foram três horas. Entre as 19 e as 22 horas de ontem estive a responder a todas as perguntas dos deputados na Xª Comissão Parlamentar de Inquérito de Camarate. No fim ficou a sensação do dever cumprido, como jornalista e cidadão. Foi o culminar de mais de 10 anos de trabalho com muitos riscos profissionais, foram mais de 30 anos de vontade em querer saber a verdade. Como disse ontem aos deputados, era por ali que tudo deveria ter começado quando, a 4 de Dezembro de 1980, caiu o avião com o primeiro-ministro e ministro da Defesa a bordo. Qual o "nexo de causalidade" entre a morte de Sá Carneiro e o tráfico de armas para o Irão, foi a primeira pergunta, feita pela deputada Isabel Oneto, do PS. Estava dado o mote de partida. A reportagem da agência Lusa destacou para título essa primeira pergunta entre as muitas que depois se seguiram durante as três horas. E ainda bem, pois foi uma atitude inteligente de quem fez a pergunta e da jornalista que a registou (creio que era uma jornalista, pois só havia uma pessoa presente no local habitualmente ocupado pela Comunicação Social e era mulher). Respondi que também eu queria saber isso. Destaquei então a capa do meu livro, que pelo grafismo, reproduz jornais da época e disse que, na realidade, Camarate só ontem é que começava a ser investigado. Os jornalistas da época podiam ter começado a investigar o caso dos reféns de Teerão e a possibilidade de haver ou não um "nexo de causalidade" com a morte do primeiro-ministro. E davam assim seguimento ao artigo do jornal "Portugal Hoje", de 11 de Novembro de 1980, semanas antes da queda do avião Cessna, onde era mencionado esse tráfico. Um jornal onde estagiou a deputada socialista que ainda não conhece o "nexo de causalidade". Outro dado muito inteligente registado pela reportagem da Lusa foi a lista dos nomes das pessoas que sugeri que deviam ser ouvidas precisamente para procurar esclarecer o tal "nexo de causalidade". Escreveram que sugeri Frank Carlucci, que fora o embaixador dos EUA em Lisboa e era o número dois da CIA na altura da morte do primeiro-ministro português, o ex-Presidente da República e amigo pessoal de Carlucci, Mário Soares, e o ministro dos negócios Estrangeiros de 1977, Medeiros Ferreira. Eram os nomes que, devido aos cargos que então ocupavam, estavam envolvidos num caso de tráfico de armas em Portugal em Julho de 1977. No entanto, a minha lista era mais completa. Também sugeri Alpoim Calvão, responsável pela empresa Explosivos da Trafaria, José Garnel, da empresa Defex, Henry Kissinger, Vasco Abecassis (ex-marido de Snu e que teria telefonado para Donald Rumsfeld para saber se Sá Carneiro era "perseguido" pela CIA), Cavaco Silva, Rui Carp, Jim Hunt (sobrinho de Frank Sturgis, o suposto autor do atentado, pessoa que terá apertado o botão do controlo remoto que fez explodir a bomba a bordo do avião), para além de José Esteves e Farinha Simões. Sugeri ainda que a Assembleia da República pedisse à CIA que esclarecesse os factos descritos no meu livro sobre o tráfico de armas por Portugal durante a crise dos reféns do Irão e as suspeitas de Sá Carneiro. Mas, de igual modo, alertei os deputados para o perigo que este caso, ainda hoje, representa para a estabilidade do regime dos EUA e do Irão. Frisei que Camarate era uma questão que envolvia a nossa soberania. Foi por termos perdido essa soberania ao longo dos anos em que não se investigou o tráfico de armas por Portugal que permitimos o actual domínio da Troika. Mencionei o facto de que, desde 1975, a nossa Democracia, construída na base de atentados à bomba e de contra-informação, ainda hoje não permite a plenitude do jogo democrático com uma aliança PS-PCP. Mas que, ainda assim, investigar Camarate, era um sinal para o resto do mundo de que tínhamos a coragem de arrumar a nossa casa e dizer depois aos outros países que fizessem o mesmo.
Eu cumpri.
Agora, outros que cumpram também o seu dever.

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20130318

Com Inspiração - Camarate

20130311

Mais um passo...



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20130308

Então, foi assim...

Estive hoje na Assembleia da República a assistir ao lançamento do livro sobre Camarate, "O Grande Embuste", do jornalista José Manuel Barata-Feyo. Comprei a obra à entrada e tive tempo para ler algumas passagens antes do início da apresentação. Foi o suficiente para comprovar que um livro sobre Camarate que, na capa, tem uma citação do jornalista Miguel Sousa Tavares a garantir que se trata da "primeira investigação séria, isenta e completa, até hoje feita, de um caso que assola Portugal há mais de trinta anos", não abordou o tráfico de armas para o Irão que Sá Carneiro andava a investigar. Durante a apresentação, Barata-Feyo explicou que o "embuste" é o facto da Assembleia da República estar hoje a investigar algo que os dados científicos não conseguiram provar, ou seja, o atentado. Logo, se não houve crime, não pode haver um móbil do crime, o que, como argumento, pareceu-me bastante lógico. Mas, como argumento jornalístico parece muito fraco, pois é sabido pelos jornais da época - eu tinha então 8 anos, mas Barata-Feyo já era jornalista e deve saber isso melhor do que eu - o tráfico de armas para o Irão estava na ordem do dia, tal como a investigação ao Fundo de Defesa Militar de Ultramar. E isso "morreu" em Camarate. Assim, no fim da cerimónia, e como não houve direito a perguntas, esperei na fila dos autógrafos para pedir uma assinatura ao autor. Apresentei-me e contei-lhe que, se ele ainda não o sabia, eu também tinha escrito um livro sobre o caso. O jornalista admitiu que tinha "ouvido falar" de um livro sobre o tráfico de armas. E depois queixou-se que era difícil conseguir uma cópia do mesmo na "província", ou seja, em Castelo Branco. Então informei-o que teria todo o prazer em pedir à minha editora que mandasse um exemplar para a sua editora, em Lisboa, que depois poderia expedir-lhe, via correio, para a sua morada pessoal. Ainda acrescentei uns detalhes sobre o meu trabalho e agradeci-lhe por ter escrito o livro, pois iria ser muito importante para continuar com a minha investigação. E apertámos a mãos.
Pronto, foi assim.
Sobre o livro de Barata-Feyo, não tenho muito a dizer. Para mim, é inútil perder tempo a discutir se houve ou não atentado. Havia muitas razões para matar Sá Carneiro. E, qualquer investigação jornalística séria iria descobrir coisas que, ainda hoje, nem o jornalista que fez "a primeira investigação séria, isenta e completa", menciona.

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20130307

Camarate, um ano depois, visto por Francisco Sousa Tavares

20130305

"O Grande Embuste"

O jornalista José Manuel Barata-Feyo vai apresentar na próxima quinta-feira, dia 7, pelas 18h30, no auditório da Assembleia da República, o livro sobre Camarate intitulado “O Grande Embuste”. Hoje vem um artigo sobre a obra no “Diário de Notícias” e que permite antecipar o seu conteúdo. Afirma Barata-Feyo, que é apresentado como “jornalista autor da primeira investigação à morte em 1980 de Sá Carneiro”, que “é impossível concluir que houve atentado na queda do Cessna” que, a 4 de Dezembro de 1980, causou a morte, entre outros, ao primeiro-ministro Sá Carneiro e ministro da Defesa, Amaro da Costa. Sem querer discutir quem foi “o primeiro jornalista”, apenas registo que, por exemplo, Augusto Cid, então a trabalhar no semanário “O Diabo”, foi dos primeiros a chamar a atenção para algumas das discrepâncias entre a versão oficial e os factos. Pouco depois de Camarate, Augusto Cid percebeu que a versão oficial defendia que os cadáveres estavam com os ossos partidos, o que significava que as vítimas se encontravam vivas no momento do impacto, enquanto a autópsia indicava o contrário: os ossos estavam inteiros, logo as vítimas deveriam estar inconscientes no momento do impacto. A suspeita de que teria havido um atentado adensava-se, tanto mais que o próprio semanário tinha mencionado a possibilidade de uma explosão a bordo num artigo publicado no dia 10 de Dezembro de 1980, ou seja, apenas uma semana depois da queda do Cessna. Augusto Cid falou depois do rastro de detritos do avião encontrado no fim da pista, ainda dentro do aeroporto, indiciando que o aparelho estaria a arder no ar antes de cair no bairro de Camarate. Durante anos discutiu-se o chamado “efeito chaminé”, ou seja, o rastro teria sido provocado pelo incêndio do avião no local da queda, facto que fez elevar os detritos tendo sido depois espalhados na pista do aeroporto por acção do vento. No entretanto, as várias testemunhas que viram o avião explodir no ar, como foi o caso do chefe de segurança de Sá Carneiro, seriam sempre desprezadas pela investigação policial com a apresentação de uma explicação alternativa e a favor da tese do acidente. É verdade que Barata-Feyo andou muito empenhado em investigar Camarate, juntamente com Artur Albarran, para um programa da RTP da saudosa rubrica “Grande Reportagem”, exibido no início de 1983. Eu não sei o que se passou em Camarate, pois na altura tinha apenas 8 anos. Mas, cresci a admirar jornalistas como Barata-Feyo e também Miguel Sousa Tavares, outro dos jornalistas de “Grande Reportagem”. Lembro-me da revista com o mesmo nome, que comprei pela primeira vez em 1990, ainda antes de entrar na Escola Superior de Jornalismo. Era dirigida por Barata-Feyo e, logo depois, por Miguel Sousa Tavares. Estes eram dois nomes do jornalismo português que eu respeitava e cujo exemplo de investigação e capacidade de fazer perguntas incómodas ao poder nortearem a minha vontade em querer ser jornalista. E, frise-se, era essa também a referência de muitos outros jovens como eu. E Camarate sempre foi um grande mistério que, de vez em quando, era comentado por estes dois grandes nomes do jornalismo nacional. Por isso, para seguir as pisadas de Barata-Feyo e Miguel Sousa Tavares, também investiguei Camarate. Afinal, eu até tinha uma história pessoal sobre aquele dia: conhecia o piloto de um segundo avião que deveria ter levado Sá Carneiro de Lisboa ao Porto e que, no fim do comício no Coliseu, deveria ter transportado o primeiro-ministro de volta a Lisboa. Era o pai de um amigo meu. Esse era o avião da RAR. Tal como Barata-Feyo não consegui provar que era acidente. Aliás, um acidente não se prova, confirma-se apenas. Aqui, o que havia a provar era o atentado. E, nesse caso, há indícios fortes de atentado. Demasiados. Podem não ter hoje valor do ponto de vista jurídico, mas têm do ponto de vista jornalístico. Ainda não li o livro “O Grande Embuste” e não sei qual o conteúdo exacto, mas espero que Barata-Feyo, apesar de desafiar a verdade política – e ainda bem que o faz, pois é sempre de salutar o contraditório -, reconheça que, independentemente de Camarate ter sido acidente ou atentado, havia investigações polémicas que Sá Carneiro tinha em mãos e que também “morreram” com ele em Camarate. Só hoje, mais de 30 anos volvidos, e graças aos trabalhos da mesma Assembleia da República onde Barata-Feyo vai apresentar o seu “embuste”, estamos finalmente a descobrir a verdadeira dimensão do Fundo de Defesa Militar de Ultramar e as implicações suficientemente sérias para provocar um atentado contra o primeiro-ministro como era o tráfico das armas para o Irão. E isso não era nenhum segredo, pois até estava na primeira página dos jornais publicados um mês antes de Camarate. Mas, Barata-Feyo e Miguel Sousa Tavares, enquanto discutiam se era atentado ou acidente, nunca foram mais à frente e nunca seguiram a pista do tráfico de armas. Tive se ser eu, mais tarde, a fazer essa investigação e a contar o que descobri. E hoje, apesar das críticas, pelo menos posso andar de cabeça erguida na sociedade em que estou inserido e com o prazer acrescido do dever cumprido e, sobretudo, com a certeza de que não sou um embusteiro.

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20130124

À Volta dos Livros de 24 Jan 2013 - RTP Play - RTP