20120423

25 Abril e os homens da idade da pedra

A Associação 25 de Abril que, segundo parece, será a legítima proprietária daquilo que eu achava ser de todos, diz que não vai participar nas cerimónias oficiais do 25 de Abril por discordar da política do Governo. A decisão só seria ridícula se tivesse importância, tal como idêntica atitude de Mário Soares. Afinal, este regresso dos homens de Abril à "idade da pedra" durante a vigência de um governo PSD/CDS nem sequer é novo e revela-se completamente infrutífero para a resolução dos problemas do País. Constatar isso, sinceramente, é que é uma pena...
"Expresso", 24 de Abril de 1980

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20111122

Manual de Instruções para Golpes de Estado

Um golpe de Estado não se anuncia. Faz-se. E, de preferência, a uma terça, quarta ou quinta-feira. Porquê? Para haver tropa. Esta indicação foi-me dada por alguém que já fez um golpe de Estado, Otelo Saraiva de Carvalho. O 25 de Abril de 1974 foi a uma quinta-feira, enquanto a intentona do 16 de Março, nas Caldas da Rainha, foi de sexta para sábado. Por isso falhou. Salgueiro Maia, certa vez, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro, foi apresentado ao chefe do Governo durante uma cerimónia militar: "Sr. primeiro-ministro, este é Salgueiro Maia, o homem que prendeu o chefe do Conselho, Marcello Caetano". Maia sorriu e disse a Cavaco: "Prendi sim senhor, e prenderei outro se tal for necessário". Cavaco engoliu em seco, Maia já não está entre nós, morreu de cancro. Cavaco, antigo líder social-democrata, está agora em Belém, na cadeira que foi de Américo Tomaz. O actual chefe do Governo é um ex-dirigente da juventude social-democrata. O ministro dos Negócios Estrangeiros é um antigo membro da juventude social-democrata e o anterior primeiro-ministro, apesar de ser "socialista", ainda chegou a militar na juventude social-democrata. O actual presidente da comissão europeia, o português Barroso, passou pela juventude de um partido marxista e chegou depois a líder do partido social-democrata. A alternância dita "democrática" que hoje temos não é fruto de uma revolução feita a 25 de Abril de 1974, pois temos ainda de recordar outras datas que não são feriados: 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975, 25 de Novembro de 1975 e 4 de Dezembro de 1980. Feriados como o 25 de Abril, 10 de Junho, 1 de Dezembro, não parecem fazer sentido nos dias de hoje. Penso que deve-se manter o 5 de Outubro, mas exaltado como data do Tratado de Zamora de 1143 - e que Portugal seja um País onde, finalmente, se celebra a data da sua criação!. E, por fim, que se comece desde já a trabalhar para criar um novo feriado.

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20100531

"Olhe que não! Olhe que não!"

Na noite de quinta-feira, 6 de Novembro de 1975, Mário Soares e Álvaro Cunhal protagonizaram o mais intenso e histórico debate televisivo que há memória em Portugal. Foram quase quatro horas de troca de argumentos em directo. Hoje, o que retemos na memória colectiva é Álvaro Cunhal a garantir a Mário Soares que o PCP não iria lutar por uma ditadura de esquerda - "Olhe que não! Olhe que não!" -, mas o debate foi muito mais do que isso. Existem algumas imagens desse confronto no "You Tube", mas uma versão integral - a edição de um DVD comemorativo, no melhor exemplo da entrevista "Frost-Nixon" original - não parece estar estar nos planos da TV pública. Felizmente, o extinto "Diário de Lisboa", consciente de que aquele fora um momento histórico, publicou dias depois, a 8 de Novembro, a transcrição do confronto político. É um documento único da nossa história contemporânea. Numa altura em que se discutia a união entre o PS e PCP, a dias da independência da última colónia portuguesa, Angola, o país vivia uma instabilidade social única. Escassos vinte dias após o debate acontecia o 25 de Novembro. E o país "entrava nos eixos"... Hoje, precisamos de novos heróis políticos...

















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20100507

"Estado de Segredos" em notícia

Portugal: Livro revela que 25 de Abril anulou parcialmente efeito de "cacha" jornalística

Lisboa, 06 mai (Lusa) - O 25 de abril condicionou o efeito político do exclusivo de um jornal britânico, segundo o qual mercenários rodesianos participaram nos massacres ocorridos em dezembro de 1972 em Moçambique, disse hoje à Lusa o jornalista Frederico Duarte Carvalho.

Autor do livro "Estado de Segredos", que vai ser lançado sábado na Feira do Livro de Lisboa, Frederico Duarte Carvalho disse à Lusa que ficou "surpreendidíssimo" quando teve acesso à "cacha" jornalística do diário britânico The Guardian, da edição de 23 de abril de 1974.

"Fiquei surpreendidíssimo quando numa simples busca pelos arquivos da Internet, que já há alguns tempos começaram a ficar disponíveis nalguns dos grandes jornais", disse.

A notícia do The Guardian, retomada um dia depois pelo The Times, outro diário britânico, era assinada pelos jornalistas Peter Niesewand e António Figueiredo e "acusava Lisboa de ter dado 'licença para matar' a mercenários da Rodésia, país liderado por Ian Smith", lê-se no livro.

"Depois do livro estar feito, há umas duas semanas, comecei a reparar que esta situação é realmente um dos segredos deste Estado", disse à Lusa Frederico Duarte Carvalho.

"Ao analisar o contexto em que a notícia é publicada e ao analisar o facto dela nunca ter cá chegado a Portugal, eu proponho uma especulação: se por acaso esta notícia foi difundida por pessoas próximas do (então general António de) Spínola, serviram-se dessa forma para fazer a chantagem ou para garantir que as tropas do (general) Kaúlza de Arriaga não avançassem contra as tropas do Spínola naquele dia 25 de abril", considerou.

O golpe militar em Lisboa, dois dias depois, poupou o país a um julgamento público e internacional", sintetizou Frederico Duarte Carvalho no livro.

O Guardian publicou integralmente o relatório secreto, "elaborado por militares portugueses, que confirmava, pela primeira vez, no seio do exército português", os massacres de Wiriamu e Chavola, perto de Tete, em Moçambique.

Estes massacres, "denunciados pelo padre Adrian Hastings, em junho de 1973, na véspera da visita oficial de (Presidente do Conselho de Ministros) Marcelo Caetano a Londres (...) destruíam a legitimidade das ações militares portuguesas na defesa dos interesses coloniais em África", lê-se no livro.

EL.

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20100425

"Estado de Segredos" - O Livro

O plano do Pentágono

Este é apenas o início do "Estado de Segredos"...

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20100424

Amanhã, a Revolução sai à rua

Aviso todos os leitores para amanhã estarem atentos a este meu blogue. São esperadas novidades...


Foto: Victor Valente

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20100318

Estrada para a Liberdade

Por que razão não se evoca o 16 de Março? É por ter sido um golpe falhado? Mas, então, se não tivesse havido essa intentona, esse dito "ensaio" de Revolução, será que a acção militar de 25 de Abril teria tido sucesso? Por que não se aproveitam estes dias que antecedem a festa de Abril para organizar palestras, fazer conferências, iniciativas cívicas, debates, discussões, encontros, concursos, exposições, corridas, feiras populares, jogos florais, livros, festival de música e outras iniciativas tais sob uma denominação de, por exemplo, "Estrada para a Liberdade - Do 16 de Março ao 25 de Abril"? Assim, vamos chegar ao dia 25 de Abril - que este ano, ainda por cima, nem sequer vai dar direito a feriado, pois calha a um domingo - e a data histórica vai ser marcada com mais discursos e flores na Assembleia da República que não atraem ninguém e uma qualquer marcha "popular" na Avenida da suposta Liberdade, engajada a uma esquerda cada vez mais fracturada pela sociedade de consumo, encabeçada por uns quantos que quase não têm voz activa - ou emprego - e, prontos, já está! Celebrou-se a data, cumpriu-se a "praxe" e, no dia 26, vai a malta trabalhar feito carneiro - os que podem, lá está. Se há "mito" sobre o nosso 25 de Abril é o do que, em Lisboa, nada acontecia antes da Revolução que merecesse a atenção da Imprensa norte-americana. É mentira. A 16 de Março de 1974, o mui respeitável "New York Times", através do seu correspondente na Península Ibérica, o jornalista Henry Giniger, escreveu que havia um livro escrito por um general e que estava a abalar o país...



Dois dias depois, o mesmo diário norte-americano publicou uma reportagem do seu correspondente sobre a intentona do 16 de Março. Foi então realçado o facto de que a Imprensa portuguesa, sempre controlada e habituada à censura em relação a assuntos militares ou de dissidência política, desta vez fora autorizada a fornecer detalhes completos sobre os acontecimentos, "talvez como aviso a outros aspirantes a golpistas". E a única "invasão" que ocorrera nesse dia fora a dos adeptos do FC Porto, que vieram com as suas bandeiras e cornetas jogar contra um clube de Lisboa. Contudo, o "contigente" do Porto teve de regressar a casa após ter sido batido por 2-0. Linguagem bélica a lembrar o célebre artigo desportivo do diário português "República", desse mesmo dia 18 de Março - faz hoje 36 anos -, que terminava com estas palavras: "Perdeu-se a batalha, mas não a guerra"...

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20080426

País de Doutores e Engenheiros

O presidente Cavaco Silva, que já foi primeiro-ministro de Portugal durante 10 anos (1985 a 1995) queixou-se: "'Metade dos jovens entre os 15 e os 19 anos e um terço dos jovens entre os 18 e os 29 anos não foi capaz de responder correctamente a uma única das três perguntas colocadas', sublinhou. Cavaco referiu que este estudo perguntou a estes jovens 'qual o número de Estados da União Europeia, quem o primeiro presidente eleito após o 25 de Abril e se o PS detinha ou não a maioria absoluta no parlamento'.
Eu disse, há quatro anos, e citado pela Agência Lusa: "O autor de 'Abril Sangrento' também não poupa a classe jornalística, 'que está muito desunida, o que só facilita as manobras do patronato', e critica ainda os jornalistas mais jovens, que pouco conhecem do passado e 'não sabem o que foi a revolução'".
E, um ano antes, em 2003, expliquei que o culto da ignorância já vinha de longe, uma vez que eu próprio o detectara em 1994, quando fui autor das perguntas de cultura geral para o programa "Doutores&Engenheiros", onde os estudantes universitários da altura - hoje na casa dos 30 anos - não sabiam responder a questões ditas básicas do mundo em que vivem: "Assim, para mim e para os meus amigos, o rio que banhava Londres ficou para sempre conhecido como o Tâmega e, salvo erro, a capital da Argentina, era o Peru. Mas, o pior foram as perguntas que ficaram sem resposta. Recordo aqui uma muito particular: 'Quem é o autor do livro 'Crime e Castigo'?'. Não sabiam. Silêncio profundo".
E nunca precisei de encomendar estudos...

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20080415

O segredo dos segredos norte-americanos sobre a nossa Revolução

Comprei este livro do jornalista e blogger Nuno Simas...



Tem lá detalhes inéditos, de documentos que ele recolheu junto da biblioteca Gerald Ford. Há um ano, graças a outros documentos que também surgem no livro, fiz este artigo para a Focus...





Podem encontrar aqui os originais dos arquivos norte-americanos.
O Nuno Simas, contudo, começa o livro com a defesa da versão oficial de que os EUA estavam a "leste" em relação ao golpe que preparava para o dia 25 de Abril de 1974 e, mais à frente, cita Henry Kissinger a queixar-se de que os EUA não tinham de andar a prever golpes pelo mundo fora. Dito assim, parece mesmo que nada se sabia...



Só que, em 2003, no livro "Eu Sei Que Você Sabe", apontei algumas evidências factuais que nos permitem pensar em sentido contrário. E isso começava com esta notícia do "Diário de Notícias" do dia 7 de Abril de 1974...



Entenda-se que o embaixador norte-americano, Stuart Nash Scott, era uma pessoa inexperiente quanto à diplomacia de Portugal, pois chegara em Janeiro de 1974 e não conhecia muita gente em Lisboa. É dito que veio para cá apenas para gozar o sol porque Lisboa era um poiso onde nada se passava - excepto, é claro o conflito de Israel, em Outubro de 1973, que obrigara a uma acesa troca de telegramas diplomáticos entre Washington e Lisboa por causa do uso da base das Lajes nas missões norte-americanas de apoio ao governo de Telavive. Coisa pouca... Quem geria a embaixada norte-americana em Lisboa era um senhor chamado Richard Post, o número 2 e que substituira o anterior embaixador durante um ano. Richard Post, antes de vir para Lisboa, servira em Angola, onde conheceu muitos militares que viriam a subir ao poder depois do golpe.
Conforme me explicou um outro militar de Abril - Otelo Saraiva de Carvalho - qualquer golpe de Estado, para ter sucesso, tem de ocorrer numa terça-feira, quarta-feira ou quinta-feira... Porquê? Para haver tropas... Não se pode fazer uma revolução ao fim-de-semana ou nos dias mais próximos. O golpe das Caldas da Rainha, a 16 de Março de 1974, falhara porque acontecera de sexta-feira para sábado... Já o 25 de Abril de 1974 teve lugar numa quarta-feira para quinta-feira, uma das duas datas ideais para garantir o sucesso.
Um adido militar na embaixada norte-americana em Lisboa que estivesse em contacto com Washington e soubesse que algo se iria passar, mas desconhecesse a data concreta, saberia, contudo, que um golpe teria de ocorrer num daqueles três dias da semana.
Diz-nos a história, a PIDE sabia que se preparava algo em grande para o dia 1 de Maio de 1974, dia do Trabalhador, uma quarta-feira. Se tinha de haver um golpe de Estado em Portugal feito por tropas militares com uma linha de orientação próxima da NATO - ou seja, distante dos movimentos de esquerda que se previam formar no 1 de Maio "sangrento" - esse golpe teria de ter lugar na terça, quarta ou quinta-feira antes de 1 de Maio... Ou seja, nos dias 23, 24 ou 25 de Abril (26 seria sexta, 27 e 28 o fim-de-semana, segunda seria 29 e, terça-feira, dia 30 era um dia demasiado próxima do 1 de Maio).
Afastar o embaixador dos EUA de Lisboa nos dias 23, 24 e 25 de Abril era imperioso para garantir o sucesso do golpe, já que os EUA não podiam intervir ou correr o risco de serem considerados suspeitos de preparar ou apoiar os golpistas (se os EUA tivessem de intervir a 25 de Abril teriam de o fazer a favor de Marcello Caetano, uma vez que era ele o governante de um país membro da NATO e não convinha nada dar a entender que os EUA apoiaram golpes militares e mudança de regime dentro da esfera de influência NATO. Afinal, isto não era a Checoslováquia em 1968).
E assim aconteceu... E ainda hoje se defende que os EUA nada sabiam do que se iria passar.
Tenho pena que o Nuno Simas tenha embarcado pelo aspecto mais fácil que foi o de optar por esquecer aquela pequena notícia de 7 de Abril e as ponta soltas que a mesma comporta. Preferiu o lado mais simples para registar a História...
No meio disto tudo, desconheço ainda se o Nuno Simas viu o telegrama que o cônsul norte-americano em Luanda, Briggs, mandou para Washington a 7 de Janeiro de 1974 onde diz que um bem relacionado militar de baixa patente (seria um capitão?) o informou de que o golpe de extrema-direita de Kaúlza de Arriaga é algo "exagerado" em relação ao que se "estava realmente a preparar" - "what actually is afoot"... e o que se estava a preparar? o 25 de Abril de 1974, é claro...



Se não acredita e que ver o original, vá aqui.

Outro detalhe que mencionei há uns tempos é o artigo do diário norte-americano "Washington Post", datado de 8 de Abril de 1974 - ou seja, o dia seguinte à publicação da notícia de que o embaixador dos EUA iria estar ausente de Lisboa no dia do golpe que se avizinhava -, onde se dá conta de que os homens de negócios em Portugal dão luz verde a uma mudança de regime no país desde que tal seja levada a cabo por Spínola...
Enfim, o que vale é que estou também a preparar uma continuação do "Eu Sei Que Você Sabe" - interrompida devido ao facto de ter escrito "O Enigma da Praia da Luz" - mas em breve direi aquilo que continuam a não querer dizer-vos.

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20080316

Que arda no inferno, na mais quente das fornalhas

É um desabafo tão grande e sentido aquele que acabei de ler. O general Silva Cardoso, que tive a honra de entrevistar há 10 anos quando cheguei a Lisboa para trabalhar no "Tal&Qual", lançou um novo livro de sua autoria...



Silva Cardoso, para quem não sabe ou não se recorda, foi o Alto Comissário de Portugal durante a transição do poder em Angola na sequência da assinatura do Acordo de Alvor, em Janeiro de 1975. É ele que, na foto, está atrás do líder da UNITA, Jonas Savimbi, e de Mário Soares, o então ministro dos Negócios Estrangeiros...



O general, contudo, decidiu deixar a tarefa ainda antes da entrega de Angola marcada para 11 de Novembro de 1975...



Mais de 30 anos depois, Silva Cardoso, na obra "A Revolução da Perfídia", olha para trás e desabafa com todas as letras bem marcadas a negro, para que ninguém tenha dúvidas sobre os seus sentimentos...



E eu não consigo dizer mais nada...

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20070425

Um dia de Abril

Alguns papéis...

O Abril que ninguém pediu