Blogue do jornalista Frederico Duarte Carvalho, com coisas que tanto faz que se saibam porque em nada servem para o que sabemos. e-mail: paramimtantofaz@gmail.com
20111122
Manual de Instruções para Golpes de Estado
Um golpe de Estado não se anuncia. Faz-se. E, de preferência, a uma terça, quarta ou quinta-feira. Porquê? Para haver tropa. Esta indicação foi-me dada por alguém que já fez um golpe de Estado, Otelo Saraiva de Carvalho. O 25 de Abril de 1974 foi a uma quinta-feira, enquanto a intentona do 16 de Março, nas Caldas da Rainha, foi de sexta para sábado. Por isso falhou. Salgueiro Maia, certa vez, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro, foi apresentado ao chefe do Governo durante uma cerimónia militar: "Sr. primeiro-ministro, este é Salgueiro Maia, o homem que prendeu o chefe do Conselho, Marcello Caetano". Maia sorriu e disse a Cavaco: "Prendi sim senhor, e prenderei outro se tal for necessário". Cavaco engoliu em seco, Maia já não está entre nós, morreu de cancro. Cavaco, antigo líder social-democrata, está agora em Belém, na cadeira que foi de Américo Tomaz. O actual chefe do Governo é um ex-dirigente da juventude social-democrata. O ministro dos Negócios Estrangeiros é um antigo membro da juventude social-democrata e o anterior primeiro-ministro, apesar de ser "socialista", ainda chegou a militar na juventude social-democrata. O actual presidente da comissão europeia, o português Barroso, passou pela juventude de um partido marxista e chegou depois a líder do partido social-democrata. A alternância dita "democrática" que hoje temos não é fruto de uma revolução feita a 25 de Abril de 1974, pois temos ainda de recordar outras datas que não são feriados: 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975, 25 de Novembro de 1975 e 4 de Dezembro de 1980. Feriados como o 25 de Abril, 10 de Junho, 1 de Dezembro, não parecem fazer sentido nos dias de hoje. Penso que deve-se manter o 5 de Outubro, mas exaltado como data do Tratado de Zamora de 1143 - e que Portugal seja um País onde, finalmente, se celebra a data da sua criação!. E, por fim, que se comece desde já a trabalhar para criar um novo feriado.
Fui ao lançamento do livro "Fidel", do ex-embaixador de Portugal em Cuba, José Fernandes Fafe.
Conheci o autor do livro quando, em 1996, juntamente com o filho, José Paulo Fafe, tive o prazer e a honra de trabalhar com ambos em Cuba, durante um mês, na produção do documentário "O Enigma Cubano". O embaixador Fernandes Fafe foi o primeiro representante diplomático português na ilha de Fidel após o 25 de Abril de 1974. O ministro do Negócios Estrangeiros era Mário Soares, amigo pessoal de Fernandes Fafe - ambos, inclusive, tinham visitado a ilha de Fidel em 1963. Clandestinos. Durante a cerimónia de lançamento do livro, na Fundação Mário Soares, o autor convidou alguns protagonistas das histórias sobre os anos pós-revolução em que foi "O Nosso Agente em Havana", ou, como diz com o ar diplomático que o caracteriza, "O Vosso Agente em Havana". Uma dessas histórias conhecia-a em 1996 e dei até uma ajuda como jornalista para que a verdade fosse esclarecida. Reza a lenda que, em finais de Julho de 1975, Fidel Castro recebeu Otelo Saraiva de Carvalho durante as celebrações do aniversário do assalto ao quartel da Moncada - o 26 de Julho. Otelo era então o homem forte do COPCON e Fidel pediu que mandasse uma mensagem ao Presidente da República, Costa Gomes. Era uma mensagem histórica. O líder cubano queria saber qual seria a reacção dos portugueses se os cubanos enviassem militares para Angola, respondendo assim a um pedido de Agostinho Neto, líder do MPLA. Recorde-se que, no Verão Quente de 1975, havia um risco de Guerra Civil em Portugal. A ponte aérea de Angola estava a começar e Lisboa enchia-se de retornados. Mas, a Independência de Angola só seria efectiva no dia 11 de Novembro... Segundo aquilo que sempre se disse, Costa Gomes nunca terá recebido essa mensagem. Otelo, contudo, garantiu que a transmitira. Falei uma vez com Costa Gomes, que também me repetiu e garantiu que nunca recebera a mensagem de Otelo. Fidel Castro esperou por uma resposta até que, num certo dia de meados de Setembro, e numa atitude complemente inédita ao nível das relações entre Estados, deslocou-se pessoalmente à chancelaria portuguesa em Havana onde o embaixador Fernandes Fafe terminava despreocupadamente um qualquer ofício. O líder cubano entrou porta da chancelaria portuguesa e, no meio de uma confusão de pobreza franciscana, com cadeiras a ameaçar cair (o embaixador, surpreso, sentado em caixotes), o líder cubano disse a Fernandes Fafe que esperava a resposta a uma mensagem que enviara por Otelo - sem especificar o teor da mesma - e que precisava urgentemente da posição oficial de Portugal. Fernandes Fafe voou para Lisboa, transmitiu a questão de Fidel a Melo Antunes, então ministro dos Negócios Estrangeiros, e este mandou-o esperar pela resposta. Demorou exactamente uma semana até que lhe chegasse algo: "Olhe, conto com o seu talento. Não há resposta", disse Melo Antunes ao embaixador. Fernandes Fafe regressou a Havana e pediu um encontro com Fidel Castro. Demoraram a conceder-lhe um audiência. O embaixador não insistiu, os cubanos já estavam a caminho de Angola. Sem esperar. Dias antes da independência, travando assim a entrada em Luanda das tropas da UNITA, apoiadas pelos sul-africanos. Otelo, no lançamento do livro, explicou que dissera então a Fidel que, em Portugal, ninguém iria ajudar o MPLA a nível militar e a ordem era "nem mais um soldado para as colónias". Por isso, ele, Fidel, em nome do internacionalismo, deveria mandar soldados cubanos para Angola: "Têm aí elemento negros que podem passar por angolanos. Falam espanhol, é certo, mas chegados a Angola, ficam mudos", terá dito o militar de Abril ao líder cubano. Quanto a Costa Gomes, Otelo garante que falou com ele, depois de um Conselho da Revolução, às seis da manhã, assim que chegou de Cuba. Mário Soares, por sua vez, justificou a atitude de Costa Gomes em negar-se alguma vez a reconhecer ter recebido tal mensagem - que, vista à luz da época, implicaria uma cedência oficial de Portugal - como uma atitude "inteligente". Ele sabe bem como se faz história, pois também já foi Presidente da República.
(Peço desculpa da fraca qualidade de som e imagem da gravação, mas isto serve para pelo menos lembrar-me das palavras de Otelo sobre esta história)