Blogue do jornalista Frederico Duarte Carvalho, com coisas que tanto faz que se saibam porque em nada servem para o que sabemos. e-mail: paramimtantofaz@gmail.com
20121030
De "Argo" a "Camarate"
Vai estrear no próximo dia 8 o mais recente filme realizado e protagonizado por Ben Aflleck, “Argo”. É um filme baseado num artigo da revista “Wired” e produzido por George Clooney. A sinopse diz-nos o seguinte: “Baseado numa história verídica, ‘Argo’, um thriller dramático da Warner Bros. Pictures e GK Films narra a história da operação de risco para resgatar seis Americanos na crise dos reféns no Irão – uma verdade escondida do público durante décadas. Ben Affleck realiza e actua no filme, que está a ser produzido por George Clooney, Grant Heslov e Affleck. A 4 de Novembro de 1979, quando a revolução iraniana atinge o seu ponto de ebulição, militantes invadem a Embaixada dos Estados Unidos da América no Teerão e fazem reféns 52 Americanos. Mas, no meio do caos, seis Americanos conseguem escapar e encontrar refúgio na casa do Embaixador Canadiano. Sabendo que é só uma questão de tempo até os seis serem encontrados e provavelmente mortos, um especialista da CIA chamado Tony Mendez (Affleck) surge com um plano arriscado para fazê-los sair do país em segurança. Um plano tão incrível, digno de um filme”.
É com agrado que vejo estrear este filme, pois há ainda uma outra história que o filme não conta e que, para mim, é bem mais interessante. Afinal, e como é que foram depois libertados os 52 reféns? O filme só fala de seis… Ora, essa história ainda está por contar e não acredito que, tão depressa, Hollywood vá fazer um filme sobre o caso. Teria de ser um filme onde iriam falar de um presidente dos EUA, Jimmy Carter, que tentava negociar a libertação dos reféns com os radicais islâmicos do Irão antes das eleições presidenciais, que iriam ter lugar a 4 de Novembro de 1980, ou seja, exactamente um ano após o ataque à embaixada e início da crise dos reféns. O filme teria de falar do problema que Jimmy Carter enfrentava, pois tentava libertar os reféns antes das eleições e garantir a reeleição. Mas, do lado dos Republicanos, estavam o ex-actor e ex-governador da Califórnia, Ronald Reagan e ainda um ex-chefe da CIA, George Bush. E houve encontros secretos em Madrid e Paris, entre membros da campanha Reagan/Bush e iranianos para negociarem a não libertação dos reféns antes da ida dos americanos às mesas de voto, pois assim iriam conseguir evitar que Jimmy Carter pudesse ter a sua “Surpresa de Outubro” e vencer as eleições. E, para garantir essa não libertação, os iranianos receberam armas de forma ilegal, furando o embargo internacional. Armas que teriam passado por Portugal, num negócio perigoso e que esteve na origem da morte do primeiro-ministro português e do ministro da Defesa, a 4 de Dezembro de 1980, num atentado contra o avião onde ambos seguiam e que ficou conhecido como Camarate. E, finalmente, a 20 de Janeiro de 1981, após a tomada de posse de Reagan e ao fim de 444 dias de cativeiro, os reféns de Teerão foram libertados. E o mundo nunca mais foi o mesmo… Mas, esta história Hollywood não conta. Talvez agora, graças ao filme, os jornalistas se lembrem dela…
Este foi o debate entre o então Presidente dos EUA, Jimmy Carter, contra o então governador da Califórnia, Ronald Reagan. Foi aqui que tudo começou. Foi a partir daqui que George Bush, ex-director da CIA, chegou a vice-presidente e depois a Presidente. E seguido de um "intervalo" com Bill Clinton, tivemos W. Bush e os restantes amigos do pai. Foi aqui que muitos dizem que se começou a traçar a rota que iria levar até Camarate...
Duas ou três coisas que me preocupam de momento...
Casamento entre pessoas do mesmo sexo: Completamente de acordo. Acho que os homossexuais têm o mesmo direito que os heterossexuais a serem infelizes . E vai ser bom para os tribunais quando começarem os divórcios. Mundial de 2018 em Espanha e Portugal: A única objecção é a de que, conforme vi ontem à noite do programa do Diogo Infante, que se continue escrever "Madaíl" em vez da forma correcta que é Madail. A tomada de posse de Obama: Que deixem de comparar o novo Presidente dos EUA a Jimmy Carter. Expliquei aqui que há semelhanças, mas é sobretudo preciso evitar o que aconteceu neste dia há 28 anos...
As opiniões do historiador Rui Ramos são das mais avisadas e lúcidas que conheço actualmente. Lembro-me bem da primeira vez que li um texto seu: foi no extinto "Independente", em 2003, sobre o 25 de Abril. Inclui, inclusive, uma referência a esse texto no livro "Eu Sei que Você Sabe". Por isso, recomendo a leitura da sua crónica de hoje no "Público" sobre Barack Obama...
Destaco as seguintes frases de Rui Ramos:
"É que o mundo, como constatámos entretanto, não precisou de Obama para mudar".
"Paradoxalmente, só um desfecho permitiria manter intactos o mito e as esperanças iniciais da obamomania: a derrota no dia 4 de Novembro".
"A América racista e imperialista continuaria a ser a explicação para tudo o que corre mal, poupando-nos o trabalho de tentarmos finalmente entender o que se está a passar".
"(...) um presidente Obama não pode descontar o risco de se reduzir a uma espécie de Jimmy Carter: uma mera lebre da próxima maioria conservadora".
"Provavelmente, Obama há-de desiludir os crentes sem converter os cépticos, mas gerando ao mesmo tempo a maioria necessária para o reeleger em 2012".
"O mundo já não é o que era em 1997. Mas o estilo de Obama é, no fundo, o desse tempo. Ora, a Terceira Via pode ter sido uma alternativa às políticas da década de 1980, mas desde então tornou-se parte do percurso que fizemos para chegar onde estamos. Aonde mais nos poderá levar?".
A campanha de Barack Obama produziu um vídeo que nos captiva na beleza da concepção e, sobretudo, pela força das palavras escolhidas...
Depois deste vídeo, onde até Scarlett Johansson implora por mais e mais mudança, e apesar de ainda me manter alicerçado na posição de realista bem informado que leva a dizer ser Hillary Clinton a candidata dos Democratas, acho possível que Barack Obama possa ultrapassar o "status quo" político que vem desde 1980 e conseguir a nomeação. Recordo que no pós-Nixon, em 1976, os norte-americanos, cansados da guerra e da política do Watergate, elegeram Jimmy Carter, um Democrata que não era propriamente um génio a falar...
Governador de um Estado do Sul (Geórgia) e conhecido como sendo um agricultor de amendoins...
Apesar dos quatro anos de Carter terem depois alcançado marcos hoje inimagináveis...
... tal acabou por provocar o surgimento da dupla Reagan/Bush. George Bush, ex-chefe da CIA, ainda sonhou com a possibilidade de poder vir a tornar-se no principal candidato Republicano logo em 1980. Depois, já com a designação de Reagan, colocou-se a possibilidade de Bush nem sequer poder vir a ser candidato a vice-Presidente. Contudo, a história desse improvável país que é a América resolveu então presentear o mundo com uma nova esperança através da dupla Reagan/Bush.
Estes últimos conseguiram fazer com que Jimmy Carter não fosse reeleito. E a forma de como isso foi cumprido é uma história sobejamente conhecida pela maioria dos leitores regulares deste blogue... Agora, Barack Obama não é um agricultor de amendoins e parece estar bem seguro do que quer e para onde quer ir... Se o deixarem, vamos ver se não vai ser igual aos outros.