20090905

Seguir as pisadas do líder

20081119

As críticas às críticas ao caso do Lar do Comércio

Foram colocados três comentários particularmente críticos e insultuosos no mais recente texto sobre os últimos dias da avó Alda no Lar do Comércio da Maia:

"Se não fossem parvos, o q gostariam de ser? Tenham contenção e preocupem-se com as vossas vidas e deixem as dos outros. São uma cambada de inúteis que passam o tempo a tentar perturbar quem quer fazer algo de útil".

"Não têm mais nada q fazer? Deixem a velha morrer de uma vez por todas, porque ela com tanta coscuvilhice nem consegue".

"É estranho q estejam agora somente tão preocupados com a avó alda e durante o tempo em q ela viveu a tivessem metido num lar e poucas vezes a fossem visitar, como ela mesmo se queixava (a quem quisesse ouvir) da familia que tão mal a tratou em vida, segundo palavras da própria (a nora, o filho,por exemplo). Será a consciência pesada?".

Aceito todos os comentários que os leitores queiram colocar, até os anónimos como foi este caso, e não os submeto sequer a uma aprovação prévia. Sei que há pessoas dentro da direcção do Lar do Comércio que conhecem este blogue e lêem os comentários. Foi assim, aliás, que colocaram um processo disciplinar a uma pessoa que não concordava com os seus métodos. Não sei se as pessoas da direcção do Lar do Comércio estão tão desesperadas a ponto de deixarem comentários anónimos, mas é possível que assim seja...
A única resposta que posso dar a este tipo de textos é que a grande parte da família nunca abandonou a avó Alda. Foi a própria avó Alda que, conscientemente, quis ir viver para o Lar do Comércio e sempre que lá esteve foi a "vedeta" da instituição e nunca lhe faltou nada. Nunca deixou de ser visitada ou de visitar a parte da família que a adorava.
E essa parte da família sabe que a avó Alda, hoje, lá onde está a descansar, aprecia esta luta pela justiça: A vergonha aconteceu nos últimos dias de vida e isso nunca conseguirão esconder.
Por isso, continuem a mandar postais...

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20081104

A sala de eutanásia do Lar do Comércio

Durante uma das discussões com o presidente do Lar do Comércio, o meu pai classificou a "enfermaria" onde fora colocada a mãe, a minha avó Alda, como uma "sala de eutanásia". O presidente do lar zangou-se. Retorquiu que o meu pai estava a ser mal-educado, garantiu que não havia ali mais ninguém tão empenhado quanto ele pelo bem-estar dos idosos e que se sentia ofendido com a acusação.
Quando o meu pai me relatou esta conversa ao telefone, ele no Porto, eu em Lisboa, fiquei do lado do presidente do Lar do Comércio. Achei que o meu pai estava a exagerar e nunca haveria em Portugal - principalmente numa instituição onde um dos membros da direcção até é o assessor do primeiro-ministro José Sócrates para a área dos assuntos sociais e laborais, Artur Penedos -, algo remotamente semelhante a uma "sala de eutanásia". Falei depois com Artur Penedos ao telefone para, mais uma vez, perguntar o que se passava. O governante já conhecia o teor da conversa e, inclusive, pensava que eu também estivera presente durante aquela discussão e que fora igualmente mal-educado para com o presidente do Lar do Comércio, José Moura. Esclareci-o que não, nunca falara com o presidente e, nos últimos tempos, nunca estivera nas instalações do lar. Concluímos que a pessoa em causa deveria ter sido então o meu primo Paulo. Eu conhecia Artur Penedos do tempo em que trabalhei no "O Primeiro de Janeiro" e era ele activista sindical na área bancária. Graças a esse nosso antigo conhecimento, Artur Penedos acedeu telefonar para o presidente do Lar do Comércio de forma a combinar depois um telefonema da minha parte para que se pudesse esclarecer de uma vez por todas a situação da avó Alda. Essa conversa teve lugar uma semana antes dela morrer e já aqui dei conta do teor da mesma.
Ontem à noite, contudo, recebi finalmente uma informação da parte do meu pai que não possuia aquando da conversa com o presidente do Lar do Comércio. Era um elemento que me faltava e, recordo-me bem, o presidente ficou bastante nervoso quando eu disse que o queria ver... Agora entendo porquê. Trata-se do relatório médico do hospital de S. João, para onde o Lar do Comércio havia queria mandar a minha avó quando procurava libertar-se dela, cerca de um mês antes de falecer. O documento médico é demolidor para as intenções da instituição:

"Pedido de Colaboração de Especialidade de Doenças Infecciosas pelo facto do Lar do Comércio se recusar a receber paciente aí habitualmente internada".

"(...) não exige qualquer tratamento específico, nomeadamente antibiótico, para além dos cuidados de desinfecção e penso diário".

"Relativamente ao risco de transmissão dos agentes isolados no estudo microbiológico está apenas relacionado com a transmissão por contacto directo ou indirecto através dos profissionais que cuidam da doente a outros doentes, e que pode ser impedido com as adequadas medidas de higiene das mãos - sempre que se contacta com a pele da doente -, uso de luvas e bata aquando dos cuidados de penso ou banho (retirados logo após cessar o contacto e feita a higienização das mãos), não havendo assim qualquer impedimento para manter o seu internamento no Lar".



Quer isto dizer que, poucos dias após a elaboração deste relatório médico, fui visitar a avó Alda na "enfermaria" do Lar do Comércio, na tal "sala da eutanásia", era manifestamente exagerado para os familiares terem de usar máscaras na cara, bata e luvas. Era tudo parte da pressão psicológica levada a cabo sobre os familiares e, pior do que tudo, sobre a já frágil avó Alda...



Para além de terem contribuido para a morte da minha avó, soube ainda que após um processo disciplinar os responsáveis do Lar do Comércio decidiram expulsar da direcção a pessoa que colocou um comentário no meu blogue a chamá-los de "malfeitores". E "malfeitores" até era o mínimo que se lhes poderia chamar...

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20081011

A resposta ao processo disciplinar do Lar do Comércio

Esta foi a resposta que o Lar do Comércio recebeu da parte da pessoa que levou com um processo disciplinar depois de ter comentado neste blogue sobre o que fizeram à minha avó Alda:

"Exmo Senhor Presidente de
O Lar do Comércio

Acabei de receber uma carta registada c/ aviso de recepção da s/ advogada (...).
Conforme Lhe disse no último mail, não preciso de advogado já que e como sempre, assumo as minhas responsabilidades tanto pelo que digo como pelo que faço.
Face à nota de culpa que está a instaurar-me tenho a dizer-lhe que me estou a borrifar para a pena que me queira aplicar. Ok?
Mas, uma coisa é certa o que jamais conseguirá é fazer-me calar.
Dizer as verdades é comigo e o Senhor sabe, trabalhamos +/- 4 anos juntos e debaixo da s/ orientação ao tempo positiva, agora convinhamos e o Sr. sabe, tem vindo a descer as escadinhas todas por onde subiu, mete dó.
De quem é a culpa? Minha não é com certeza.
O Sr. julga-se Dono de O L.C., não é, nem nunca será, nem o Senhor nem ninguém, poderemos sim ser todos.
O s/ medo, a s/ prepotência, a s/ falta de lisura para com todos que não Lhe digam AMEN, está mais que patente.
Está incomodado não sei que Lhe faça, eu estou tranquilo para o que der e vier, depois tratarei como muito bem entender.
Aproveito para Lhe dizer que pode considerar ultrapassados os Dez dias para consulta do processo, assim ganhamos tempo e o meu, é muito precioso.
Aceite os m/ cumprimentos"

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20081009

Processo disciplinar por ter comentado aqui

As cartas do Lar do Comércio, se não fossem trágicas, dar-me-iam vontade de rir. A cópia daquela que hoje recebi e que data de 25 de Setembro é mais um exemplo. Alguém ligado à instituição, e naturalmente chocado com o tratamento dado à minha avó Alda nos seus últimos dias de vida, colocou então aqui no blogue um comentário crítico em relação à actuação da direcção e que ficou devidamente identificado. Compreendo a pessoa pelo facto de o ter feito, pois o assunto indigna qualquer ser humano provido de inteligência e sentimentos - menos alguns jornalistas que ainda não perceberam (ou não quiseram perceber) o verdadeiro alcance que um problemas destes tem naquela instituição em particular. Pois bem, essa pessoa é agora vítima de processo disciplinar...



É claro que desde já me ofereço para testemunhar no dito processo. Terei então a oportunidade de mostrar as fotos da "enfermaria" onde colocaram a minha avó. "Malfeitores", para mim, que tanto faz, seria até o mínimo que se lhes poderia chamar.

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20081006

Lol

O meu pai foi hoje de manhã ao Lar do Comércio buscar o resto dos pertences da minha avó Alda, pelo que finalmente deixou de ter qualquer assunto pendente com a direcção. Segundo parece, os meus escritos no blogue deixaram algumas marcas na instituição e comenta-se o assunto nos corredores. Ainda bem, embora nunca tivesse sido essa a minha intenção no início. Entretanto, hoje tive um diálogo através da Internet com um amigo jornalista que há uns tempos se mostrou interessado no caso. Não o identifico nem digo qual é o órgão de Comunicação Social no qual trabalha, mas registo aqui - com a devida autorização - parte da conversa que tivemos. Perguntei-lhe se sempre ia escrever algo sobre a carta que o Lar do Comércio mandou para o meu pai quando a minha avó estava na "enfermaria" e a direcção exigia que abandonasse o quarto, que era dela por direito até ao dia da sua morte.



Este foi o diálogo que tivemos e que começa com a sua resposta:

- Os editores não simpatizaram com o assunto. Não querem que escrevamos sobre o assunto.
- Porquê? É que eu sou jornalista e não entendo o que significa "simpatizar"... Ou é notícia ou não é...
- Para eles não é notícia. Argumentaram que o assunto era susceptível, ou seja, há editores que consideram o procedimento normal. Dizem que há outros lares que funcionam assim.
- Desculpa, há editores que são bestas? É isso?
- É. É precisamente isso. O assunto já deu discussão e eu não quero chatear-me outra vez por causa disso.
- Mas têm lá uma carta que vale por tudo e mesmo assim não querem?
- Eu mostrei tudo. O assunto chegou a ser falado pessoalmente. Não é para entender.
- Vou contar isso no blogue, sem identificar-te, é claro…
- Ok. Vê isso, até podemos concluir que os editores são pessoas cada vez mais frias… Lol.

Há uns tempos citei parte de um livro que andava a ler e que explicava bem por que estas coisas acontecem com os jornalistas. Hoje relembro algumas passagens, pois este foi um bom exemplo do que então apontei: "Trabalham em estruturas que positivamente os impede de descobrir a verdade. Historicamente, sempre houve um elemento de ignorância no jornalismo, apenas porque tenta registar a verdade à medida que esta acontece. Agora, isso é ainda pior. É endémico. A ética da honestidade foi ultrapassada pela produção massiva de ignorância. (...) A história do falhanço dos meios de Comunicação Social é complicada e súbtil. Envolve todo o tipo de manipulação, conspiração ocasional, mentiras, batotas, estupidez, cupidez, culpabilidade, um colapso das capacidades e uma nova vaga de propaganda deliberada. Mas a história começa com jornalistas que vos dizem que a terra é plana, porque pensem genuinamente que esta até poderá ser. A escala de quem assim pensa é aterradora".

Sem mais comentários. Deixo isso para os leitores deste blogue...

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20081005

República, mas qual República?



Sempre achei piada ao facto da minha avó Alda fazer anos na véspera do Dia da República. Ela nasceu três anos depois da implantação da República e uma das coisas que sempre lhe perguntei foi se o seu pai, meu bisavô, era monárquico ou republicano. Era republicano e foi até por causa disso que escolheu ir combater na Primeira Guerra Mundial e por lá ficou, deixando a filha entregue aos cuidados de um novo regime. É claro que a grande parte da vida adulta da minha avó foi passada não num regime republicano, mas sim num regime de ditadura, liderado por um senhor chamado António Salazar e ao qual se deu o nome de Estado Novo. Reformou-se três meses antes do 25 de Abril de 1974. A minha avó, não a República.

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20081004

Parabéns avó Alda



Alda Augusta - 4/10/1913 - 6/9/2008

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20081003

Lar do Comércio revisitado

Amanhã, dia 4 de Outubro, haverá missa de um mês pela memória da minha avó Alda. Por coincidência será no mesmo dia em que ela iria fazer 95 anos. O meu pai já foi buscar alguns dos pertences da sua mãe ao Lar do Comércio, mas o braço-de-ferro que manteve com o presidente daquela instituição ainda só lhe permitiu trazer os bens mais leves. Os móveis, segundo as indicações que recebeu, só podem ser levantados durante o horário normal de expediente – o que lhe dificulta a vida, pois se fosse permitida alguma hora extra poderia fazer a mudança com a ajuda dos meus irmãos. Mas, não deixaram, sendo mais um sinal da prepotência demonstrada e da falta de sensibilidade humana de quem manda naquela direcção.
Entre as fotos que a minha avó tinha em sua posse encontrei algumas que foram uma surpresa, pois nunca as tinha visto. Que pena não poder falar sobre a história que está por detrás de muitas delas, mas, na realidade, nunca consegui sentar-me com a avó Alda assim como o faço com muitas pessoas que não conheço para ouvir histórias de famílias que não conheço.
Assim, não sei o que ela fazia de patins na Foz, nem sei como foi a sua viagem a Roma nos anos 50...




A ironia disto tudo é que a avó Alda, apesar de ter um jornalista na família, deu uma entrevista a outro jornalista há uns anos. Foi à jornalista Sandra Silva Costa, para uma reportagem do diário Público, a 26 de Julho de 2003, por ocasião do Dia dos Avós . O título, recordei-o há dias, era sintomático da minha situação com a avó Alda...



Os laços com ela diminuiriam com a minha vinda para Lisboa, acabando por a ver quando ela ia almoçar a minha casa num ou outro fim-de-semana em que visitava a família no Porto. Ou então no Natal, quando ela pensava que aquele seria sempre o último Natal em família, mas que nunca era.
Dizia a avó Alda que queria morrer com a família junta, contudo tal era impossível. Desavenças familiares insanáveis impediam isso, mas quando ela fez 90 anos reuniram-se todos os filhos, netos e bisnetos quantos fora possível. E fomos muitos os presentes, mais do que os ausentes...



Entre os bens da minha avó encontrei esta foto onde ela segura o meu pai, então com três meses…



Encontrei ainda esta quadra, simples, mas linda de morrer...



... e ainda a respectiva foto da Alda com os seus três filhos. O meu pai é o mais velho. O filho que está no meio, com aquele sorriso aberto, cabelo louro e ondulado, é o Nelo. Morreu de cancro e a avó Alda só foi informada disso quando já tinha sido o funeral… O terceiro é o Carlos, aquele que a avó Alda, numa demonstração de força única aos 84 anos, foi visitar ao Lubango, Angola, há 10 anos....



Também encontrei uma outra coisa que andava à procura: o exemplar do jornal interno da instituição, o "Catassol", com o registo da vinda da avó Alda a Lisboa para cantar as Janeiras na Assembleia da República.



Fora em Janeiro de 1999, pouco depois de ter entrado no Lar do Comércio como vitalícia. O que já não esperava encontrar – pois tinha-me esquecido de todo – foi o singelo texto que na altura eu mesmo escrevi para o jornal do Lar do Comércio...



O mais importante, contudo, foi ler a mensagem que então assinou o Presidente do Lar do Comércio, sobretudo quando a nota introdutória do texto do jornal começava por enaltecer a "bonita idade" da minha avó - a mais idosa de todos - naquela deslocação ao Parlamento português...




Serve isto para dizer que a avó Alda foi bastante útil para a promoção do nome do Lar do Comércio. Era uma pessoa jovial e energética, apesar da idade. E era linda, como prova a foto que ilustrou um artigo do diário "Comércio do Porto" quando o Lar do Comércio, em mais uma acção de exposição visual, organizou um passeio de carros antigos…



A avó Alda, senhor presidente José Moura, não merecia depois o que lhe fizeram. Ela foi a imagem da alegria do Lar do Comércio. Ela ajudou muito aquela instituição. Estão aqui as provas do muito que deu e, como paga, quando o que ela precisava para acabar os dias finais era um pouco de humanidade, recebemos esta carta dias antes dela morrer.
Ainda haverá quem tenha coragem de dizer que foi justo o que lhe fizeram?

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20080918

Bem que podia ter sido evitado...



in "Sol", 13 de Setembro de 2008, pág. 15

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20080909

Do outro lado da carta do Lar do Comércio

Foi há dez anos. A avó Alda tinha então 84 anos e encontrei-me com ela no aeroporto da Portela, onde chegara do Porto vinda de avião. Iria depois apanhar uma ligação aérea de Lisboa para Luanda, para se encontrar com o filho mais novo, o meu tio Carlos, radicado há anos em Angola. Depois, seguiriam ambos para o Lubango. Quem diria que com aquela idade iria meter-se na aventura de viajar para uma África que desconhecia? Mas o desafio lançado pelo meu tio - que pedia a presença da mãe no dia dos seus anos - revelou-se mais forte e a avó Alda acabou mesmo por dar essa alegria ao filho e foi passar férias a Angola, na antiga Sá da Bandeira. Durante a conversa que tive com ela na mesa do café Astrolábio, enquanto fazíamos horas, tive a oportunidade de ficar a conhecer muitas histórias da sua vida que até então ignorava. Pensei na ironia da minha profissão que me permitia saber tantas histórias sobre a vida de pessoas que não conheço, quando, ali, na minha família, brotava um manancial de episódios dignos de serem contados. Um dia talvez os conte...
Serve isto para dizer que, quando há uns meses a avó Alda baixou à “enfermaria” do Lar do Comércio, continuava uma pessoa lúcida e, segundo creio, os cuidados médicos pediam um acompanhamento normal de enfermagem. Ou seja, a avó Alda poderia manter-se no seu quarto, na cama que era a dela, com os móveis que conhecia, rodeada das fotos dos seus familiares. Era o sítio ideal para os seus últimos dias. Mas não deixaram que isso fosse possível.
Fui visitá-la no início das minhas férias. Ela estava na tal “enfermaria”, pois, alegava-se, tinha um “vírus infecto-contagioso”. Ela e mais duas senhoras. As três estavam numa quarto ao fundo da “enfermaria”, sem qualquer protecção para o exterior (podia ser que o tal vírus fosse respeitador e não passasse da porta), enquanto os visitantes eram submetidos a uma tortura psicológica, pois, antes de entrar, tinham de calçar luvas, colocar uma bata e uma máscara. E era assim que falavam com os seus familiares. Dias antes dessa minha visita, a avó Alda - contou-me o meu pai - tinha sido levada para um hospital e depois para outro, onde pernoitou, mas onde os médicos nada encontraram que justificasse um internamento e remeteram-na de volta à proveniência, ou seja, o Lar do Comércio da Maia.
Quando há dias o meu pai recebeu a carta, liguei pela primeira e única vez para o presidente do Lar do Comércio. Perguntei-lhe se me podia explicar, de forma lógica, o que se estava a passar.
Da explicação pouco ou nada me lembro. Tudo isto mexeu com os meus sentimentos - por isso, como jornalista, não consigo fazer nada e deixo isso ao critério de quem ler este testemunho. Para mim, a situação era completamente inexplicável e a desculpa da falta de meios ou da crise do país não pode servir para tudo. Mas, tomei alguns apontamentos que escrevi no verso da minha cópia da carta...



As soluções propostas pelo presidente do Lar do Comércio eram então as seguintes:

- Quando a “infecção” passar, seja daqui a cinco ou 15 dias, a D. Alda pode voltar ao quarto.
- O Lar do Comércio compromete-se a dar, no quarto, três refeições diárias (uma “benesse”, segundo me pareceu), ou seja, pequeno-almoço, almoço e jantar.
- Os medicamentos que eram pagos pelo Lar passam a ser pagos pelos familiares.
- Haverá duas a três mudas de fraldas diárias com respectiva mudança de posição.
- Pode ter uma pessoa paga pela família para lhe fazer companhia, mas apenas durante o dia. À noite não.
- Não pode deixar o quarto à noite para ir para a enfermaria, pois isso implicaria ocupar um outro espaço.

Quando transmiti estas informações ao meu pai - que andava a esgotar a via do diálogo com o presidente - perguntou-me a minha opinião. Sugeri que, se a pudesse tirar de lá, que a tirasse. Contudo, tal solução não era comportável com o investimento feito na compra do direito vitalício do quarto. Então que a avó Alda fosse para o quarto, para a companhia dos seus bens e das suas referências, quando a suposta “infecção” estivesse sarada e logo se veria o que se podia fazer em relação ao acompanhamento médico nocturno.
Não foi necessário esperar, pois a avó Alda resolveu-nos o problema mais cedo do que o que se esperava. Deu descanso aos meus pais e conquistou o descanso que há tanto almejava. Agora, espero, que a sua morte não dê descanso a quem sancionou aquela carta e só tinha aquelas soluções. O sofrimento e a forma como foi tratada não merece cair no esquecimento. A bem do futuro de todos nós.

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20080906

Faleceu hoje a filha do 1º Cabo nº 271 da 9ª Companhia de Infantaria 18

Telefonou-me hoje a minha mãe a dizer-me que a minha avó paterna faleceu esta tarde. Iria fazer 95 anos no próximo dia 4 de Outubro. Vou ter muitas saudades da avó Alda. Quando ela ainda morava na casa de Francos, onde nasci, fui o mais novo de todos os seus netos e isso criou fortes laços entre nós. A história da Alda Augusta terá de ser contada um dia...
Não iria incomodar-vos com uma notícia familiar se não sentisse que há algo que tem de ser partilhado publicamente com quem me conhece pessoalmente e com quem é leitor anónimo deste blog.
A minha avó nunca conheceu o pai, pois este morreu durante a I Guerra Mundial, quando ela tinha apenas 4 anos. António Costa, meu bisavó, era o 1º Cabo nº 271 da 9ª Companhia de Infantaria 18, que, em 1915, partiu para Angola. Fico contente por saber que esta noite vão estar a conversar sobre todos estes anos em que estiveram separados...




Agora, o que eu não posso esquecer e perdoar é a vergonha que foram os seus últimos dias na terra. A avó Alda estava há alguns anos a residir no Lar do Comércio, na Maia. Uma instituição de Terceira Idade com pergaminhos, mas onde a nossa família acabou por descobrir - da pior maneira - que, enquanto os idosos têm saúde e força para, por exemplo, ir cantar as Janeiras à Assembleia da República e tirar lindas fotos são o máximo, por outro lado são mal-queridos quando a ordem natural da vida os atira para a "enfermaria" da instituição. Aí há um novo mundo onde se nota a falta de meios e sensibilidade para lidar com situações naturais da vida.
Não acreditam? Eu também não acreditava, mas o meu pai recebeu esta carta na semana passada que, por si só, é suficientemente elucidativa ...



A Alda Augusta descansa agora em paz. Aconselho-vos a não descansarem enquanto casos como este acontecerem com os que ainda estão vivos.

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