20081012

O primeiro passo foi dado

No passado sábado, dia 4 de Outubro, na cidade do Porto, houve um jantar na zona da Boavista onde foi feito um discurso histórico.


Antes de lerem o comunicado do que lá foi dito, apresento-vos apenas alguns elementos para que possam contextualizar a importância do momento.
Como sabem, a nossa República está prestes a comemorar os 100 anos. Será isso a 5 de Outubro de 2010. Acontece que a implantação da República, na realidade, abriu portas à ditadura de Salazar e, por coincidência, este último formou governo em Julho de 1932 na mesma altura em que, exilado em Inglaterra desde o golpe de 1910, morria o último Rei de Portugal, D. Manuel II.
Imediatamente após aquela morte, o ramo dinástico de D. Miguel proclamou-se digno sucessor de D. Manuel II. O anúncio criou uma cisão em Portugal, uma vez que os descendentes de D. Miguel estavam exilados na Áustria e excluídos do direito de acesso ao trono, pois representavam a facção vencida da Guerra Civil de 1832-34 entre os irmãos D. Pedro IV e D. Miguel.
António de Oliveira Salazar, o ditador que chegou com a promessa de colocar ordem na bagunça da República, pediu então aos monárquicos que se unissem e, no fundo, não lançassem o país para uma segunda Guerra Civil. O país cumpriu e assim foi atirado para os quase 50 anos de Estado Novo que só terminou naquela manhã de Primavera de 1974.
Pelo meio, a coberto da noite salazarista, nos anos 50, a ditadura de Salazar permitiu o regresso dos descendentes de D. Miguel a Portugal. E assim chegou até nós D. Duarte. Acontece que havia uma família que descendia de uma irmã de D. Pedro IV e D. Miguel, D. Ana de Jesus. Essa família tinha todos os direitos legítimos ao trono de Portugal, mas como ficara a viver no país de origem durante a ditadura, cumpriu a ordem nacional e ficou calada. Tudo a bem do País. Depois de 1974, voltou a ficar calada, para não estragar a implantação da Democracia saída da Revolução dos Cravos. A situação hoje, contudo, é de bagunça. Devido à limpeza histórica, o país julga que D. Duarte é o legítimo pretendente do trono de Portugal, mas não se revê nele. D. Duarte, explique-se, é apenas o rei preferido desta República.

A 4 de Outubro de 2008, na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta cidade do Porto, naquela onde descansa o coração de D. Pedro IV, falou D. Pedro VI, descendente de D. Ana de Jesus, que assumiu pela primeira vez que Portugal, se quiser, pode ter uma solução legítima para enfrentar o futuro.
O primeiro passo foi dado.
Finalmente.


Ler aqui o comunicado histórico

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20080202

A vitória dos Absolutistas

O jornalista Adelino Gomes, uma figura de referência na Imprensa portuguesa, resolveu abordar o livro de Nuno da Câmara Pereira, "O Usurpador", onde o autor defende que D. Duarte não é o legítimo chefe da Casa Real portuguesa, mas sim o seu primo, o Duque de Loulé.
Começa Adelino Gomes por dizer que "as acusações não são novas. Mas nunca como agora se apresentaram tão directas e tão abrangentes".
Que não são novas, já se sabia, tanto mais que eu também as abordara aqui e aqui. Agora, quando um jornalista do calibre de um Adelino Gomes necessitou iniciar um texto com uma advertência, fiquei logo com os sentidos em alerta: "Ui! Se as acusações não são novas, então por que está o 'Público' a falar delas? Será que o Adelino Gomes vai 'lavar' a imagem de D. Duarte e atacar o livro? Não, não creio. Afinal, é o Adelino Gomes... Bem, deixa-me lá continuar a ler".
O jornalista Adelino Gomes ouviu dois nobres historiadores, Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira e Alorna, Manuel Sousa e Holstein Beck, 4º conde da Póvoa, e ainda o antigo presidente do PPM, Augusto Ferreira do Amaral. A legitimidade de D. Duarte, para o primeiro, é sustentada pelo facto de que "o Senhor D. Duarte Pio é uma pessoa muito aberta e perfeitamente consciente que representa tanto a linhagem absolutista como a liberal". O segundo defende que D. Duarte "foi reconhecido pela última rainha de Portugal, D. Amélia, que aceitou ser sua madrinha de baptismo e no testamento lhe lega os seus bens existentes em Portugal, tendo reconhecido o seu pai, Duarte Nuno, como duque de Bragança". Por fim, Augusto Ferreira do Amaral diz que o seu "anti-miguelismo nunca se opôs nem opõe ao reconhecimento da qualidade de chefe da Casa Real a D. Duarte Nuno, a partir de 1932 e, obviamente, agora a D. Duarte Pio".
Acrescenta ainda o jornalista Adelino Gomes: "A questão dinástica hoje, em Portugal, é vista como um problema 'sem consistência' ou 'francamente menor'. Manuel Beck diz mesmo que a querela hoje não faz 'nenhum' sentido. Os poucos que admitem que possa haver outra linha sucessória, observa o marquês de Fronteira, 'são geralmente os que perderam a 'tineta' ou aqueles a quem foi negada alguma pretensão e ficaram amargurados'. O que acontece, ironiza, 'é que o actual deputado, Nuno da Câmara Pereira, consegue fazer muito estardalhaço mediático'".
Ouvidos ainda dois outros historiadores, Fátima Bonifácio e Nuno Monteiro, permitiu-se concluir que "em Portugal não existe sequer uma 'questão monárquica'" e, que a discussão de quem seria o rei legítimo é "uma questão inteiramente vácua e desprovida de interesse geral".
Termina ainda Adelino Gomes o seu artigo com uma apreciação quanto ao estilo do autor: "Frases sem verbo, uso sem critério do ponto e vírgula, vírgulas entre o sujeito e o predicado, como se Nuno da Câmara Pereira quisesse adoptar o estilo oral dos documentos majestáticos que transcreve".
Ao acabar de ler o artigo de Adelino Gomes percebi, com muita pena, que há jornalistas que não querem ver os dois lados da verdade. Há jornalistas que desconhecem a História do país em que vivem e aceitam ser mensageiros daqueles que têm por missão reescrever a História.
O sentimento absolutista, inspirado por D. Miguel - derrotado e com descendência banida da sucessão da Coroa Portuguesa após a guerra civil de 1832-34 - regressou a coberto da noite salazarista. A data em que tal plano começou remonta a 1932, ao dia 2 de Julho, quando morreu no exílio, em Inglaterra, o último rei de Portugal, D. Manuel II. Uma morte estranha e sem descendência. Nessa mesma altura, em Lisboa, Salazar formava governo.
Um pequeno sinal dessa lavagem da História - destinado a não ensinar aos portugueses de hoje que houve em tempos uma monarquia constitucional ao serviço da República popular - está no endereço do sítio de geneaologia do "Sapo". Constate-se como o nosso D. Pedro IV, Rei de Portugal, bisavô de D. Carlos, é tratado apenas como D. Pedro I Imperador do Brasil. Assim, até parece que nunca foi rei de Portugal, ao contrário do irmão, D. Miguel, apresentado como rei de Portugal quando sempre fora "O Usurpador" - uma vez que só deveria ter sido regente da sobrinha, D. Maria II.
Percebam, por favor, de uma vez por todas o que vai de mal neste país: os seguidores da linha absolutista e miguelista, ilegal e banida em 1834, regressou ao poder em 1932 (com a morte de D. Manuel II no mesmo dia em que Salazar formou governo) e é ela que sustenta actualmente esta forma estranha de República, alegadamente democrática. A questão do regime, precisamente por ser perigosa para muitos poderes instalados - porque fracos são os argumentos em que se sustentam -, é obviamente encarada como "uma questão inteiramente vácua e desprovida de interesse geral".
Parabéns ao Adelino Gomes pelo serviço prestado à Pátria e ainda para todos aqueles que aceitam viver esta forma de República...

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