20080807

O Murdoch do Porto

Sei que quando uma fábrica ou uma empresa fecha é uma tragédia, pelo que muita gente acha que os jornalistas de "O Primeiro de Janeiro" não devem ter um tratamento muito diferente daqueles casos gerais do país. Mas, desculpem a ousadia, acho que ainda assim este caso é muito diferente. Quando temos licença de porte de arma não vamos começar aos tiros às pessoas que trabalham para nós. Se fizermos isso, vamos presos. Quando somos donos de um jornal e despedimos de forma ilegal toda uma redacção e pomos outra no seu lugar, mas com menos pergaminhos públicos e apenas para cumprir compromissos comerciais, também deveríamos ser punidos pela sociedade. Os anunciantes deveriam cancelar a publicidade, pois estão a ser cúmplices na ilegalidade. Os leitores deveriam exigir ser informados por jornalistas livres e recusavam-se a comprar o jornal. O Estado deveria tirar a licença a um proprietário que demonstrasse não estar à altura de gerir de forma legal e leal uma empresa de Comunicação Social.
É que sem jornalistas livres, qualquer outro empresário de um qualquer ramo industrial poderá também amanhã despedir os seus trabalhadores de forma ilegal. Ninguém irá informar o resto da sociedade, ninguém questionará publicamente os responsáveis. E, daqui a uns anos, se ainda houver país, este será governado por ladrões.
Os 32 jornalistas do "O Primeiro de Janeiro", na ânsia de resistir à ilegalidade, entregaram um manifesto no Governo Civil do Porto. Toda esta situação lembrou-me o o caso de Wapping, quando, em 1986, o proprietário do londrino "The Times", o milionário australiano Rupert Murdoch, decidiu acabar com o poder das empresas gráficas que condicionavam a produção dos jornais e montou uma gráfica própria - é que quando os jornalistas queriam fazer greve, só tinham sucesso se tivessem o apoio das gráficas que se recusavam a imprimir jornais enquanto os jornalistas mantivessem a luta pelos seus direitos, impedindo que os patrões fizessem edições com empregados secundários.
O poder do dono do "O Primeiro de Janeiro" foi o de ser dono de uma gráfica, em Oliveira de Azeméis. Eu fui um dos jovens jornalistas vindos directamente da Escola Superior de Jornalismo que, em 1992, o ajudou a salvar o diário. Foram dois anos gloriosos, onde fiz muitos amigos e fazíamos o melhor jornal do mundo, do nosso mundo.
Hoje, é sempre pedagógico recordar o que se diz de Wapping 20 anos depois, lembrar os desacatos a 15 de Fevereiro de 1986 e constatar que o problema da crise do jornalismo está localizado e não é só de cá: "His promises of a bright new future for journalism never materialised, just like the swimming pool he promised for the new plant. Wages for journalists have slumped in real terms. Far too many are desk-bound, and staffing levels are inadequate in many national titles as well as in the regional press. Instead of investing in quality journalism, companies are spending millions on promotional gimmicks, and as a result we're awash with CDs that nobody wants to listen to".

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20080806

"O Primeiro de Agosto"

Para além do Filinto, aconselho ainda que sigam o drama e a vergonha que são os despedimentos ilegais do "O Primeiro de Janeiro" através da "Mente Despenteada". Para mim, que tanto faz, o mais grave a reter desta história não foi o dono do jornal ter feito o que fez, mas sim ter pensado em fazê-lo e achar que podia mesmo ir para a frente com estes despedimentos... O mal, meus senhores, já está feito. Resta agora saber se a sociedade portuense vai permitir que vença. Uma boa ideia seria, por exemplo, aproveitar o momento para apresentar um novo jornal concorrente ao qual chamariam muito a gosto de "O Primeiro de Agosto".

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20080804

Merecer o que se tem

"O Primeiro de Janeiro" que saiu hoje para as bancas foi feito por uma redacção secundária - e não contratada de raíz. Acham que podem fazer aquilo aos 32 camaradas da redacção de "O Primeiro de Janeiro" que ainda não foram despedidos de forma legal porque "esta equipa não tem nada a ver com isso (despedimento da redacção do Janeiro) e quer apenas trabalhar".
E o que foi que disse o Sindicato dos Jornalistas?
Disse que é "uma vergonha"...
Mas, assim todos têm o que merecem:

1 - Temos um presidente de sindicato que, face a uma situação de despedimento ilegal de 32 jornalistas, foi de férias como estava agendado e não as adiou para mostrar um sinal claro de que a situação era muito grave.

2 - Há um jornal hoje na rua que foi feito de forma ilegal e nenhum jornalista ainda no activo, mas proibido pelo patrão de trabalhar na edição, se lembrou ou teve a coragem de mandar apreender a edição de hoje recorrendo a uma providência cautelar.

3 - O Sindicato, em vez de censurar publicamente os jornalistas que aceitaram substituir os 32 camaradas ilegalmente despedidos apenas disse que "é uma vergonha".

4 - O responsável da tutela, o ministro Santos Silva, também ainda não foi chamado pela restante Comunicação Social a pronunciar-se sobre a manobra dos proprietários de "O Primeiro de Janeiro".

5 - Os leitores, que ainda existem, último elo da cadeia, foram comprar um jornal feito de forma ilegal. E pagaram.

Está visto. Têm todos o que merecem. Não vou ser eu o último herói...

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20080803

Para nós será sempre Primeiro de Janeiro


Um jornal histórico que é "O Primeiro de Janeiro" - onde comecei a minha carreira em 1992 - está a viver uma autêntica vergonha nacional. Se o plano contra os trabalhadores avançar... emigro. Ver a progressão dos factos, em directo do terreno, através do Filinto.

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