Blogue do jornalista Frederico Duarte Carvalho, com coisas que tanto faz que se saibam porque em nada servem para o que sabemos. e-mail: paramimtantofaz@gmail.com
20120410
A nossa casa... em 1989
Esta é uma reportagem de uma jornalista chamada Inês Pedrosa, publicada em Janeiro de 1989 no semanário "O Independente", então dirigido por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Tem ilustrações lindas e cúmplices de Jorge Colombo e é sobre a experiência da própria jornalista que conta como é passar uma semana inteira em casa sem poder sair. Encontrei-a este fim-de-semana entre os papéis que tinha na casa do Porto e reli-a com o mesmo prazer de há anos. Como era diferente e belo aquele mundo nos tempos em que não havia Internet, só podíamos ter comida em casa se fosse uma encomenda de uma refeição para mais de 20 pessoas e não havia entrega de livros ou flores ao domicílio. Mas, tínhamos isso tudo na mesma, pois havia amigos ou a solidariedade de desconhecidos. Ou imaginação. Obrigado Inês por nos teres fixado para sempre essa estadia em tua casa. Sabes, aquela era também a casa de todos nós...
Desde pequenino que fui habituado a não contestar o sistema. Afinal, para quê? Tínhamos tudo: televisão, carro, comida, liberdade de expressão, um primeiro-ministro democraticamente eleito, um Presidente da República que era "fixe" e os americanos eram nossos amigos e protegiam-nos dos russos. Em 1989, caiu o muro de Berlim e o mundo parecia que ia ficar ainda melhor, pois os meninos russos também iriam passar a ter tudo aquilo que nós já tínhamos: televisão, carro, comida, liberdade de expressão, um primeiro-ministro democraticamente eleito e um Presidente da República igualmente "fixe". E os americanos não iriam mandar fazer mais filmes do Rocky como aquele em que ele batia no russo mau. Nessa altura, andava a fazer fanzines de BD e era feliz. Tirava as fotocópias no escritório do meu pai e depois de os agrafar e dobrar, colocava-os à venda nas mais conhecidas livrarias do Porto. Às vezes, recebia encomendas de Lisboa. Nunca me esqueci da primeira morada lisboeta para onde mandei um exemplar do fanzine: Calçada dos Mestres e, anos mais tarde, por coincidência, fui morar para lá. Diziam então que a História tinha chegado ao fim e não iria haver mais guerras no mundo. Durou pouco tempo, pois os senhores mais velhos arranjaram uma guerra no Iraque, por causa de uma coisa qualquer no Koweit. Aquilo acabou com a vitória dos americanos, mas o pior era a gaivota presa no crude que os senhores da Benetton puseram na capa da revista que fui comprar à loja de Santa Catarina. O mundo começou a ficar mais complicado: a televisão passou a ter mais de 100 canais e assim não há vontade de ver um sequer. Os carros passaram a dominar as cidades e a gasolina é mais cara. A comida está mais cara e, por vezes, não comemos o que queremos. Dizem que continua a haver liberdade de expressão, mas vemos cada vez menos a expressão dessa liberdade, pois o semanário onde trabalhei durante quase dez anos, fechou. O primeiro-ministro é democraticamente eleito, mas a abstenção aumentou e os pequenos partidos ficam de fora do sistema. O Presidente da República é aquele que era primeiro-ministro. Está no jogo do poder desde 1981 - altura em que era ministro das Finanças - como senhor do Egipto. Dizem agora que somos todos parvos, por andarmos a estudar para sermos escravos, como aqueles que antes ergueram pirâmides - como se hoje os nossos engenheiros soubesse erguer pirâmides como aquelas do Príncipe do Egipto. Gostaria de dizer a quem sonha que é possível mudar o sistema e melhorar a nossa vida, gostaria de deixar uma mensagem de esperança. A minha esperança são aqueles que nasceram depois de 1989, os tais para quem já é uma sorte poderem estagiar. Guiem-nos, revoltem-se - com ou sem violência, de preferência sem (não caiam nessa armadilha), mas apareçam com ideias e propostas. Não se fiem nas "redes sociais", pois essas não tocam nas pessoas - antes pelo contrário. A revolução faz-se na rua, não será televisonada... Estarei lá para ajudar com a expiação dos meus erros, com a experiência daquilo que me custou a perder. Para que, juntos, ganhemos.