20120429

A CIA e o atentado de Camarate

20120427

Camarate - Um apelo aos deputados

Senhores deputados, por favor, não cometam o erro de criarem a 10ª Comissão de Inquérito Parlamentar à Tragédia de Camarate (CIPTC). Ouçam as vozes bem avisadas, sensatas e honestas daqueles que pedem que não gastem mais dinheiro do orçamento da Assembleia da República. Pensem, isso sim, em medidas para combater a actual situação económica em que se encontra o País. Combatam o desemprego, desenvolvam a produtividade nacional, ouçam as palavras do senhor Presidente da República no 25 de Abril e promovam uma imagem positiva de Portugal no estrangeiro. Não gastem tempo a analisar uma situação do passado, que já não interessa e não vai adiantar ao futuro. Por favor, senhores deputados, não percam tempo com mais comissões quando já houve nove, nove comissões de inquérito parlamentar onde não há mais nada a acrescentar. Ou preferem continuar a distrair-nos com estas questões do passado enquanto o povo passa fome? Ouçam, por favor, o ex-conselheiro da Revolução, Sousa e Castro, que diz que os militares de Abril derrubaram o Estado Novo para acabar com a fome em Portugal e investiguem, por exemplo, o negócio dos submarinos. Esse sim, um verdadeiro escândalo, a par de casos como o BPN ou estas vergonhas do Freeport e os seus “envelopes castanhos” mais os gabinetes de arquitectura de amigos. Por favor, ouçam este apelo de um simples cidadão: não criem a 10ª CIPTC. Senhores deputados, se caírem no erro de criarem a 10ª CIPTC, a situação económica vai piorar, pois arriscam-se a meter a mão num ninho de vespas internacional que depois vai agravar o já apertado sufoco financeiro na tentativa de nos calar. É assim que eles têm feito há anos e anos. Desde Camarate. Os senhores deputados vão abrir uma caixa de Pandora com todas as desgraças do mundo dentro dela. Se cometerem a imprudência de quererem saber se a “alegada confissão” de um alegado responsável do alegado atentado, que, alegadamente, foi funcionário da CIA, com alegadas ligações a um – e aqui não é alegado, pois é um facto – ex-embaixador norte-americano em Portugal e posterior número dois da CIA, Frank Carlucci, que até era amigo pessoal de um ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República, Mário Soares -, então vão deixar em maus lençóis os nossos aliados norte-americanos e a sua imagem no resto do mundo. Acaso imaginam as implicações que teria para o nosso futuro se acusarmos os Estados Unidos da América de estarem por detrás do assassinato do nosso primeiro-ministro e ministro da Defesa, apenas porque estes queriam impedir que tivesse lugar em Portugal uns estranhos negócios ilegais de tráfico de armas que desrespeitavam a soberania do nosso País? Mas, onde é que já se viu isso? Se a vossa 10ª CIPTC provar que Portugal andava a vender armas para o Irão em 1980, furando assim um embargo internacional, que havia elementos da CIA por detrás desse negócio e Sá Carneiro, dois meses antes de Camarate, desconfiava estar a ser perseguido pela secreta norte-americana por querer investigar essas ilegalidades, pelo que teria sido então “encomendada” a sua morte por um milhão de dólares, isso vai deixar em maus lençóis muita boa gente que ainda hoje está viva. E não é só nos EUA. É também por cá. E aviso-vos que nem sequer é necessário chamar o desacreditado Fernando Farinha Simões de Vale de Judeus para testemunhar no Parlamento que Sá Carneiro desconfiava da CIA, pois podem perfeitamente chamar para ir à 10ª CIPTC uma pessoa credível, Vasco Abecassis, ex-marido de Snu Abecassis (a companheira de Sá Carneiro que faleceu também em Camarate), que contou precisamente isso à jornalista Cândida Pinto (outra pessoa credível), da SIC (a televisão do ex-primeiro-ministro Pinto Balsemão, também pessoa credível), que o escreveu na biografia sobre Snu, editada pela Dom Quixote (que é uma editora igualmente credível e bastante respeitada). Senhores deputados, por favor, não cometam ainda o imenso e superlativo erro de irem investigar o Fundo de Defesa Militar de Ultramar - o “saco azul” do exército do tempo da guerra colonial, destinado a financiar a compra de material de guerra fora do controle do Orçamento do Estado e que, desde o 25 de Abril de 1974, era gerido em segredo pelos “militares de Abril”, esses, ingratos, que, tal como Mário Soares (o amigo do Carlucci da CIA), faltaram às celebrações da data de Liberdade no vosso Parlamento. Se insistirem nessa perigosa ideia, então façam tudo para enganar o povo Português e escondam a necessidade de envolver o nome do Presidente da República nessa questão. Eu sei que vai ser difícil, pois quando o actual Presidente da República era ministro das Finanças recebeu ordens de Sá Carneiro para investigar o Fundo de Defesa Militar de Ultramar e nunca o fez. Assim, qualquer comissão séria teria de ir perguntar-lhe o motivo pelo qual não conseguiu cumprir as ordens do primeiro-ministro e se manteve calado ao longo destes anos todos. E, mais uma vez, não é sequer necessário recorrer a “alegadas confissões” no YouTube para confirmar isso, pois basta consultar os comunicados do Conselho de Ministros de Novembro de 1980 onde essa ordem está bem explícita. Ou então a imprensa da época – tenho cópias que vos posso fornecer. Senhores deputados, não sujeitem o Presidente da República a perguntas incómodas sobre qual o conteúdo da última reunião de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, na qual ele esteve igualmente presente, na manhã do fatídico dia 4 de Dezembro de 1980, juntamente com as mais altas chefias militares do País, para falarem precisamente sobre questões de dinheiro e Orçamento. Não façam essas perguntas ao Presidente da República, pois o País já tem tantos problemas económicos que a imagem de Portugal no estrangeiro iria ficar arruinada para sempre. Já basta termos um ex-primeiro-ministro com fama de corrupto, imaginem agora só se, na sequência da vossa investigação, um jornalista norte-americano, ou inglês, ou francês, ou alemão se lembrasse de escrever lá no país dele que, aqui, no belo e tranquilo Portugal, o Presidente da República é suspeito de ter encoberto o móbil do assassinato de um antigo primeiro-ministro e ministro da Defesa pela CIA. Que o fizera para proteger militares portugueses e norte-americanos. Que assim escondeu um negócio de tráfico de armas de Portugal para o Irão no tempo em que o ex-director da CIA, George Bush, era candidato a vice-presidente dos EUA. Imaginem ainda que esses jornalistas se lembrassem ainda de que, no dia da primeira tomada de posse do nosso Presidente da República, George Bush esteve no Parlamento português como seu convidado de honra, confirmando assim uma longa amizade. Imaginem então uma coisa ainda mais grave, pois esses jornalistas estrangeiros iriam depois ficar a saber que, a ter havido negócio de tráfico de armas para o Irão através de Portugal em finais de 1980, isso iria demonstrar que elementos da campanha republicana Reagan/Bush, ex-agentes da CIA, teriam negociado secretamente com os iranianos a não libertação dos reféns de Teerão antes das eleições presidenciais nos EUA, a 4 de Novembro de 1980, roubando assim a reeleição de Jimmy Carter. Isso significaria que a administração Reagan chegara ao poder através de um acto de traição. Iria colocar em causa toda a política norte-americana no Médio Oriente na actualidade, pois a mesma tem sido a sequência lógica das acções iniciadas por esse negócio da CIA em Portugal com a cumplicidade dos nossos dirigentes, dirigentes norte-americanos republicanos e até com complacência dos democratas. Não, senhores deputados, a morte de um estadista em Portugal não pode chegar as estas conclusões. É preciso manter esta Ordem Mundial, senão ainda se chega à questão de saber de onde vinha o dinheiro para manter estes negócios e revelar as redes de tráfico de droga, as organizações terroristas que são promovidas para justificar as mortes e assassinatos que cresceram da mesma forma que os furacões nascem com o bater de asas de borboletas. E é por isso que temos a crise económica mundial de hoje, precisamente por causa de todos os negócios que se fizeram depois destes negócios que levaram a Camarate. Sei que parece ser algo pretensioso querer dizer que Camarate está na origem de todos os males no mundo, mas, de certo modo, infelizmente, e sem exageros, até está. E não podemos mostrar essa verdade aos Portugueses: eles não iriam aguentar. É pior do que o holocausto de Hitler, acreditem. Por isso, o meu apelo, para que não iniciem sequer os trabalhos. Tentem ir adiando até ser esquecido. A imprensa está a dar o exemplo e está fazer um bom trabalho ao ignorar o assunto. Deram a notícia ontem, mas hoje já ninguém se lembra. Não falem mais nisso e daqui a nada, no fim do mês, os portugueses já se esqueceram e podem continuar infelizes e domesticados como sempre. Qualquer CIPTC nesta altura ou noutra qualquer, mesmo que conseguisse abafar metade daquilo que eu aqui digo, ainda assim iria descobrir muita coisa, pois os factos existem e até estão à vista. Não os liguem entre si. Não estraguem a verdade oficial que tantos anos demoraram a construir. Lembrem-se que se houver sangue, ainda pode ser o vosso a jorrar nas escadas do Parlamento. Não deixem falar quem quer falar, não façam falar quem não pode falar. Por favor, senhores deputados, não falem mais em Camarate!

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20120319

O tesouro de Guimarães

Ainda pensei que, quando o semanário Sol publicou no início deste mês uma grande entrevista ao comandante Alpoim Calvão sobre a sua "vida aventurosa", iria aproveitar o facto da cidade de Guimarães ser este ano Capital Europeia da Cultura, para nos dar um bom momento jornalístico, histórico e cultural e, finalmente, esclarecer o que aconteceu ao tesouro de Guimarães, roubado a 16 de Novembro de 1975, dias antes do golpe do dia 25...


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20111007

Sobre a memória e a memória dos jornalistas

O jornalista António Granado confessou hoje que já errou ao escrever uma manchete. Diz que nunca mais se esqueceu da notícia que, então ao serviço do diário "Público", mandou imprimir: "Avião explode sobre o Mar Morto" quando, na realidade, o avião não caíra sobre o mar de Israel, mas sim no Mar Negro, para os lados da Rússia. Penso que não deve ser considerado um erro, mas sim um engano perfeitamente explicado pelo facto do avião ter partido de Israel. Granado disse que confiou na memória quando ditou o título para a primeira página e, portanto, avisa: "Nunca mais me esqueci que os jornalistas não devem confiar na memória"...
Devo dizer que, seguindo o conselho de Granado, também eu nunca confiei na memória e nunca quis guardar nada na memória. Pode parecer contraditório, pois o meu trabalho jornalístico é precisamente o de avivar a memória e queixo-me sempre que a memória está afastada das actuais redacções. Ora, o que parece uma contradição, é de facto a confirmação de que não guardo nada na memória. Confusos? Eis uma explicação prática: não me lembrava deste engano do "Público", nem sequer me recordava da queda daquele avião. Mas, assim que li o texto de António Granado, fiquei com curiosidade em querer saber mais sobre o caso.



Afinal, por que razão caiu aquele avião? Teria sido mesmo um atentado terrorista poucos dias depois do 11 de Setembro de 2001? Como António Granado não mencionou o "follow-up" da história, fiz uma busca na memória da... Internet. Acabei por ir parar ao site do Aviation Safety Network que me informou que ""flight 1812 had departed Tel Aviv for a flight to Novosibirsk. It proceeded at an altitude of FL360 on airway B-145 over the Black Sea. At the same time the Ukraine defence forces were doing an exercise near the coastal city of Theodosii in the Crimea region. Missiles were fired from an S-200V missile battery. A 5V28 missile missed the drone and homed in on the Tupolev. The missile exploded some 15 meters above the plane. The aircraft sustained serious damage, resulting in a decompression of the passenger cabin and a fire. The aircraft entered an uncontrolled descent, crashed into the sea and sank to a depth of 2000 m".
Ora, ao ler isto, recordei-me de uma notícia sobre a queda de um outro avião, este nos EUA, anos antes, e que sempre se suspeitou que teria sido abatido por um míssil, embora isso nunca tenha sido provado. É um caso que ficou conhecido como TWA 800...



Será isto fruto da memória? Não. Para mim, que tanto faz, é apenas trabalho jornalístico.

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20101213

Vejam só este belo exemplo...

O diário espanhol "El País", publicou hoje nas páginas de abertura (2 e 3) um artigo sobre o telegrama diplomático norte-americano que refere a ligação do BCP ao Irão...



O artigo do "El País" citou então a seguinte informação que consta daquela comunicação diplomática dos EUA: "Early last year, the Iranian Embassy in Lisbon contacted Ferreira, who had previous contact with that embassy while serving as Chairman of the Board of Directors of Oeiras Foundation (1987-1989), a state entity that he says sold munitions to Iran more than 20 years ago"...



O jornalista espanhol do "El País" que assina o artigo, Francesc Relea, fez depois a "recolocação de factos" e informou os seus leitores que "el detalle no puede pasar desapercibido si se tiene en cuenta que la venta de armas lusas a Irán, antes y durante la guerra de aquel país islámico contra Irak (1980-88), levantó durante años gran polvareda en Portugal y sigue siendo un asunto con abundantes interrogantes. El hilo de aquellos suministros militares llega hasta la muerte del ex primer ministro portugués Francisco Sá Carneiro, el 4 de diciembre de 1980, conocida como el caso Camarate".
Comparem este artigo espanhol com o que escreveram sobre o mesmo assunto os jornalistas do "Público" e do "DN". Digam-me agora se ainda acham que vivem num país onde os jornalistas fazem o seu trabalho ou se, pelo contrário, estão a esconder debaixo do tapete a nossa História recente...

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20100125

Nas palavras dos outros

20081023

Jornalismo de Investigação

A "I Conferência Jornalismo de Investigação e Novos Meios Tecnológicos" vai ter lugar a 7 de Novembro. Não irei assistir, mas mando um abraço ao último jornalista de investigação que é Manso Preto, responsável por algumas das mais arriscadas reportagens sobre o tráfico de droga no Minho e que, no início dos anos 90, deram origem a este livro...





Há cerca de três anos frequentei um curso de Verão sobre jornalismo de investigação da Universidade Rey Juan Carlos, em Aranjuez. A conclusão a que se chegou foi a de que, hoje em dia, há cada vez menos espaço e dinheiro para investir na investigação jornalística. E Portugal, como é um país pequeno, cada vez que um jornalista começa a investigar corre o sério risco de ir mexer na trampa dos amigos do patrão ou até do próprio...
Por isso, mais vale quietinho...
Consolida, consolida...

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20080911

O ministro que gosta de teorias da conspiração

Portugal tem um ministro da Administração Interna que quer convencer os seus cidadãos que o aconteceu dentro da esquadra da polícia de Portimão - onde uma desavença acabou com um indivíduo a disparar sobre uma outra pessoa à frente de vários polícias - pode ser comparado à morte de Lee Harvey Oswald por Jack Ruby na esquadra da polícia de Dallas...



Isso só é possível em Portugal porque os jornalistas, depois de terem ouvido as declarações do ministro, não fizeram uma pergunta cuja resposta pode ser facilmente encontrado na Internet: "Mas, afinal, e o que foi que aconteceu ao gajo que matou lá o tipo Osvaldo?"...
E, já que estamos em dia 11 de Setembro, aqui fica mais uma memória conspirativa para explicar que, afinal, a culpa começou por ser mesmo da polícia, que facilitou a missão àqueles que mataram o presidente JFK e depois deixaram matar o homem que diziam que matara JFK...

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20080329

Dos jornalistas que vos dizem que a terra é plana

Estou a ler este livro de Nick Davies. Confirma-se: é assustador. Para quem pensava que o jornalismo em terras de Sua Majestade ainda conseguia resistir como uma profissão credível, desengane-se. Por lá, os problemas são os mesmos de por cá e, acredito, o mal é cada vez mais global... Ainda nem sequer vou a meio, mas já tenho aqui uns excertos para terem uma ideia do que se fala:


"(...) à semelhança das suas fontes, os próprios jornalistas não conheciam a verdade - apesar de a verdade ser o objectivo principal. E isto é um lugar comum. A ignorância está na origem do falhanço dos meios de Comunicação Social. Na maioria das vezes, a maior parte dos jornalistas não sabem do que estão a falar. As histórias podem estar certas ou erradas: eles não sabem".


"Não digo isto como um insulto dirigido a eles (bem, à maioria deles). No geral, os jornalistas, tal como muitos profissionais, preferem fazer bem o seu trabalho. Digo-o porque esta profissão estragou-se até ao ponto em que, na maior parte das vezes, a maioria dos seus membros não conseguem fazer o seu trabalho".


"Trabalham em estruturas que positivamente impedem-os de descobrirem a verdade. Historicamente, sempre houve um elemento de ignorância no jornalismo, apenas porque tenta registar a verdade à medida que esta acontece. Agora, isso é ainda pior. É endémico. A ética da honestidade foi ultrapassada pela produção massiva de ignorância".


"A história do falhanço dos meios de Comunicação Social é complicada e súbtil. Envolve todo o tipo de manipulação, conspiração ocasional, mentiras, batotas, estupidez, cupidez, culpabilidade, um colapso das capacidades e uma nova vaga de propaganda deliberada. Mas a história começa com jornalistas que vos dizem que a terra é plana, porque pensem genuinamente que esta até poderá ser. A escala de quem assim pensa é aterradora".

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20080305

Pacheco Pereira, o director

Não, Pacheco Pereira não vai ser o novo director da Focus... Entenda-se que refiro-me ao facto do comentador político ter sido o director da edição de hoje do diário "Público", que assinala assim os 18 anos de vida (parabéns) - O jornal surgiu na altura em que eu terminava o ensino secundário e alimentava a ideia de seguir o curso de jornalismo, pelo que me recordo muito bem daqueles primeiros anos. Ainda por cima a sede social do jornal e a redação do Porto ficavam pertíssimo do liceu onde estudava. Nunca tive a oportunidade de trabalhar neste diário, pois acabei por conseguir encaixar-me como estagiário - remunerado, imagine-se! - no histórico "O Primeiro de Janeiro". Contudo, conheci bem o ambiente do "Labirinto", o bar onde à noite se podia ler a primeira página do "Público" do dia seguinte. Adiante - Foi com alguma supresa que abri a edição de hoje e deparei-me com duas páginas compostas de um estranho gráfico que serpenteava de um lado ao outro: "Mas que confusão!", pensei para comigo. Depois de estranhar, obviamente que entranhei toda a informação que estava naquele gráfico que explicava a cronologia do processo do Casino de Lisboa. "Ora aí está algo bem feito", conclui. Na página 15 pude ler a explicação da existência daquele gráfico:

"Quero tudo sobre a história do Casino! Todos os documentos que for possível encontrar!" Agora, Pacheco Pereira é director. Está na reunião matinal de editores. "Temos de usar os arquivos. Vamos fazer a anatomia de um processo de decisão". É a proposta para o Destaque.
A editora de Portugal põe objecções. "Um processo de decisão não é uma notícia". Para o novo director, é. Ele não é jornalista. É historiador, só pensa no futuro.
"Cada vez mais, o Estado negoceia com os privados, e isso não é escrutinado", explica ele. "Os jornalistas têm de o fazer. Todos temos de o fazer".
Aparentemente, não há nenhum dado novo sobre o caso de Telmo Correia e o casino de Lisboa. Logo, não há notícia. Ou há? A sugestão de Pacheco Pereira: fazer uma cronologia relacional, exaustiva de todo o processo. Reunir todos os documentos, todas as datas, todas as declarações, todas as notícias dos jornais, e com isso desenhar um gráfico, um mapa. Depois procurar as falhas, os espaços em branco, os dados contraditórios. No fim, extrair conclusões. Verdades até então ocultas: notícias.
É um método da ciência histórica


Quando li estas linhas fiquei abismado. Teve de ser o Pacheco Pereira a explicar o óbvio... Imaginei o choque de Pacheco Pereira quando a editora lhe disse que aquilo não era notícia. Naquela altura, deve-lhe ter passado pelos olhos toda a vida e, finalmente, compreendeu a razão pela qual muitos leitores se estão a afastar dos jornais. Quantas vezes não falei eu já aqui da necessidade do "jornalismo científico"?

Mas a coisa não se ficou por aqui:

O Ricardo Felner está todo o dia a recolher documentos, em arquivos, em bases de dados, no Diário da República. Despachos, decretos-lei, mais de sete mil recortes de imprensa. Ele, que segue o caso desde o início, já tinha visto tudo aquilo. Mas não tudo aquilo junto. Aquele parecer de Telmo Correia, por exemplo. Só agora, que o compara com as datas das mensagens telefónicas, percebe que não bate certo. Não pode ter sido assinado naquela altura...

Uau! Uma reportagem a sério feita na base do cruzamento de dados de arquivos! Ena pá... Olha outra coisa que já poucos fazem...

Mas, há mais:

Por exemplo, o acidente com o Ferrari, no Porto. "Isto não tem nada a ver com os crimes no resto do país. No Porto, a criminalidade está relacionada com um determinado ambiente..."
Na reunião da tarde, chega a informação de que, afinal, foi mesmo um acidente. O director não diz nada. Parece decepcionado, mas conforma-se. A realidade não confirma a hipótese, paciência: era um simples facto avulso. E continua a busca. A busca de sentido. "A manchete é o casino!"
Surgem dúvidas: "Terá ele informação privilegiada? Mandou fazer o gráfico do casino porque já sabia que se ia encontrar qualquer coisa?"
Se for o caso, terá interferido na História. Terá mudado o passado: a tentação do historiador. Mas esta notícia tem futuro. A do Porto, talvez não, mas ainda assim é uma história: "Faz-se um perfil do homem do Ferrari. As pessoas gostam de ler essas coisas".


Meus senhores, o Pacheco Pereira é homem do Porto - embora a irmã Beatriz diga que às vezes ele esquece-se (isso virá na Focus da próxima semana) -, por isso sabe bem do que aquela gente é capaz. Ele também não é parvo e sabe que houve ali marosca, mas se a PJ garante que foi acidente... para já espera-se. É que a PJ também está a considerar a hipótese da morte de um segurança do Centro Comercial Colombo com três facadas de ponta e mola no peito poderá ter sido suicídio*, por isso... tá quieto ò menino! Agora, insinuar que tinha informações privilegiadas para a reportagem do Casino quando o que ele pediu que se fizesse foi algo tão natural do ponto de vista jornalístico, é mesmo de baixo nível. Mas eu entendo, pois ainda há alguns jornalistas com carteira que fazem precisamente o contrário: ocultam informações privilegiadas por conveniência. E que só falam quando lhes interessa...
Pacheco Pereira, num único dia, mostrou o que pode fazer um bom director quando se cumprem regras básicas do jornalismo. Ele hoje salvou o emprego a muitos dos jornalistas do "Público".
Por mim, não me importava nada de o ter como próximo director da Focus.

*"Três golpes de faca no peito terão provocado a morte ao homem de 35 anos que trabalhava para a empresa de segurança Charon. A Polícia Judiciária já está a investigar este caso, não sabendo ainda esclarecer se terá sido suicídio ou homicídio. De acordo com fonte policial, a faca foi encontrada junto ao corpo da vítima".

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20080218

Lembrete: tenho de ler este livro...

20080213

"Sócrates viola regras básicas do Estado de direito"

Sobre a investigação judicial em Sesimbra ao negócio autorizado em Março de 2003 pelo então ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, Isaltino Morais, achei estranho que ainda ninguém nos tenha lembrado que, antes de Isaltino, o ministro do Ambiente que teve este dossier em mãos foi... José Sócrates!





in, "Expresso", Dezembro de 2000

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20070730

A memória...

Entrevista de José Miguel Sardo ao jornalista francês Paul Moreira, luso-descendente, publicada hoje no DN por ocasião do lançamento em França do livro "Les Nouvelles Censures":

"- Qual é afinal a 'nova censura' de que fala no seu livro?
- A censura, como a conhecíamos no passado, desapareceu. A censura brutal, se ainda existe, acaba sempre por ser contraproducente, porque hoje tudo acaba por ser divulgado, mas não se imprime na memória, e é exactamente aí que vai incidir o controlo da informação, no controlo da memória. Todo o trabalho dos gabinetes de relações públicas, dos conselheiros de comunicação, é um trabalho de gestão do que vai ficar retido na memória, e de gestão da emoção pública, porque sabemos que o mundo muda cada vez que a emoção pública ultrapassa um certo nível".

Ao que posso acrescentar esta opinião sobre o mesmo livro:

"So Moreira is the first to reject ‘Big Brother’-like worldwide conspiracy theories. Although his book seems to only portend to manipulations led by huge corporations or States, he explains he had to base it on specific investigations and concrete examples. Truth is, 'there is a myriad of interests that construct these firewalls,' he says, and these censorships are driven by 'industrial projects' rather than ideology – the stakes are often tragically banal, such as money or the dissimulation of legal mishaps".

Tudo isto faz-me lembrar a frase do "1984" de Gorge Orwell, que usei na abertura do meu livro "Eu Sei Que Você Sabe": "Quem controla o passado controla o futuro, quem controla o presente controla o passado".

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20070322

O "Público" errou e de que maneira!...

O artigo do "Público" de hoje sobre um debate a propósito dos quatro anos da Guerra do Iraque tem um erro factual gritante...

"Quem permitiu a realização da Cimeira das Lajes, de onde em Fevereiro de 2003 saiu um ultimato a Saddam Hussein", assim começa o texto que, mais à frente, reafirma: "Na cimeira, um mês antes da invasão".

É pena que, apenas quatro anos volvidos, a memória histórica e factual dos acontecimentos esteja já apagada da mente de alguns jornalistas e de quem tem responsabilidades acima deles.



Veja aqui como é que tudo se passou há apenas quatro anos...

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