20100625

"24 Horas" para sempre

Leio que vão matar o "24 Horas". Há uns jornalistas que se vão safar - sei de um que está farto de se safar, aliás - há os outros que por lá passaram e agora até estão a mandar noutros sítios - fez escola, portanto. Lamento é pelos bons que não se vão safar... É nesses que penso sempre.

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20100101

Pequenas diferenças

Enquanto nós por cá temos deputados que são chamados de palhaço, nos EUA há várias maneiras de tratar um senador...



Enquanto nós por cá temos jornalistas mansos, nos EUA há quem consiga fazer perguntas incómodas - e obter as respostas possíveis - mantendo a boa educação...

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20091120

Equívocos e apagões...



"Sol" de hoje, primeira página: "Recorde-se que, quando Santana era primeiro-ministro, Cavaco publicou no Expresso um artigo sobre a lei de Gershwin, segundo a qual a má moeda tendia a expulsar a boa moeda – e esse era um risco que o país corria".

Lei de Gershwin...



Lei de Gresham.

(Aviso: Em nenhuma parte da crónica de Pedro Santana Lopes surge o nome "Gershwin" ou "Gresham". O texto da primeira página é da inteira responsabilidade dos responsáveis...)

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20090115

Um rafeiro é que seria o mais apropriado

Agora a "Entidade Regional de Turismo do Algarve anunciou que está disponível para dar um exemplar de um cão d'água da Ria Formosa, nascido no Algarve, ao presidente eleito dos EUA, Barack Obama, caso este opte pela raça portuguesa".
Por favor, algum jornalista que explique a estas pessoas, e à generalidade dos portugueses, que Obama não está indeciso sobre o cão que vai escolher. O seu único problema é o facto de que o cão tem de vir de um abrigo para cães abandonados. O casal Obama tem gostos finos, mas como ainda quer mostrar que se interessa pelos pobres e abandonados tomou a decisão política de que o cão terá de vir de um abrigo para cães abandonados. Levanta-se um problema técnico, pois qualquer animal das duas raças que ele pode optar são raros nos abrigos. E, a acontecer, o mais provável é que a escolha não caia no cão de água português.
O melhor que os senhores do Algarve poderiam tentar fazer, passava por mandarem o cão para os EUA, em segredo, via mala diplomática, e que depois um agente dos serviços secretos o fosse colocar à porta de um abrigo para cães em Washington. A seguir telefonavam para o patrão a avisar que fora "convenientemente" descoberto um cãozinho de raça pura à espera de ser recolhido. E, para mais uma informação, acrescente-se que as sondagens defendem que os norte-americanos até preferem que Obama se deixe de coisas finas e faça a escolha mais apropriada às suas origens e leve um rafeiro para a Casa Branca.

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20090113

Um cão de água português não é animal que se abandone

Há uma coisa que os jornalistas portugueses não estão a dizer nas notícias sobre o cão que Barack Obama poderá vir a escolher para as filhas. Andam todos muito contentes e a "vender" a ilusão de que a escolha poderá cair - ò vã glória! - no cão de água português. É óbvio que essa seria a escolha certa - é um cão vivaço, meigo e não provoca alergias, o que é importante para a filha mais nova do casal Obama - mas, esqueceram-se os jornalistas de acrescentar que esse cão tem de vir de um abrigo de animais abandonados. Sim, a escolha é também ela um acto político e, como nos diz a Fox: "And even if the Obamas get lucky, the dog will almost certainly will be the Labradoodle, which is a crossbreed between a French poodle and a Labrador retriever. And even that will be very hard to find". Cá para mim, que tanto faz,se Obama arranjar um cão de água português num abrigo, então será uma descoberta "muito conveniente". O que, realmente, seria uma boa forma de começar um mandato. Mal por mal, ainda assim prefiro o discurso de Nixon sobre o "Checkers"...

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20080329

Dos jornalistas que vos dizem que a terra é plana

Estou a ler este livro de Nick Davies. Confirma-se: é assustador. Para quem pensava que o jornalismo em terras de Sua Majestade ainda conseguia resistir como uma profissão credível, desengane-se. Por lá, os problemas são os mesmos de por cá e, acredito, o mal é cada vez mais global... Ainda nem sequer vou a meio, mas já tenho aqui uns excertos para terem uma ideia do que se fala:


"(...) à semelhança das suas fontes, os próprios jornalistas não conheciam a verdade - apesar de a verdade ser o objectivo principal. E isto é um lugar comum. A ignorância está na origem do falhanço dos meios de Comunicação Social. Na maioria das vezes, a maior parte dos jornalistas não sabem do que estão a falar. As histórias podem estar certas ou erradas: eles não sabem".


"Não digo isto como um insulto dirigido a eles (bem, à maioria deles). No geral, os jornalistas, tal como muitos profissionais, preferem fazer bem o seu trabalho. Digo-o porque esta profissão estragou-se até ao ponto em que, na maior parte das vezes, a maioria dos seus membros não conseguem fazer o seu trabalho".


"Trabalham em estruturas que positivamente impedem-os de descobrirem a verdade. Historicamente, sempre houve um elemento de ignorância no jornalismo, apenas porque tenta registar a verdade à medida que esta acontece. Agora, isso é ainda pior. É endémico. A ética da honestidade foi ultrapassada pela produção massiva de ignorância".


"A história do falhanço dos meios de Comunicação Social é complicada e súbtil. Envolve todo o tipo de manipulação, conspiração ocasional, mentiras, batotas, estupidez, cupidez, culpabilidade, um colapso das capacidades e uma nova vaga de propaganda deliberada. Mas a história começa com jornalistas que vos dizem que a terra é plana, porque pensem genuinamente que esta até poderá ser. A escala de quem assim pensa é aterradora".

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20080305

Pacheco Pereira, o director

Não, Pacheco Pereira não vai ser o novo director da Focus... Entenda-se que refiro-me ao facto do comentador político ter sido o director da edição de hoje do diário "Público", que assinala assim os 18 anos de vida (parabéns) - O jornal surgiu na altura em que eu terminava o ensino secundário e alimentava a ideia de seguir o curso de jornalismo, pelo que me recordo muito bem daqueles primeiros anos. Ainda por cima a sede social do jornal e a redação do Porto ficavam pertíssimo do liceu onde estudava. Nunca tive a oportunidade de trabalhar neste diário, pois acabei por conseguir encaixar-me como estagiário - remunerado, imagine-se! - no histórico "O Primeiro de Janeiro". Contudo, conheci bem o ambiente do "Labirinto", o bar onde à noite se podia ler a primeira página do "Público" do dia seguinte. Adiante - Foi com alguma supresa que abri a edição de hoje e deparei-me com duas páginas compostas de um estranho gráfico que serpenteava de um lado ao outro: "Mas que confusão!", pensei para comigo. Depois de estranhar, obviamente que entranhei toda a informação que estava naquele gráfico que explicava a cronologia do processo do Casino de Lisboa. "Ora aí está algo bem feito", conclui. Na página 15 pude ler a explicação da existência daquele gráfico:

"Quero tudo sobre a história do Casino! Todos os documentos que for possível encontrar!" Agora, Pacheco Pereira é director. Está na reunião matinal de editores. "Temos de usar os arquivos. Vamos fazer a anatomia de um processo de decisão". É a proposta para o Destaque.
A editora de Portugal põe objecções. "Um processo de decisão não é uma notícia". Para o novo director, é. Ele não é jornalista. É historiador, só pensa no futuro.
"Cada vez mais, o Estado negoceia com os privados, e isso não é escrutinado", explica ele. "Os jornalistas têm de o fazer. Todos temos de o fazer".
Aparentemente, não há nenhum dado novo sobre o caso de Telmo Correia e o casino de Lisboa. Logo, não há notícia. Ou há? A sugestão de Pacheco Pereira: fazer uma cronologia relacional, exaustiva de todo o processo. Reunir todos os documentos, todas as datas, todas as declarações, todas as notícias dos jornais, e com isso desenhar um gráfico, um mapa. Depois procurar as falhas, os espaços em branco, os dados contraditórios. No fim, extrair conclusões. Verdades até então ocultas: notícias.
É um método da ciência histórica


Quando li estas linhas fiquei abismado. Teve de ser o Pacheco Pereira a explicar o óbvio... Imaginei o choque de Pacheco Pereira quando a editora lhe disse que aquilo não era notícia. Naquela altura, deve-lhe ter passado pelos olhos toda a vida e, finalmente, compreendeu a razão pela qual muitos leitores se estão a afastar dos jornais. Quantas vezes não falei eu já aqui da necessidade do "jornalismo científico"?

Mas a coisa não se ficou por aqui:

O Ricardo Felner está todo o dia a recolher documentos, em arquivos, em bases de dados, no Diário da República. Despachos, decretos-lei, mais de sete mil recortes de imprensa. Ele, que segue o caso desde o início, já tinha visto tudo aquilo. Mas não tudo aquilo junto. Aquele parecer de Telmo Correia, por exemplo. Só agora, que o compara com as datas das mensagens telefónicas, percebe que não bate certo. Não pode ter sido assinado naquela altura...

Uau! Uma reportagem a sério feita na base do cruzamento de dados de arquivos! Ena pá... Olha outra coisa que já poucos fazem...

Mas, há mais:

Por exemplo, o acidente com o Ferrari, no Porto. "Isto não tem nada a ver com os crimes no resto do país. No Porto, a criminalidade está relacionada com um determinado ambiente..."
Na reunião da tarde, chega a informação de que, afinal, foi mesmo um acidente. O director não diz nada. Parece decepcionado, mas conforma-se. A realidade não confirma a hipótese, paciência: era um simples facto avulso. E continua a busca. A busca de sentido. "A manchete é o casino!"
Surgem dúvidas: "Terá ele informação privilegiada? Mandou fazer o gráfico do casino porque já sabia que se ia encontrar qualquer coisa?"
Se for o caso, terá interferido na História. Terá mudado o passado: a tentação do historiador. Mas esta notícia tem futuro. A do Porto, talvez não, mas ainda assim é uma história: "Faz-se um perfil do homem do Ferrari. As pessoas gostam de ler essas coisas".


Meus senhores, o Pacheco Pereira é homem do Porto - embora a irmã Beatriz diga que às vezes ele esquece-se (isso virá na Focus da próxima semana) -, por isso sabe bem do que aquela gente é capaz. Ele também não é parvo e sabe que houve ali marosca, mas se a PJ garante que foi acidente... para já espera-se. É que a PJ também está a considerar a hipótese da morte de um segurança do Centro Comercial Colombo com três facadas de ponta e mola no peito poderá ter sido suicídio*, por isso... tá quieto ò menino! Agora, insinuar que tinha informações privilegiadas para a reportagem do Casino quando o que ele pediu que se fizesse foi algo tão natural do ponto de vista jornalístico, é mesmo de baixo nível. Mas eu entendo, pois ainda há alguns jornalistas com carteira que fazem precisamente o contrário: ocultam informações privilegiadas por conveniência. E que só falam quando lhes interessa...
Pacheco Pereira, num único dia, mostrou o que pode fazer um bom director quando se cumprem regras básicas do jornalismo. Ele hoje salvou o emprego a muitos dos jornalistas do "Público".
Por mim, não me importava nada de o ter como próximo director da Focus.

*"Três golpes de faca no peito terão provocado a morte ao homem de 35 anos que trabalhava para a empresa de segurança Charon. A Polícia Judiciária já está a investigar este caso, não sabendo ainda esclarecer se terá sido suicídio ou homicídio. De acordo com fonte policial, a faca foi encontrada junto ao corpo da vítima".

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20070411

Monte Olimpo

A sentença do Supremo Tribunal de Justiça que condena o diário "Público" no pagamento de uma indemnização de 75 mil euros ao Sporting por ter publicado, em Fevereiro de 2001, uma notícia verdadeira sobre as dívidas fiscais do clube e que causaram prejuízos à imagem da instituição está, na minha modesta opinião, correctíssima.
Apesar de haver alguns jornalistas que não conseguem entender, a razão é simples: os jornalistas não podem ser desresponsabilizados do seu papel social, mesmo quando publicam notícias verdadeiras!
Concordo que qualquer pedófilo, assassino, violador de velhinhas possa um dia processar os jornais que noticiaram a sua detenção e identidade. Se a lei não atira criminosos para uma prisão perpétua nem os condena à morte (o que acho bem), a mesma lei defende o seu direito à reintegração em sociedade. Os jornalistas, sentados no seu Monte Olimpo, julgam-se senhores da verdade, mas também têm de perceber que essa verdade prejudica aqueles que prevaricaram e que, ainda assim, têm o direito a proseguir com a sua vida uma vez paga a sentença à sociedade. Um direito que a Comunicação Social, com a sua verdade de cariz financeiro, restringe.
Se o "Público" achou por bem publicar aquela verdade sobre o Sporting e nesse dia ganhou dinheiro com o negócio das notícias (sim, vejam que os gratuitos, por exemplo, não publicam notícias que abrem jornais nem incomodam), então não podem censurar a Justiça quando esta os condena no preceito da lei.
A única resposta deveria ser dada com jornalismo, em vez de se armarem em vítimas e desatarem a gritar "censura!".
Se houvesse jornalismo a sério em Portugal em vez das investigações por "encomenda" ou encobrimentos convenientes, o Sporting iria ser investigado na sua acusação. Afinal, quantos sócios abandonaram o clube após a data da publicação da notícia? E quantos novos sócios entraram logo a seguir? E quantos campeonatos conquistou pouco depois da publicação da notícia? As respostas é que deveriam marcar o valor da indemnização...
E, por outro lado, os jornais também deviam avançar com processos judiciais. Por exemplo, contra um primeiro-ministro que oculta dados sobre a sua licenciatura ou um outro que usou o nome de Portugal numa declaração de guerra baseada em mentiras...
E isso sim, é que seria inteligente.

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