Blogue do jornalista Frederico Duarte Carvalho, com coisas que tanto faz que se saibam porque em nada servem para o que sabemos. e-mail: paramimtantofaz@gmail.com
I first arrived at Praia da Luz on May 11, 2007 and the “circus” was already settled. A week had gone by since the disappearance of Madeleine McCann...
What I remember the most was the heat. Even for May it was terribly hot. One could hardly think...
The journalists where gathered at the corner of the apartment at the Ocean Club, next to the window where the supposed kidnaper had escaped. It wasn’t necessary to be a regular watcher of policies television serials to conclude that no more forensic material was going to be collected at that particular area. The “contamination” was a nude fact. Journalists and National Guard (GNR) officials of the K-9 section where in a direct contact: «What a show-off» - I thought.
Anyway, if a kidnaper had taken the child, he would then be long gone from the Algarve. Even from Portugal. Maybe even from Europe. Although, for those that then said the Portuguese border with Spain had been closed too late, I must remember that the most Eastern frontier of Portugal is - since we are in the EU - now located in... Poland. Few people might know this detail, but one of the most reliable newspapers in Portugal, “Diário de Notícias”, wrote just two days after the disappearance the following title: «This story isn’t well told». While the parents mentioned a break-in into the apartment, the GNR’s disagreed...
Although there were some the doubts, the press pointed at a kidnap theory and the parents were then the victims. We were all sympathetic to them. «They’ve taken her. They’ve taken her», it was the mother shout the night her daughter went missing. The very first article from the “Sunday Times” printed that phrase. Some months later, it would be analysed in order to understand who indeed “they” where...
As I walked around the touristic compound of the Ocean Club, I could see from a street level the tennis courts where the parents and friends used to spend their time. From there one could easily observe the swimming pool and playground. It was a perfect spot where a possible kidnaper could have made a look-out. The only problem with, is that he could also be spotted and arouse suspicions upon him.
I watched one of the most emotional moments of those early days when, on the night of May 12, when the parents went to a night mass in order to remember the birthday of her missing daughter...
The local priest talked about hope...
The case was getting a lot of coverage in the UK, and immediately spread to the rest of the world. One must also remember that this coincided with the news that Tony Blair was leaving his Number 10 seat and giving it to Gordon Brown...
Meanwhile I was obsessed with a fact: next to apartment, at the end of the street there was a big pyramid on a house garden. The pyramid was squared with the street where the press was...
It was impossible to ignore it, but very few journalists went to visit the garden where such a strange element was planted. If they had done it -like I did -, then they would have seen this other scenery just next to place where Madeleine had disappeared...
Then, on May 15, Robert Murat was arrested. His house was on the opposite side of the pyramid house…
I had to return to Lisbon on that day. I thought the case could be closed on the following days. But that didn’t happen. There were no sufficient evidences to point out Murat or his friends into. Two months later, on July 2007, the new British prime-minister received the Portuguese prime-minister, José Sócrates, in London...
On about the same time the McCann friend's went to the Polícia Judiciária (PJ) in Portimão to testify. The police was doing all they could on the search, and even the father, Gerry McCann, thanked the PJ for suspending their summer leave in order “to ensure no stone is left unturned” in finding his daughter...
It was Jane Tanner testimony that identified Robert Murat. She was walking along this street from the restaurant to the apartment…
She said she saw a man walking into this street...
My question was: Why walk into a street full of light when you had a dark street on the other end?...
Then, 27 days after the disappearance, the parents went to Rome to see the Pope...
They also went on to travel into several cities in Europe. It was in Berlin, on June 6, that they got a bad moment, when they had to face a hard question…
It wouldn’t take too longer until the parents were to be found suspects...
They were questioned for hours into the night...
The evidences were never conclusive and they managed to return into England...
On that day, as they arrived in England without their daughter, there was a traditional religious ceremony at the Praia da Luz church.
A advogada do casal McCann, Isabel Duarte, pretende agora processar o ex-coordenador operacional da PJ, Gonçalo Amaral, por este ter alegadamente violado o segredo de justiça do caso Madeleine McCann. Baseada no testemunho do editor do livro "A Verdade da Mentira", Mário Sena Lopes, Isabel Duarte constatou que a obra teria sido entregue na editora "Guerra&Paz" ainda antes do dia 21 de Julho de 2008, data do despacho final que arquivava o processo. Logo, Gonçalo Amaral violou o segredo de justiça e deve pagar por isso. Ora, na altura em que Gonçalo Amaral começou a trabalhar na obra, era já previsível - por força da lei - que o processo iria sair do segredo de justiça perto do mês de Agosto. Só que, por coincidência, foi tornado público dias antes da publicação da obra - tendo esta sido editada a 24 de Julho. Ou seja, Gonçalo Amaral estava mesmo disposto a violar a lei do segredo de justiça e a iniciar um debate mediático sobre o assunto. Só que, com o arquivamento dias antes do lançamento do livro, Gonçalo Amaral já não poderia ser acusado de violar o segredo de justiça. Quando muito poderia era ser acusado de tentativa de violação do segredo de justiça. E ele bem que o tentou, mas nem isso lhe permitiram...
A filha do antigo procurador-geral da República Cunha Rodrigues, Maria Gabriela Cunha Rodrigues, é a juíza que tem nas mãos o futuro do ex-coordenador operacional da PJ do caso Madeleine McCann, Gonçalo Amaral. No primeiro dia da audição sobre a proibição do livro "A Verdade da Mentira", a juíza ouviu um procurador, Magalhães Menezes, afirmar não se lembrar de ter assinado um despacho onde era dito que a menina inglesa poderia ter sido vítima de um acidente e posterior ocultação de cadáver. Ouviu depois um inspector da PJ queixar-se de que, ainda hoje, não se sabe "quem são os McCann", pois quando a PJ pediu informações detalhadas a Inglaterra sobre o casal e amigos - para seguirem a pista de rapto como mandam as regras - recebeu informações sobre nove pessoas... numa folha A4. Houve um outro inspector da PJ que garantiu que, mesmo com a publicação do livro "A Verdade da Mentira", não parou o fluxo de novas informações sobre o rapto. Garantiu ainda esse mesmo inspector que, face às evidências obtidas no caso Madeleine McCann, polícias ingleses desabafaram-lhe que já tinham prendido suspeitos com menos indícios. E, por fim, a juíza Maria Gabriela teve um alto responsável da investigação ao banditismo a dizer-lhe que, por vezes, a PJ sabe muito bem o que se passou, mas faltam provas para fazer uma detenção. A sessão continua hoje.
Arrisco dizer que o ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral, como benfiquista ferrenho que é, deverá estar a ver o jogo do Benfica contra o Everton que, neste momento, está a dar na televisão. Contudo, não consigo imaginar o nível do sentimento de injustiça que deverá sentir cada vez que no estádio inglês passa a mensagem publicitária do endereço electrónico "www.findmadeleine.com". Gonçalo Amaral, impedido de falar em defesa própria depois de ter escrito um livro onde cometeu o "crime" de explicar e fundamentar as suas convicções enquanto investigador, deverá ser a pessoa que mais interesse tem em todo o mundo em realmente encontrar Madeleine e trazer alguma luz ao caso...
Investigação inglesa a Sócrates coincidiu com o auge do caso McCann e negociações do Tratado de Lisboa
Interrogatório a Charles Smith pelos investigadores ingleses ocorreu oito dias após encontro de José Sócrates com Gordon Brown onde se falou do Tratado de Lisboa e do caso McCann
A carta rogatória inglesa do Departamento de Investigação de Fraudes Graves (Serious Fraud Office - SFO), onde são mencionados os alegados encontros entre José Sócrates e os responsáveis do Freeport da Smith&Pedro, revela que o interrogatório à testemunha inglesa Charles Smith, em Inglaterra, a 17 de Julho de 2007, coincidiu com o auge da investigação do caso McCann em Portugal e as negociações do Tratado de Lisboa. O caso Freeport fora uma questão abordada pela primeira vez na imprensa portuguesa durante a campanha eleitoral para as eleições antecipadas de Fevereiro de 2005. O semanário "Independente" publicou a primeira notícia na edição de 11 de Fevereiro de 2005 com o título "PJ investiga decisão de Sócrates", aludindo ao processo de Março de 2002 do licenciamento do outlet de Alcochete.
O semanário voltaria ao tema na semana seguinte, 18 de Fevereiro, com o título "Indesmentível", mostrando a cópia de um alegado documento interno de suspeitos da PJ onde figurava o nome de José Sócrates.
O caso, contudo, não prejudicou a imagem do então candidato a primeiro-ministro que, dois dias depois, conquistou a primeira maioria absoluta do partido fundado por Mário Soares, em 1973, na Alemanha. De acordo com a carta inglesa agora tornada pública, ficou-se a saber que um DVD onde o intermediário inglês, Charles Smith, confessava ter dado dinheiro ao ministro do Ambiente de 2002, José Sócrates, e que a procuradora Cândida Almeida confessou em entrevista na RTP que nem sequer queria ouvi-lo - por não o considerar prova legal - foi gravado a 3 de Março de 2006, cerca de um ano depois da história ter sido tornada pública em Portugal. Nessa data, faltavam apenas três dias para a tomada de posse de Cavaco Silva como Presidente da República e o ambiente entre Belém e S. Bento não previa grandes nuvens de discórdia. O DVD foi gravado sem conhecimento de Charles Smith, mas este último, ainda de acordo com as datas apontadas pela carta do SFO, só foi interrogado formalmente em Londres a 17 de Julho de 2007, ou seja, dois anos após a primeira notícia de "O Independente" e um ano após a gravação do DVD. Apesar das aparentes negações de Charles Smith, é evidente que o gabinete de investigação inglês - que depende directamente do primeiro-ministro britânico - achou que podia concentrar energias numa investigação ao então primeiro-ministro português. E é aqui que as atenções político/jurídicas se complicam. No dia 17 de Julho de 2007 as relações entre Portugal e Inglaterra eram tudo menos pacíficas. A Imprensa portuguesa e inglesa partilhavam de um interesse comum: o caso do desaparecimento da menina inglesa na Praia da Luz, Madeleine McCann, que se arrastava desde 3 de Maio. Gordon Brown substituíra o primeiro-ministro Tony Blair a 27 de Junho e, oito dias dias antes do interrogatório a Charles Smith nas instalações do SFO, a 9 de Julho, José Sócrates encontrou-se com Gordon Brown em Londres na residência oficial do primeiro-ministro britânico, o número 10 de Downing Street.
A conversa entre ambos abordou a Presidência portuguesa da União Europeia - iniciada a 1 de Julho - e a assinatura do Tratado de Lisboa, o grande objectivo da nossa presidência. Para Sócrates era importante garantir a assinatura de Brown, mas para este último era também importante resolver o caso Madeleine McCann que, recorde-se, contava com o apoio pessoal e institucional do novo primeiro-ministro britânico que até disponibilizara um importante assessor de Imprensa, Clarence Mitchell, para acompanhar o casal McCann no Algarve. Não se sabe até que ponto Gordon Brown terá sido informado pelo seu SFO - ou até pelos serviços secretos de Sua Majestade -, quanto às suspeitas que pairavam sobre o nosso primeiro-ministro. E apenas se pode especular até que ponto tais informações poderão ou não ter servido de "moeda de troca" nas negociações políticas e judiciais entre Portugal e Inglaterra. O certo é que, duas semanas depois do interrogatório a Charles Smith pelo SFO, a vida dos McCann em Portugal tornava-se mais dífícil: os cães enviados de Inglaterra detectavam vestígios de sangue no apartamento na Praia da Luz de onde desaparecera Madeleine McCann e também odor a cadáver nas roupas da mãe da menina. Os McCann acabariam por ser declarados arguidos no início de Setembro de 2007 e, a 9 de Setembro, abandonavam Portugal. Quando parecia que a investigação judicial em Portugal contra o casal inglês iria conduzir a uma acusação formal, eis que, a 2 de Outubro de 2007, foi afastado o coordenador do caso, Gonçalo Amaral. O afastamento do homem que sempre desconfiara do envolvimento do casal McCann no desaparecimento da filha, ocorreu no mesmo dia em que Gordon Brown anunciava a Sócrates que aceitaria assinar o Tratado de Lisboa.
Sobre a coincidência da sua demissão e a aceitação de Gordon Brown em assinar o Tratado de Lisboa, escreveu Gonçalo Amaral no seu livro "A Verdade da Mentira": "No fundo, era o desfecho de uma campanha de difamação do caso Madeleine, orquestrada e desenvolvida por meios de comunicação social britânicos, quase a partir do momento em que se iniciaram as investigações. A estratégia era simples, ataca-se a investigação, colocando-se em causa os seus operacionais ao mesmo tempo que se considera Portugal um país do terceiro mundo, com um sistema judicial e policial completamente ultrapassado devido aos seus métodos quase da idade média. Do Reino Unido chegavam outro tipo de notícias. O primeiro-ministro britânico teria telefonado ao Prior Stuart, responsável da polícia de Leicestershire, perguntando-lhe se confirmava a demissão do coordenador operacional da investigação. Desconhecemos a razão de tal interesse em tão humilde funcionário público português, por parte do primeiro-ministro inglês. Nem queremos acreditar no que correu nos bastidores do Tratado de Lisboa sobre a necessidade de confirmação da demissão do coordenador operacional da investigação antes de se dispor a assinar o dito tratado. Boatos, decerto, e nada mais". A 19 de Outubro, dias depois do afastamento de Gonçalo Amaral - que na prática "matava" a investigação aos McCann - Sócrates festejou com os principais líderes europeus o acordo final para a assinatura do Tratado de Lisboa (que viria a ser formalmente assinado a 13 de Dezembro). Foi notória a celebração com Gordon Brown, enquanto o Ministério Público português se revelara dócil para com cidadãos ingleses e a PJ aceitara cair sobre a espada.
Os outros financiamentos secretos ao PS
Os financiamentos secretos ao PS são já um tema antigo.
A 3 de Março de 1975, nove dias antes do golpe do 11 de Março de 1975 que provocaria as nacionalizações e o Verão Quente - que culminaria com o 25 de Novembro - já o vespertino "A Capital" dava conta "um pesado apoio financeiro" da então República Federal da Alemanha e Estados Unidos destinados "sobretudo à ala de direita do partido de Mário Soares". Ainda de acordo com o artigo de "A Capital", o homem que iria receber o dinheiro vindo do estrangeiro seria o então secretário de Estado das Finanças, Vítor Constâncio, actual governador do Banco de Portugal. O objectivo destes apoios visavam sobretudo impedir que o PS algum dia viesse a coligar-se com o PCP para formar governo em Portugal. Algo que, até hoje nunca aconteceu - e é ainda um dogma da actual democracia, bastando para tal recordar que o ex-secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, quando prestou declarações no DIAP, em 2003, aquando interrogatório no âmbito do processo da Casa Pia, afirmou que se sentia atacado por ter defendido uma aproximação do PS à esquerda. Uma outra notícia polémica envolvendo dinheiros obscuros para o PS foi divulgada em Maio de 1994, quando se soube que o ex-Presidente da Venezuela, Carlos Andréz Perez, confessou que uma "conta secreta" do governo da Venezuela servira igualmente para ajudar o PS de Mário Soares pouco depois da Revolução dos Cravos.
(Jornal de Notícias, 22 de Maio de 1994)
Outras fontes de rendimento secreto e ilegal para o PS foram ainda referenciadas na antiga colónia chinesa de Macau. O caso nunca foi comprovado jornalisticamente, mas foi abordado num romance de ficção da autoria do jornalista João Paulo Menezes intitulado "A Árvore das Patacas". João Paulo Menezes, em entrevista na altura do lançamento do livro, afirmou: "A partir de uma certa altura (quando percebi que não conseguiria investigar jornalisticamente mais), desisti de saber a verdade. Afinal, estamos a falar de um romance! Se calhar, algumas das coisas que apresento como ficção até aconteceram…". Se calhar, se calhar, um dia ainda haverá um outro romance intitulado: "A Árvore das Patacas Mudou-se para Alcochete".
Daqui a pouco vou para o Porto e, no domingo, estarei em Braga, pelas 17 horas, a apresentar o livro do João e do Rui. Por isso, não tenho muito mais tempo para comentar umas coisitas que descobri. Mas, deixo-vos um conselho: vejam as datas desta carta e verifiquem a agenda pública do nosso primeiro-ministro e quais os temas que dominavam a actualidade nacional e... inglesa. Para já, mais não digo... Bom fim-de-semana!
Isto do domínio dos ingleses sobre os portugueses é coisa antiga. Muito antiga mesmo e faz parte da nossa História. Para que percebam o que se passa, diga-se que começou com o Tratado Anglo-Português de 1373, que evoluiu para o Tratado de Windsor (1386). Tivemos ainda o duvidoso Tratado de Methuen (1703) e o desastre da Convenção de Sintra (1808) que permitiu a "retirada das tropas francesas, embarcadas em navios ingleses, transportando as suas armas, bagagens e o produto dos saques efectuados em Portugal”. Contudo, quem topou os ingleses foram Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, que através do livro “O Mistério da Estrada de Sintra” traçaram vários retratos sobre os colonizadores ingleses, como esta imagem ácida:
“Que transformação fecunda fez a Inglaterra à Índia? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, numa coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na Índia, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores ingleses? A tradução da Índia, poema misterioso, na prosa mercantil do Morning Post. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça índia, mãe do ideal, como cães irlandeses; fazem navegar no divino Ganges paquetes a três xelins por cabeça; fazem beber às bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do cricket; abrem squares a gás na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, destronam antigos reis, misteriosos, e quase de marfim, e substituem-nos por sujeitos de suíças, crivados de dívidas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da Índia! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef habitada por piratas de colarinhos altos, odres de cerveja!".
E deu ainda para estas cenas do filme...
Aliás, se há coisa que a malta cá do burgo gosta mesmo é de uma boa marcha contra os Bretões (que depois no hino mudou para “canhões”). Mas, as lutas ficaram-se mais pelas vãs glórias nos jogos da bola. Politicamente, parece que os ingleses continuam a levar a melhor. Quem os afrontou mais recentemente foi Gonçalo Amaral, o ex-coordenador da PJ no caso Madeleine McCann, afastado do processo no mesmo dia em que Gordon Brown aceitou assinar o Tratado de Lisboa. O ex-membro da PJ criticou a passividade nacional face aos ingleses quando, no seu livro “A Verdade da Mentira”, lembrou a carta do Marquês de Pombal a Lord Chatham, em 1759: “(...) eu sei que o vosso gabinete tem tomado um império sobre o nosso, mas sei também que já é tempo de acabar. Se os meus predecessores tiveram a fraqueza de vos conceder tudo quanto queríeis, eu nunca vos concederei senão o que devo. É esta a minha ultima resolução; regulae-vos por ella (...)”.
Somos agora obrigados a constatar que não temos um primeiro-ministro que possa dizer o mesmo aos ingleses...
“Há ainda muito para descobrir dentro do processo”, disse-me há dias o ex-coordenador da PJ, Gonçalo Amaral, quando, juntamente com o João Vasco Almeida, o entrevistei para a “Focus” – ver edição de amanhã, dia 13. O autor do livro “Maddie – A Verdade da Mentira” (140 mil exemplares já vendidos e com traduções previstas para Espanha e Alemanha) deu-nos aquela que terá sido a primeira entrevista já com o caso fora da alçada do segredo de justiça. Assim, o ex-coordenador aceitou olhar para o computador onde tínhamos o DVD com o processo aberto e apontou-nos com o dedo o momento onde está registada a contradição fatal dos testemunhos de alguns dos principais intervenientes da noite em que foi dado o alerta do desaparecimento da menina inglesa na Praia da Luz: “Nunca qualquer órgão de Comunicação Social fez um cruzamento desses depoimentos”, desabafou-nos então Gonçalo Amaral. Está tudo no primeiro volume dos 17, que perfazem 4713 páginas. Foi a contradição entre o depoimento inicial de Janne Tanner, gerente de marketing, e o do seu companheiro, o médico Russel O’Brian, que levantou as suspeitas de que a gerente de marketing poderia estar a mentir quando disse ter visto um alegado raptor com uma criança ao colo. Tudo isto logo no dia 4 de Maio, nas primeiras horas após o desaparecimento. Russel O’Brian, médico e marido de Jane Tanner, trabalhou seis meses directamente com o pai de Madeleine, Gerry McCann. Foram pais sensivelmente na mesma altura, sendo que a filha mais velha de Russel tem apenas um mês a mais do que Madeleine. Ao cruzarem os testemunhos de Gerry, Jane e Russel, os investigadores da PJ perceberam que “a história estava mal contada”. De acordo com o depoimento testemunhal de Gerry McCann, registado nas instalações da PJ às 11h15 do dia 4 de Maio de 2007, catorze horas após os factos ocorridos, verifica-se que o pai de Madeleine ausentou-se do restaurante “Tapas” cerca de meia-hora depois de ter chegado àquele local. Antes de si, já um outro membro do grupo de veraneantes, Matthew Oldfield, fora ver as janelas e confirmara que as mesmas estavam fechadas e que todas as crianças do grupo deveriam estar a dormir. Quando Matthew regressou ao seio do grupo, comunicou isso aos presentes. Nesse mesmo momento, Gerry levantou-se e foi fazer uma nova verificação. Seriam as 21h05. O pai de Madeleine entrou no apartamento munido da respectiva chave, dirigiu-se ao quarto dos filhos, verificou que os gémeos estavam bem, assim como a filha mais velha. Gerry foi então ao WC, onde, disse, manteve-se alguns instantes. Saiu e cruzou-se com um amigo britânico, Jez, que conhecera nas férias e com o qual costumava jogar ténis. O amigo andava a passear o seu bebé, pois este estava com dificuldades em dormir. Estiveram ambos numa pequena conversa até que Gerry regressou ao restaurante. O depoimento da testemunha Jane Tanner, recolhido às 11h30 de sexta-feira, 4 de Maio, regista o facto de esta ter-se ausentado do restaurante pelas 21h10, cerca de cinco minutos depois de Gerry. Jane deslocou-se ao seu apartamento para verificar se estava tudo bem com as filhas. Nessa altura, a caminho do apartamento, garante ter-se cruzado com Gerry no momento em que este falava com o amigo do ténis. À PJ frisou que passou por ambos sabendo que Gerry já tinha estado no apartamento a ver os filhos. A contradição surge depois quando se cruza este depoimento com o do marido, Russel O’Brian. Este último, só falou com a PJ na noite de 4 de Maio, às 21h50, quase 24 horas após os factos. Russel confirmou que Gerry e Jane saíram quase em simultâneo. No entanto, disse que a mulher deve ter voltado primeiro porque teria encontrado Gerry a falar com o amigo do ténis. Aqui nasceu uma dúvida muito importante para que se percebesse o momento-chave do desaparecimento de Madeleine McCann. As perguntas assaltaram a mente dos investigadores da PJ: Afinal, Jane Tanner viu Gerry a falar com amigo quando ela regressva do apartamento, como sugeriu o marido, ou à ida? Afinal, se Gerry e Jane saíram quase em simultâneo, com apenas cinco minutos de intervalo entre si, então como foi possível que Gerry tivesse ido ao quarto ver os filhos, fosse depois ao WC - onde se demorou algum tempo -, voltasse ao restaurante e parasse ainda para falar com o amigo do ténis em apenas cinco minutos, ao ponto de Jane garantir que, quando passou por ambos, a caminho do seu apartamento, Gerry já estava de regresso? Será que Gerry, afinal, conversava com Jez quando ainda ia a caminho do seu apartamento? E, como explicar ainda o facto de que nem Gerry nem o amigo – interrogado mais tarde em Inglaterra – se recordam alguma vez de ter visto Jane, apesar de esta ter afirmado que quando passou por eles estavam todos no mesmo lado do passeio? Toda esta contradição é relevante para o caso quando se constata que, de acordo com o testemunho de Jane Tanner – comprovado com um esquema por si elaborado sobre estes movimentos -, ela afirma que foi depois de ter passado por Gerry e Jez, quando caminhava em direcção ao seu apartamento, que viu, uns metros mais acima, na esquina, um indivíduo com uma criança ao colo. Nunca no regresso. Seria esse testemunho a base que sustenta toda a tese de rapto que ainda hoje permanece na mente de muita gente. E o suspeito seguia no sentido da vivenda de Robert Murat. Foi, portanto, o testemunho de Jane, apesar de contraditório, que passou a sustentar toda a tese do rapto que apontava para Robert Murat. A primeira descrição desta amiga do casal apontava para um homem na casa dos 35 e 40 anos, magro, 1,70m de altura, cabelo muito escuro, espesso, curto mas longo até ao pescoço. Como só o vira de costas, não conseguiu dar detalhes do rosto. Mas, isso não a impediu de mais trade garantir que vira, de facto, Robert Murat. Jane contou ainda que regressou ao restaurante após ter visto os seus filhos e garantiu à PJ que Gerry já não estava na rua a falar com o amigo, pois foi encontrá-lo no “Taps” na companhia da mulher, Kate. Passado cerca de 15 a 20 minutos, foi a vez do marido de Jane, Russel O’Brian, ir ver as filhas, na companhia de Matthew Oldfield. Este último terá depois passado pelo apartamento dos McCann, mas não viu se Madeleine estava ou não na cama, pois admite que apenas estava interessado em ouvir algum barulho vindo do seu interior. Russel, no entanto, terá ficado no seu quarto a cuidar da filha, pelo que Jane comeu rapidamente e foi ter com o marido ao quarto para o render. Russel regressou ao restaurante e foi nesse momento que Kate se levantou para ir verificar o sono do três filhos. Seriam as 22h00 ou 22h15, e estava Jane Tanner no seu apartamento quando ouviu Kate McCann e uma outra amiga do grupo, Fiona Payne, a gritarem que Madeleine tinha desaparecido. A partir dali, seria a confusão total que nos levou a uma situação que se arrastou durante meses e, finalmente, terminou por enquanto com o caso a ser arquivado sem que alguma vez tivesse aparecido um corpo ou um raptor. Se alguém raptou ou ocultou o cadáver de Madeleine McCann, isso foi, até ao momento, o crime perfeito.
O actual director do semanário "Expresso" assina um editorial nesta última edição onde tece considerações pouco simpáticas em relação ao ex-coordenador da PJ, Gonçalo Amaral...
"Pouco simpáticas" é uma maneira de colocar a situação, quando Henrique Monteiro, na realidade, foi autor de considerações que surpreendem pela dureza e, sobretudo, por muito daquilo que revela sobre quem as proferiu. Contabilize-se então:
1 - Apesar de trabalhar num semanário que é propriedade de um membro da comissão permanente do grupo Bilderberg, ele ainda só sabe escrever "Bildberg"...
2 - As tais "teorias conspirativas" que Henrique Monteiro alude não existem apenas na Internet. Já foram analisadas em jornais e livros, mas são permanentemente silenciadas em publicações pertencentes a membros desses grupos como é caso do semanário dirigido por Henrique Monteiro.
3 - Gonçalo Amaral não pediu para ser "herói nacional", nem "detentor da verdade". O ex-coordenador da PJ conta no livro uma verdade sobre algo que conheceu por dentro. É um caso policial que Henrique Monteiro não pode conhecer, pois não é essa a sua profissão. A profissão de Henrique Monteiro é certificar-se de que certas verdades susceptíveis de estimular a mente de pessoas menos habituadas a elas - o vulgo leitor - não cheguem à praça pública.
4 - Quanto à "convicção" de Gonçalo Amaral, a mesma baseia-se em indícios que são do conhecimento geral e oficial do público desde que foi divulgado o relatório da PJ. Para mim, que tanto faz, os indícios mais gritantes são as indicações dadas pelos cães, os tais que nunca antes falharam e que voltaram a acertar em casos posteriores ao da Praia da Luz. É claro que há quem não queira ver isso como uma evidência que, somada a outros indícios (testemunhos contraditórios dos amigos, ausência de provas em casa de Murat, possível avistamento do pai de Madeleine a deslocar-se em direcção da praia com a filha ao colo à hora dos factos) indicavam um rumo de investigação que, frise-se, foi interrompido de forma abrupta a 2 de Outubro de 2007 - dia em que Gordon Brown telefonou a Stuart Prior, oficial de ligação entre a polícia inglesa e portuguesa, a perguntar se era mesmo verdade que Gonçalo Amaral já tinha sido afastado da investigação.
5 - Desde o afastamento de Gonçalo Amaral, pouco ou nada se fez no sentido de encontrar o corpo de Madeleine McCann, quer viva ou morta. Não há nenhuma investigação a possíveis raptores, pois o mais importante era encerrar um caso bastante pantanoso. E disso não fala Henrique Monteiro.
6 - Henrique Monteiro pede provas que sustentem a tese de Gonçalo Amaral. A Henrique Monteiro, já ninguém precisa de pedir mais provas.
Com a demissão, hoje, do director da PJ, Alípio Ribeiro, o ministro da Justiça escolheu um homem de Coimbra com Santa Comba Dão no curriculum, Almeida Rodrigues - dito assim até parecia que estávamos de novo em 1928. Para mim, que tanto faz, foi dado mais um passo para a solução final do enigma da Praia da Luz. Está tudo a seguir um guião escrito há um ano. A PJ, recorde-se, manietada pelos poderes políticos, nunca teve autorização para incomodar os McCann. Isso foi por demais notório aquando da demissão do inspector chefe Gonçalo Amaral, em Outubro, que veio acompanhada pelo anúncio de Gordon Brown de que aceitava assinar o Tratado de Lisboa. Foi a nossa moeda de troca: deixaríamos os McCann escapar à justiça e tínhamos a preciosa assinatura britânica na nova constituição europeia. Parece redutor e leviano dizer isto assim, com esta simplicidade, quando é suposto os governantes pensarem em valores bem mais elevados. Mas, garanto-vos, eles também são humanos com falhas. Contudo, têm algo que falta a muitos de nós: poder. Almeida Rodrigues, o homem que liderou a detenção do "serial killer" de Santa Comba Dão, com certeza que não vai apanhar com as culpas depois do caso McCann acabar finalmente por ser arquivado. Se os McCann mataram mesmo a filha por acidente e depois esconderam o corpo, não há justiça humana que os atinja. Está visto. As contas que eles têm de prestar é com o Deus em que acreditam e esse, se bem se lembram das aulas de catequese, tudo perdoa. Os McCann, muito provavelmente, nem sequer acreditam que a filha lhes morreu nas mãos porque agora estão a expiar a culpa através da missão divina que lhes foi entregue: a luta em prol das crianças desaparecidas. Há dias, um amigo chamou-me a atenção para o primeiro momento em que os McCann foram publicamente confrontados com a possibilidade de estarem envolvidos directamente no destino da filha. Foi a 6 de Junho, um mês e três dias depois do desaparecimento de Madeleine, durante uma conferência de Imprensa, em Berlim. Disse-me esse amigo: "Repara na linguagem corporal dos pais à medida que a pergunta da jornalista se desenvolve: Ao princípio, a mãe, Kate, pisca os olhos de forma normal. Quando percebe o sentido da questão, esse piscar pára por uns momentos. É natural que assim seja. O pai também mexe a mão, de forma nervosa, para se coçar debaixo do casaco. Contudo, é ele, Gerry, que se preparava para responder, mas Kate antecipou-se e, sem consultar o marido ou esperar por um sinal dele, avançou para o microfone que até estava desligado. Gerry não teve tempo de iniciar a resposta e ficou mesmo de boca aberta durante aquele instante em que olhava para mulher. Nota-se que fica preocupado, mas rapidamente percebe que tem de recuperar a compostura e mantém-se hirto enquanto a mãe responde que são poucos os que pensam que eles são culpados garante que são bons pais". E conclui esse meu amigo: "A linguagem corporal indicia que não terão contado à polícia tudo o que sabem e que ainda escondem informações".
Acrescentou ainda o meu amigo: "Há boas hipóteses de ter sido esta a conferência de Imprensa que Gonçalo Amaral estava a assistir durante o tal almoço bem regado e de duas horas que, dois dias depois, foi denunciado na Imprensa britânica".
Um artigo sobre o caso McCann, publicado no jornal britânico "Mail on Sunday", no passado dia 20, o autor, David Rose, recorda Rachel Charles, uma menina inglesa de nove anos, morta em 1990, no Algarve...
O caso levou depois à condenação de um cidadão britânico, Michael Cook, mas houve acusações de tortura por parte da polícia portuguesa:
"It is claimed that Cook was hung from an upstairs window by his feet, that his feet were beaten until he could not stand, that he was tied to a chair and beaten, that he was deprived of sleep and that a revolver was forced into his mouth and the trigger pulled in a mock execution".
Este caso, recorde-se, provocou uma série de perguntas no Parlamento Britânico, em 1992.
David Rose abordou ainda o caso Joana e, mais uma vez, escreveu sobre a tortura:
"They threw her to the ground, kicked her and hit her with a cardboard tube. They put a plastic bag over her head, made her kneel on glass ashtrays . .. The accused believed that by causing her intense suffering, they would force her to tell them how she killed her child and where she put the body".
Tudo para concluir que Kate McCann, afinal, até chorava no início do caso...
"According to the Portuguese Press, one factor that influenced his desire to make the McCanns arguidos was Kate's supposedly 'cold' demeanour in dealing with police and on television. In fact, as the photo published on Section 2's Page 1 today makes clear, the first known image taken of Kate on the morning after Madeleine's disappearance, she was distraught".