Blogue do jornalista Frederico Duarte Carvalho, com coisas que tanto faz que se saibam porque em nada servem para o que sabemos. e-mail: paramimtantofaz@gmail.com
20130627
Estamos Unidos à América...
O Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, garantiu que não vai dar ordens de descolagem a aviões a jacto para prender um "hacker" de 29 anos, que já foi funcionário da CIA. Entretanto, o cidadão português José Esteves perguntou ao representante de Obama em Lisboa, se os EUA podem esclarecer o seu próprio envolvimento e o papel do cidadão americano, Frank Sturgis, no alegado plano de derrube de um avião onde seguiam a bordo, entre outros, o primeiro-ministro de Portugal, Sá Carneiro e o ministro da Defesa, Amaro da Costa. Nisso, estamos unidos à América.
Obama a dizer que não iria "scrambling jets to get a 29-year-old hacker"...
José Esteves a dizer que “os americanos têm de dizer o que sabem sobre a morte de Sá Carneiro”.
Em Novembro de 2002, José Esteves converteu-se ao Islão em cerimónia levada a cabo pelo Sheikh David Munir, na Mesquita de Lisboa. Passou então a ter o nome de Youssouf Bin Salim, tendo optado pela linha salafista.
Em 1995, a ex-secretária do primeiro-ministro Sá Carneiro, Conceição Monteiro, deu uma entrevista à TVI onde explicou a sua versão sobre Camarate. Afirmou que sempre pensou que, a ter havido atentado, este seria contra o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e não contra Sá Carneiro. Segundo a ex-secretária, a decisão de Sá Carneiro de voar no Cessna foi tomada em cima da hora, após uma conversa com Adelino Amaro da Costa. Este último é que estaria previsto, desde o início, para viajar naquele avião pelo que não parecia possível a Conceição Monteiro que se pudesse planear, em tão pouco tempo, um atentado contra o primeiro-ministro. Questionada sobre a existência de um segundo avião que teria vindo do Porto para transportar o primeiro-ministro para o comício, Conceição Monteiro garantiu que esse aparelho nunca chegou a Lisboa, pois ela própria telefonou para o Porto a cancelar o voo após a combinação entre Sá Carneiro e Amaro da Costa. Conceição Monteiro, ao mostrar-se convicta do que disse e ao não explicitar as declarações que prestara à Polícia Judiciária, acabou assim por criar na Opinião Pública a ideia de que Sá Carneiro embarcou à última hora no Cessna fatídico, prescindindo ainda dos bilhetes que estavam reservados para a TAP. No entanto, a ida para o Porto estava prevista desde o dia 1, três dias antes, sendo que a viagem sempre esteve prevista para ser feita a bordo de um avião privado, daí o facto de ter sido feito o pedido de um avião no Porto, o que ficou decidido no dia anterior, 3 de Dezembro. As reservas no voo TAP só deveriam ser usadas caso fizesse mau tempo e o avião privado não tivesse autorização de voo. Ao cancelar o avião do Porto, Conceição Monteiro selou o destino de Sá Carneiro e esclareça-se que, de facto, esse avião chegou a vir do Porto e estava estacionado no aeroporto de Lisboa ao lado do Cessna que viria a cair. Contudo, o piloto foi dispensado às 18 horas quando chegou ao aeroporto e, deste modo, Sá Carneiro, mesmo que quisesse, não teria podia viajar nesse segundo aparelho. Ainda hoje muitas pessoas estão convencidas de que não houve atentado contra Sá Carneiro porque não havia tempo para o preparar.
Elza Oliveira foi mulher de Fernando Farinha Simões desde 1975 e assistiu por perto às movimentações do marido, juntamente com as de José Esteves, antes e depois do atentado de Camarate - que, a 4 de Dezembro de 1980, provocou a morte do primeiro-ministro Sá Carneiro e ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa. Em 1995, Elza esteve na Assembleia da República para dar o seu testemunho. Agora, acrescenta dados novos que se juntam às declarações de José Esteves e Fernando Farinha Simões, pelo que espera pela constituição da 10ª Comissão de Inquérito Parlamentar de Camarate para as poder assumir perante os deputados da Assembleia da República.
Duas semanas após ter colocado neste blogue o vídeo de José Esteves com a confissão sobre Camarate que Fernando Farinha Simões lhe entregou em Vale de Judeus, o caso é hoje notícia: O deputado Ribeiro e Castro defende uma nova comissão de inquérito sobre Camarate, numa altura em que surge a alegada confissão de um homem que diz ter organizado o atentado em que morreu o então primeiro-ministro, Sá Carneiro. Acho interessante o uso do termo "alegada confissão", mas compreendo, pois trata-se de um indíviduo preso e a confissão surge escrita na Internet, o que dificulta a confirmação da veracidade da mesma. Mas, isso pode agora ser facilmente resolvido pela maioria dos jornalistas com uma entrevista a Fernando Farinha Simões em Vale de Judeus. Creio que não seria difícil de conseguir a autorização dos serviços prisionais. Existe neste artigo, contudo, uma pequena imprecisão, pois informa que houve uma vítima em terra. Ora, isso chegou de facto a ser noticiado na altura, no entanto seria corrigido. As vítimas foram sete, todos os ocupantes do avião, e não houve nenhuma vítima em terra. Agora, esperamos que a 10ª comissão de Camarate possa esclarecer o que há de verdade ou desinformação nesta "alegada confissão".
Daqui a dois anos o caso Camarate cumprirá 30 anos. Ao cabo de oito comissões de inquérito parlamentares, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, ex-líder do CDS e primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa, Freitas do Amaral, que lançou recentemente o segundo volume das suas memórias políticas e esteve ontem a ser entrevistado na RTP, "desafia Assembleia da República a retomar inquérito a Camarate". Segundo Freitas, há três grandes questões que não ficaram claras. São elas "o relatório dos peritos internacionais sobre os equipamentos técnicos do avião e explosivos, a investigação da venda de armas ao Iraque, em 1979-80, e o Fundo de Defesa Militar". O ex-ministro sempre garantiu que recebeu - e encaminhou imeditamente para a PJ - um telegrama diplomático da nossa embaixada de Londres que relatava uma informação transmitida via Scotland Yard pouco depois do sucedido a 4 de Dezembro de 1980, apontando para a presença de um indivíduo suspeito - Lee Rodrigues - no aeroporto de Lisboa no dia fatídico. Descobriu mais tarde, em 1995, que esse telegrama não figurava no processo, assim como desapareceram todas as cópias do mesmo. Sobre a oportunidade destas últimas declarações, queixou-se: "Só agora é que tive tempo de acabar o livro (...) As minhas declarações nunca foram aproveitadas pela comunicação social". Se há pessoa que supostamente sabe o que se passou em Camarate, só poderá ser mesmo Freitas do Amaral. Ele era o líder do partido a que pertencia o ministro da Defesa que andava a investigar o negócio ilegal da venda de armas para o Irão durante a guerra contra o Iraque. Foi primeiro-ministro interino logo depois da queda do avião que causara a morte ao primeiro-ministro e ministro da Defesa. Até ficaria extremamente entusiasmado com a ideia de que Freitas do Amaral vai publicar um livro sobre Camarate se não se desse o caso de eu já ter escrito que:
Daqui a dois anos, em 2010, conto publicar um livro sobre a investigação jornalística que há anos levo a cabo a propósito de Camarate e que irá explicar, de uma vez por todos, o que se passou e quem sabe o quê. Na realidade, cá entre nós, acho que até vou ajudar Feitas do Amaral a perceber algumas coisas...
Não sei ainda o que aconteceu em casa do José Esteves, nem em que circunstâncias se deu a explosão da botija de gás que o atirou para a unidade de queimados do hospital de S. José. Sei que o estado dele é reservado e está sedado, incapaz de falar sobre o assunto. Sei ainda - porque informei-me junto de quem sabe mais do que eu - que a botija de gás fazia parte de uma série de objectos que estavam na antiga ervanária onde ele trabalhava. Uma ervanária que, no passado, sofrera um incêndio. Sei igualmente que o José Esteves se queixava da perseguição que certa facção da PJ lhe fazia e, agora, acontece esta explosão. Mesmo que tenha sido um acidente, acho que fica mal que outros que sabem menos do que eu entrem no campo da ironia como nesta crónica. É que dentro da mesma linha de pensamento, até seria capaz de dizer que também estou preocupado com o futuro de Portugal quando há jornalistas que não fazem bem o seu trabalho...