Cavaco Silva, virou-se para o banqueiro espanhol Mario Conde e disse-lhe que não. O governo português não iria autorizar a venda do banco Totta&Açores a um cidadão do país vizinho, pois, justificou, era "uma jóia de Portugal, uma peça-chave do sistema financeiro português". Portanto, não iria ser privatizado para cair em mãos espanholas, acrescentou o então primeiro-ministro português. Mario Conde não desistiu perante o argumento: "Compreendo. Para nós, também é uma jóia e foi por isso que o comprámos. Sabemos que é português, mas trata-se do Mercado Único...". A conversa teve lugar a 20 de Julho de 1993, em S. Bento. Para além de Cavaco e Conde, havia uma terceira pessoa presente, mas o banqueiro não a sabe identificar. Contudo, não seria alguém ligado às finanças, Banco de Portugal nem ministério da Economia. Cavaco deixara uma primeira sensação em Mário Conde: "Altivo, orgulhoso, distante, com soberbia". Para o primeiro-ministro português, pouco interessava o argumento de que Portugal estava num mercado financeiro sem fronteiras. Interrompeu o banqueiro espanhol e disse-lhe: "Olhe, uma coisa é falar do Mercado Único, outra é viver a política de cada dia. A mim, pagam-me os portugueses e vou fazer o que seja bom para Portugal". O banqueiro espanhol sentiu que revisitava a batalha de Aljubarrota. Um importante negócio financeiro não poderia avançar porque o primeiro-ministro de Portugal não queria espanhóis à frente de uma histórica instituição bancária portuguesa. Mario Conde ainda tentou explorar o clima de confronto entre Cavaco e o então Presidente da República Portuguesa, Mário Soares. Como tinha a informação de que o Presidente português era amigo do Rei de Espanha, o banqueiro fez as malas e foi pedir ajuda ao seu monarca, que estava a participar nas festas do "Jacobeo 93", em Santiago de Compostela. Mas, de pouco valeu essa intervenção real e presidencial, pois o primeiro-ministro português acabaria por criar uma disposição legal que destruiu definitivamente as ideias do banqueiro espanhol. E desabafa Mário Conde: "Os verdadeiros anti-europeístas são eles", esses políticos que dizem uma coisa em público e depois outra em privado. Sobretudo frases como aquela de "a mim, pagam-me os portugueses". E, afinal, ainda hoje continuamos a pagar-lhe. Viu-se isso com o BPN, não se viu, senhor Presidente da República?
A história que aqui conto é uma adaptação da versão mais longa e detalhada que o próprio Mario Conde revela na sua mais recente obra biográfica...

Etiquetas: Aníbal Cavaco Silva, BPN, Mario Conde