20030907

Outra vez em "Quando"

Em resposta a um post de Joel Neto decidi criar aqui um “Observatório do Quando”, ou seja, registar as reportagens em revistas que começam com a palavra “Quando”. Não é que seja errado o uso do “Quando” para iniciar um texto, contudo, quem escreve e faz disso a sua profissão sabe bem que, ao olhar para a página vazia, colocar ali um “Quando” a abrir o texto é a maneira mais prática de iniciar uma reportagem.
O “Quando” é óptimo: coloca-nos logo no centro da acção, leva-nos para o tempo exacto do momento escolhido, evita outras descrições mais atrapalhadas. Dali para a frente é só escrever. Por isso é fácil. Por isso é que salta à vista. E é por isso é que me esforço por não o usar, porque, no dia em que o usar, é porque saberei que não havia outra forma de começar a reportagem. Era ela que assim o pedia.
Serve esta introdução para explicar a quem só agora aqui chegou que, esta semana, em três revistas consultadas (escolhi revistas de informação, semanais ou mensais, porque são espaços onde a escrita deveria ser mais cuidada devido ao tempo de preparação e dedicação do jornalista que tem brio no texto que assina) existem realmente vários textos começados com o “Quando”:

1 - Visão: dois textos – página 45, num exclusivo Visão/Time, o jornalista Aparisim Gosh, começa o texto “Terror num altar” da seguinte maneira: “Quando a bomba rebentou...”
Pág. 72 – “Anatomia de um golpe”, texto sobre a Casa Pia assinado pelos jornalistas Paulo Renato e Tiago Fernandes, que começa assim: “Quando, na última sexta-feira, 29 de Agosto...”
Ainda sobre a Visão desta semana, não sei se os títulos poderiam contar para registo do “Observatório do Quando”. Se acham que também deveriam contar, então há ainda mais casos: pág. 13, Miguel Carvalho assina uma entrevista ao escritor Luis Sepúlveda intitulado “Quando Lennon venceu Lenin”. Pág. 21, pequeno texto não assinado (mas representativo da facilidade de arranjar títulos), “Quando o ar mata”, e, por fim, na pág. 86, num texto assinado por Rita Montez, o título é “Quando o saldo é patrão”, onde se fala sobre a crise económica e as agências de viagens.

2 – Grande Reportagem : O próprio director, Francisco José Viegas, na pág. 26, inicia assim o texto sobre a morte de Roberto Marinho: “Quando Nelson Rodrigues adoeceu...”.
Na pág. 48, Pedro Almeida Vieira, no pequeno texto sobre o engenheiro agrónomo Francisco Castro Rego, começa desta forma o texto “Um craque na floresta”: “Quando aos 24 anos...”.
Nota: A Grande Reportagem é uma revista cuidada. Bom papel e bons jornalistas, por isso é que quando há lá uma mínima falha (que nem sequer basta ser uma falha, mas apenas uma “curiosidade”), salta-nos logo à vista: Pág. 23, dois dos três textos (“O mistério das auto-estradas” e “Liga de super”), começam precisamente da mesma maneira e com uma "muleta" não menos desprestigiante quanto o "Quando": “Se há...”.

3 – Expresso: Depois de alguns exemplos anteriormente aqui referidos é sempre bom constatar que a revista "Única" não me pareceu ter nenhum caso de "Quando". Nem em títulos. Há lá um "Quando" num destaque, mas também não quero que depois digam que estou a exagerar. Agora, uma outra revista do Expresso, a "Actual", tem lá dois casos. O primeiro é na pág. 46, num texto assinado por João Lisboa que, na entrevista a Lloyd Cole, tem no "lead" o "Quando". E, na pág. 60, num texto sobre faróis, Nuno Crato também não deixou de começar um texto com o "Quando".

Saliente-se que nada tenho contra o uso do "Quando" e não quero criticar ninguém. O propósito deste "Observatório" é não ter propósito. Quem quiser continuar a usar o "Quando", está à vontade. Mas não o vulgarizemos.

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