20050312

O mistério dos apóstolos de Lisboa

Numa visita ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, reparei num quadro do pintor português Cristóvão de Figueiredo intitulado "Trânsito da Virgem", retratando a morte da mãe de Jesus, a Nossa Senhora.
A Nossa Senhora, Maria, morreu mais tarde após o sacrifício do filho na cruz. O local onde viveu os útimos dias fica na Turquia, perto de Ephesus.
No quadro, Maria está deitada numa cama e, à sua volta, estão os apóstolos que antes seguiam o filho.
É certo que estas pinturas são meramente simbólicas, daí que haja depois espaço para todas as criações artísticas e especulações de quem as contempla, como é já conhecido com o caso da "Última Ceia" de Leonardo da Vinci.
A revista "Sábado" desta semana ofereceu o primeiro exemplar de uma colecção dedicada aos grandes museus do mundo, sendo o primeiro volume dedicado a este museu de Lisboa.
O quadro que menciono aqui, para quem ainda não o viu ao vivo, está reproduzido nas páginas 148 e 149 deste volume.
Na página 150, porém, pode-se ler esta descrição do mesmo:

"Nesta obra do artista português, em actividade entre 1515 e 1543, vemos a Virgem no seu leito de morte, ao mesmo tempo que segura um círio entre as mãos, e é confortada por São João Evangelista, que se encontra junto dela na cabeceira da cama. A obra, que conta com a presença dos doze apóstolos, destaca as figuras de Santo André que agita um incensório, e de São Pedro, que preside à cerimónia, segurando um livro".

Sim leram bem: "conta com a presença de doze apóstolos"...
Sim, doze (12). Não é engano. São mesmo doze (12) à volta da Virgem...
Pergunto como podem estar presentes "doze apóstolos" quando Judas, aquele que traiu Jesus Cristo, enforcou-se pouco depois da crucificação?!
Ainda por cima, quem olha para o quadro não consegue ver onde está Judas, visto que não surge nenhuma figura com a habitual veste amarela que sempre identificou este apóstolo...
Quem é então esse décimo segundo elemento presente no leito de morte da Virgem?
É-nos dito ainda que São João Evangelista está junto da Virgem à cabeceira da cama. Isso é fácil de ver porque ele é o único que não tem barba e é a mais jovem figura de todos. Recorde-se que é esse apóstolo que no quadro da Leonardo da Vinci poderá ser a "sugestão" de Maria Madalena...
No meio dos apóstolos, ao pé da cama, está ainda uma figura de barba que se parece bastante com as representações que conhecemos de Jesus Cristo, sendo a sua barba menos branca que os demais presentes, e as suas roupas são encarnadas, como as roupas de João.
Será aquele o "verdadeiro" João, daí o facto de ter mais novo e estar identificado com uma barba menos branca do que a dos restantes companheiros?
Ou será aquele apóstolo Jesus, que teria "descido dos céus" para estar presente nos últimos momentos de vida da sua mãe?
Se é mesmo Jesus, então por que não está ele devidamente identificado e colocado num lugar com mais destaque?
Agora, para nos "irritar" ainda mais nestas constatações, convido-vos ainda a apreciar as pinturas de um outro artista português exposta no mesmo museu de Lisboa.
Gregório Lopes, da década de 1520, é o autor de um retábulo com várias cenas da vida da Virgem.
A última cena, obviamente, é a da morte. Porém, desta vez, já a história bate certo, visto que não são doze os apóstolos presentes, mas sim onze (11)...
Podem ver a reprodução da cena na página 116 do livro oferecido pela revista "Sábado" desta semana.
E lá está, a segurar as mãos da Virgem com o círio, o mesmo apóstolo jovem, com as suas roupas encarnadas.
Só que o "mistério" não se fica por aqui, uma vez que, na página seguinte, a 117, há uma descrição desta cena onde se lê o seguinte:

"Encostada a almofadões, a Virgem tem uma vela numa mão e a outra mão dada a Maria Madalena".

"Maria Madalena"?!
For favor, decidam-se!
Então aquela figura jovem que nos dois quadros segura a mão da Virgem com o círio, e está identificada pelas mesmas cores, afinal é Maria Madalena ou São João Evangelista?
Ainda na mesma página 117 é destacado o detalhe desta figura e, de uma forma inequívoca, informa-se:

"A imagem de Maria Madalena ocupa um lugar privilegiado nesta composição. Pintada com uma cabeleira loura encaracolada, inclina-se com uma fervorosa devoção para a mãe de Cristo. A humanidade do seu gesto, dando carinhosamente uma mão à Virgem e ajudando-a a segurar na vela com a outra, é um elemento de emotividade".
Não é preciso ir a Milão procurar o Graal.
Há muito que ele está neste nosso País, o "Porto do Graal".

2 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

DEGRACONIS

Meu Caro amigo,

Após a morte de Judas, foi este substituido por Matias. Daí grande número de pinturas apresentarem doze apóstolos. Esta subtsituição está referida nos próprios escritos biblicos. ( Ver Actos 1 )
Sem mais de momentos, cumprimentos.

Ps: Interesante nesse quadro é a romã desfeita. Se quiser posso adiantar-lhe algo sobre o que esta significa, que alías acho ser o aspecto mais interessnte desse quadro.

22 janeiro, 2008  
Blogger para mim disse...

Obrigado pelo comentário. de facto, Matia seria o 12 apóstolo. Mas no outro quadro já só estão 11 apóstolos... a outra dúvida é em relação a Maria Madalena... quanto à romã, penso ser o símbolo maçónico da fertilidade...

22 janeiro, 2008  

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