Para os meus leitores no Brasil: Queridos irmãos brasileiros, compartilho a dor que sentem com o trágico desaparecimento de Eduardo Campos, um político carismático e que resultou de um alegado acidente aéreo. Digo "alegado", pois vejo que no vossa imprensa já se começa a falar da possibilidade de
atentado. Quero então dizer-vos que o que aconteceu com Eduardo Campos tem semelhanças assustadoras com algo que também já aconteceu com um político português e que teve lugar há mais de 30 anos! Um avião Cessna caiu numa zona habitacional nos arredores de um aeroporto, causando a morte de todos os sete ocupantes. Isso teve lugar em plena campanha de eleição presidencial e testemunhas falam de "bola de fogo"
"bola de fogo" no ar e de um avião que vinha já a arder antes de embater no solo. As gravações das comunicações entre piloto e torre de controlo são
inconclusivas e não há o registo de qualquer pedido de auxílio - o usual "Mayday" - da parte do piloto antes do embate fatal. Onde é que isto tudo aconteceu? Aconteceu em Lisboa, na noite de 4 de Dezembro de 1980, quando o avião Cessna que transportava o primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, despenhou-se pouco depois de ter descolado do aeroporto de Lisboa. Ia a caminho do Porto, onde era esperado para discursar numa acção de campanha de apoio ao seu candidato a Presidente da República, Soares Carneiro. O avião caiu no bairro de Camarate, sendo que, desde então, esta queda ficou conhecido em Portugal como o "Caso Camarate". E esse é hoje, caros irmão brasileiros, o vosso "Caso Boqueirão". Juntamente com o primeiro-ministro, figura bastante carismática entre os portugueses, morreram ainda o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e o chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia. Faleceram igualmente as esposas dos governantes, Snu e Manuela, e os dois pilotos do aparelho, Jorge Albuquerque e Alfredo Sousa. Ao fim de mais de 30 anos de investigação, a justiça portuguesa encerrou o caso sem que tivesse encontrado uma explicação lógica para o que teria levado à queda do aparelho. Entretanto, face às dúvidas de acidente ou atentado, o Parlamento português realizou várias comissões parlamentares de inquérito. Em 2004, a oitava comissão concluiu que houve uma explosão a bordo, provocada por um engenho colocado na parte dianteira da aeronave, supostamente junto ao trem de aterragem. Em 2012 escrevi um livro intitulado "Camarate - Sá Carneiro e as Armas para o Irão", onde explico que o móbil do atentando poderia estar relacionado com o facto de haver um negócio secreto de tráfico de armas dos EUA para o Irão, usando o território português como plataforma giratória para esse negócio. Sá Carneiro teria mandado investigar e isso levou à sua morte. Por outro lado, ele era uma pessoa que não hesitava em enfrentar poderes muito acima da força internacional de Portugal, pelo que a sua substituição no panorama político nacional levou depois a uma espécie de "harmonização" da vida política e que perdura até hoje. Estive no ano passado no Parlamento português a testemunhar na décima comissão parlamentar de inquérito, que tem agora a tarefa de confirmar se a tese do móbil da rede internacional que levou ao atentado tem sustentabilidade ou não. Vou lendo o que me chega do Brasil e chamo a vossa atenção para a possibilidade de surgir muita desinformação. Vão ser dias difíceis, os próximos, pelo que estejam atentos a tudo o que vos parecer informação credível e que, com o tempo, poderá desaparecer da rede. Como, por exemplo, os primeiros testemunhos que falam de uma explosão do avião no ar e que vinha a arder antes de embater no solo. Há 30 anos, não havia ainda Internet e só existia um único canal de televisão em Portugal e que era controlado pelo Estado. Hoje, com a profusão de canais de informação, podemos pensar que estamos melhor informados. É mentira. Existe é cada vez mais uma grande dispersão da informação e aquela que acaba depois por ficar é somente a que querem que seja a oficial. Por isso, mantenham a memória destes dias, pois sabe-se lá se daqui a 30 anos ainda vamos estar a discutir detalhes do que aconteceu na semana passada.
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