Fui criticado por "atacar" o ex-primeiro-ministro José Sócrates ao apontar um alegado engano da sua parte quando, na semana passada, relatou no espaço semanal da RTP uma memória de infância relacionada com o jogo do Mundial de 1966, Portugal-Coreia do Norte. Disse ele então que saiu de casa quando Portugal perdia por 3-0 e, acaminho da escola, ia ouvindo pelas ruas da Covilhã os golos até que, quando chegou à escola, foi uma explosão de alegria com a vitória de Portugal. Apontei então o facto do jogo ter sido num sábado e que que poderia dar-se o caso de não haver aulas. Muitas críticas vieram reclamar que ao sábado havia aulas - embora o jogo tivesse começado às 15 horas e, mesmo com aulas ao sábado, estas, normalmente, acabavam à hora do almoço - havendo ainda o facto de ser férias de Verão: o jogo foi a 23 de Julho. Enfim, ontem à noite, novamente na RTP, Sócrates garantiu que disse que ia para a escola para jogar futebol com os amigos. E a jornalista Cristina Esteves não o interpelou e não disse que isso era um engano - para não dizer mentira - já que, nas declarações que estão gravadas, o ex-primeiro-ministro nunca explica o que o levou a ter de ir para a escola naquele sábado, a meio do jogo. É verdade que ele também nunca disse que ia para a escola porque tinha de ir para as aulas. Mas, se teve de sair de casa a meio de um jogo onde Portugal estava a perder, então isso deveu-se ao facto de que era obrigado a ter de sair de casa para ir para a escola - pelo que a possibilidade de ter aulas era a mais óbvia - ou então não acreditava na reviravolta de Portugal e foi jogar à bola. E não o quis dizer ou esqueceu-se de dizer que era para jogar à bola. Mas, se há uma semana houve um lapso de memória com quase 50 anos de distância, esta semana houve um segundo lapso de memória com apenas uma semana de distância. No entanto, a culpa nem é de Sócrates: é dos jornalistas que o deixam enganar-se ao vivo e, depois, somos nós todos, asociedade, que acaba vítima dos enganos pelos políticos que os jornalistas deixam passar.
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