20051104

Saramago copia bandas desenhadas

Para esclarecer melhor o que ontem escrevi sobre o novo livro de Saramago e como, mais uma vez, ele me faz lembrar uma outra aventura directamente saída do imaginativo universo da banda desenhada, deixo aqui um texto que escrevi neste blog a 29 de Abril do ano passado:

Após ter lido algumas obras do nosso Nobel da Literatura, quero dizer que gosto muito do seu trabalho, mas, agora se me permitem, não posso concordar com os argumentos normalmente mais usados para o elogio das suas criações. Há pequenos "segredos" do escritor que, ao contrário do que sucede com outras pessoas, não são aqueles que mais me impressionam.

1 – O estilo de escrita.
Não é nada assim de extraordinário, pois para mim, que tanto faz, acho que Saramago escreve bem, porque diz as coisas de maneira que qualquer um entende, até mesmo aqueles que não sabem ler, porque escreve como se fala e se fala bem, então é capaz de não se safar nada mal a escrever. Mesmo que não use pontos de exclamação ou hífens para os diálogos, a sonoridade das suas palavras, algo que muitos apelidam de achado, E é um achado sim senhor, para mim nunca vi uma escrita assim que se pudesse entender, como diriam uns enquanto outros mais sisudos e que se acham conhecedores do uso do poder opiniativo, porque esse direito ainda se lhes existe, dirão, Acho que esse homem não sabe escrever e ponto final, e ainda acrescentariam que aquilo mais não é do que um ovo de Colombo que apenas provoca muita surpresa e emoção àqueles que do primeiro fenómeno não conhecem qualquer notícia.

2- As histórias que inventa.
A "Jangada de Pedra", um livro de 1986, por exemplo, onde a imaginação do autor nos leva a uma situação em que Portugal e Espanha se separam do resto da Europa e partem qual jangada de pedra, assim que o li pensei: "Mas onde já vi isto tudo? Exacto, é como a triologia das "Lendas de Hoje", com a "La Ville qui n'existait pas", "Le Vaisseau de Pierre" - "O Navio de Pedra?!" e, ainda mais, "La Croisière des Oubliés", bandas desenhadas de Enki Bilal e Pierre Christin". Para quem não conhece as obras aconselho estes resumos:

"Dans un petit village du fin fond de la France, c'est l'émoi. Les habitants ont découvert un beau matin que leurs maisons flottaient à un bon mètre du sol. Pire, en quelques heures et avec le vent, c'est toute la commune qui commence à prendre de l'altitude et à se déplacer. Quel est l'origine de ce phénomène ? A-t-il quelque chose à voir avec le camp militaire juste à côté ? Et les deux vagabonds recueillis dans le village n'ont-ils pas une part de responsabilité ? Autant de questions pas forcément prioritaires lorsque sa maison voyage toute seule…"

Não estou a dizer que Saramago anda para aí a “roubar” as ideias de outros autores, mas quero aqui afirmar que, em relação às histórias mais recentes, não me impressiona mesmo nada quando o autor cria aqueles universos alternativos a faz fábulas modernas.
Já vi muitas e melhores.
Outro exemplo de fábulas extraordinárias na banda desenhada são ainda as aventuras do "O Vagabundo dos Limbos", de Godard e Ribera. Quem conhece este personagem sabe do que falo. Quem gosta de Saramago e não sabe do que estou a falar, só digo que tenho pena deles. Mas ainda vão a tempo de recuperar o tempo perdido.
Desde que partam à busca...

P.S. Sendo assim, então porque gosto de ler Saramago? Apenas para confirmar que ele continua a gozar com todos nós. Veja-se o que ele escreveu sobre os governantes no seu mais recente livro e veja-se depois a sua aparição ao lado de Durão Barroso num almoço em S. Bento. Sou assim um pouco masoquista. Leio-o apenas para confirmar as minhas certezas em relação às dúvidas...

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial