20051020

Soares-Cavaco: o primeiro debate

Mário Soares e Cavaco Silva sentaram-se frente a frente 310 vezes, mas isso aconteceu apenas quando o primeiro era Presidente da República e o segundo primeiro-ministro, pois nunca se encontraram face a face para um debate público. Hoje, com o anúncio de que Cavaco Silva será candidato à Presidência da República, os dois rivais políticos vão finalmente ser obrigados a debater à vista de toda a gente. A avaliar pelo o que cada um disse do outro nas respectivas obras biográficas (três livros-entrevistas de Mário Soares à jornalista Maria João Avillez e dois volumes de autobiografia política de Cavaco Silva), o "combate dos chefes" promete. O "Para Mim Tanto Faz" apresenta os argumentos de cada lado numa antecipação do que poderá ser dito (ou talvez não) até às eleições de Janeiro:

- Para Mim Tanto Faz (PMTF): Doutor Mário Soares, Professor Cavaco Silva, obrigado por nos terem proporcionado este primeiro debate público e a minha a pergunta será idêntica para ambos: O que pensavam um do outro em 1985, altura em que o Prof. Cavaco se tornou líder do PSD e o Dr. Soares era primeiro-ministro da coligação PS/PSD? Por uma questão de antiguidade e visto que até já exerceu anteriormente o cargo a que agora se candidata de novo, dou a palavra em primeiro lugar ao Dr. Mário Soares para responder a esta questão...
- Mário Soares (MS): "Como ministro das Finanças de Sá Carneiro, [Cavaco Silva] deixou-me uma impressão apagada, embora tenha feito um bom trabalho para a AD no plano eleitoralista. Quando saiu do Governo [em 1980] perdi-o de vista".
- PMTF: Tem a palavra o Prof. Cavaco Silva. O que pensava do Dr. Soares em 1985?
- Cavaco Silva (CS): "Via-o [a Mário Soares] como um político corajoso e hábil, perito nos jogos político-partidários, pouco preocupado com questões de coerência e pouco conhecedor das matérias concretas da governação, muito determinado na realização dos seus objectivos pessoais e que se movia com à-vontade nos meios internacionais. Achava-o em quase tudo muito diferente de mim e nalguns aspectos mesmo o oposto".
- PMTF: Prof. Cavaco Silva, o primeiro encontro que teve com o Dr. Soares ocorreu dois dias depois de ter sido eleito presidente do PSD na Figueira da Foz. Foi a 22 de Maio de 1985, em S. Bento. Que recordações guarda dessa reunião?
- CS: "A reunião durou uma hora e meia e não se pode dizer que tenha sido uma conversa simpática ou que tivesse contribuído para a criação de uma relação de confiança entre nós. Mário Soares atacou o PSD e utilizou um tom de grande firmeza, procurando inibir-me. Para que eu não tivesse dúvidas, rematou: 'Apesar do meu ar um pouco bonacheirão, não pense que me vem moldar às suas exigências ou que lhe vou fazer jeitos'. De forma delicada, respondi-lhe com igual firmeza. O PSD não prescindia de uma mudança de actuação do Governo, que lhe desse um novo fôlego e maior eficácia, de modo a enfrentar melhor os problemas do País. Percebi logo nesse primeiro encontro que a eleição presidencial [em Janeiro de 1986] era para Mário Soares a questão-chave. A estratégia autónoma do PSD aprovada na Figueira da Foz, apontando para o apoio à candidatura de Freitas do Amaral, era para ele totalmente inaceitável".
- PMTF: E o que tem a dizer o Dr. Mário Soares sobre este primeiro encontro com o novo líder do PSD e companheiro de coligação governamental?
- MS: "Estou hoje perfeitamente convencido de que houve negociações prévias entre Eanes, Eurico de Melo e próprio Cavaco Silva – este, talvez, por forma indirecta – para terem a garantia do Presidente [Eanes] de que, se houvesse uma crise e a Coligação [PS/PSD] se rompesse (como lhes seria provável, se não mesmo necessário), poderiam contar com a dissolução do Parlamento. Cavaco sabia – não podia ignorar! – que iria disputar eleições a curto prazo. Percebi então – só então – que estava perante uma manobra global de envergadura, cujo alcance político era, por um lado, derrubar o Governo, por outro, impedir-me de ser Presidente da República e, até, de subscrever o Tratado de Adesão à CEE, se fosse possível adiar a sua assinatura, como chegaram a tentar. Depois, porque era prudente contar com as reacções do eleitorado, pretenderam montar aquela ficção das negociações entre o PSD e o PS. Mas, aí, já não acreditei. Tanto, que não cedi uma linha. Não valia a pena".
- PMTF: Prof. Cavaco Silva, esta acusação da parte do Dr. Soares, a de que houve uma "manobra global de envergadura", que comentário lhe merece?
- CS: "Não tem qualquer fundamento".
- PMTF - Permita-me observar, Dr. Soares, que dois dias após este primeiro encontro com o Prof. Cavaco Silva houve uma segunda reunião entre ambos, na sede do PS, no Largo do Rato, e que ficaria conhecida como a “cimeira das flores”. Para os mais novos, que pouco sabem sobre a nossa história recente – mas muito por culpa da actual Imprensa, desculpem-me este aparte -, mas, como dizia, essa reunião ficou assim conhecida porque, antes do encontro, o Prof. Cavaco Silva disse aos jornalistas que aquilo não seria uma "cimeira de flores". No entanto, quando chegou à sede do PS, esta estava decorada de flores do chão ao tecto. Qual é a explicação para tal facto, Dr. Mário Soares?
- MS: "A questão das flores foi apenas um simples toque de humor, em resposta a qualquer alusão que Cavaco fez 'às flores do PS'. Mas o 'Professor', nessa altura, apresentava-se muito rígido e contraído – ao dar os primeiros passos na grande política – e não aparentava grande senso de humor...".
- PMTF: Isto é verdade Prof. Cavaco Silva? Vê hoje este caso como um momento em que não teve o suficiente senso de humor?
- CS: "Não apreciei o gesto, que achei de uma falta de respeito da parte do PS. 'Como é que um PSD presidido por mim pode estar no Governo com um partido que se comporta assim com o seu parceiro de Coligação?'- foi a interrogação que me veio à cabeça".
- PMTF: E assim se caminhou para o fim de um Governo de coligação, não é verdade Dr. Mário Soares?
- MS: "O PSD [com a nova direcção liderado por Cavaco Silva] rompeu a Coligação e derrubou o Governo, com premeditação, levando o requinte da hipocrisia a acusar-nos a nós, socialistas, de o termos feito".
- PMTF – Não creio que o Prof. Cavaco Silva partilhe desta ideia e calculo que tenha inclusive uma visão diferente dos acontecimentos... Gostaria de o ouvir sobre o fim do "Bloco Central" e a propósito desta outra acusação do Dr. Mário Soares, tanto mais que houve uma segunda reunião, a 30 de Maio, desta vez na sede do PSD e um terceiro encontro, no dia seguinte, em S. Bento...
- CS: "Da intervenção de Mário Soares [em S. Bento] ficou claro que as eleições presidenciais eram a questão-chave, tendo mesmo referido um acordo verbal com Mota Pinto, segundo o qual, sendo ele Presidente da República, o primeiro-ministro poderia ser do PSD. Mota Pinto terá dito que Mário Soares nunca conseguiria impor uma tal solução ao PS, ao que ele lhe respondera que era um engano, pois até facilitaria a sua sucessão no partido. Mário Soares parecia obcecado com a sua eleição para Presidente da República".
- PMTF: Depois, apesar de tudo, foi o que se sabe... O Dr. Mário Soares foi eleito Presidente da República e, mais tarde, em 1987, o Prof. Cavaco Silva ganhou a primeira maioria absoluta, o que lhe permite trabalhar para alcançar a segunda maioria absoluta em 1991. Também o Dr. Mário Soares havia garantido a sua reeleição para um segundo mandato. Contudo, esse segundo mandato, em termos de relações entre um e outro foi diferente do primeiro... A dada altura, o Prof. Cavaco Silva disse ao diário "Público", em Julho de 1992: "Eu não posso acreditar que Belém passe a vida a pensar como é que me vai tramar...". Mas, pelos visto, parece que o Dr. Mário Soares andava mesmo a pensar em "tramá-lo", conforme se pode depreender do episódio do jantar no restaurante "Aviz", no Chiado, quase um ano depois, em Junho de 1993. Do que se falou à mesa sabe-se pouco, mas o que se passou depois para o campo público revela o ambiente e as ideias debatidas. Recordo que, presentes no jantar estiveram nomes como Almeida Santos, Jorge Sampaio, Jaime Gama, Manuel Alegre, José Homem de Mello, Gomes Mota, Vítor Cunha Rego, António Campos e Carlos Monjardino. "Dar cabo do Cavaco a todo o custo", foi, aliás uma frase que alguém terá utilizado. Sabe-se que Jaime Gama terá chamado a atenção para os prazos estabelecidos na Constituição, ao que o Dr. Mário Soares, conforme relatou José Homem de Mello no seu diário, retorquiu para Gama: "Você é muito inteligente, mas politicamente sempre foi um nabo!". Jaime Gama nem terá reagido perante esta observação do então Presidente da República. O que tem a dizer sobre este episódio, Dr. Mário Soares?
- MS: "Já falei dezenas de vezes desse 'fait divers' sem qualquer importância. Jantar com amigos foi coisa que, ao longo dos meus dois mandatos, me aconteceu com grande frequência. Jantar no 'Aviz' foi, com efeito, mais raro. Por duas razões: não é nada barato, e a comida é demasiado sofisticada para o meu gosto".
- PMTF: E, Prof. Cavaco Silva, o que tem a dizer sobre este episódio?
- CS: "Para mim, era altamente improvável que Mário Soares viesse a dissolver a Assembleia da República, mas não tinha a mínima dúvida de que não iria abrandar as suas acções visando desgastar o Governo".
- PMTF: Outro factor que sempre perturbou o relacionamento entre ambos foram as fugas de informação após a reuniões de quinta-feira, em Belém. No livro "O Meu Tempo Com Cavaco Silva", o jornalista e assessor de Imprensa do primeiro-ministro, Fernando Lima, diz que "a frequência com que 'O Independente' revelava o que supostamente se passava nas audiências de quinta-feira, a sós, entre Mário Soares e Cavaco Silva, não deixava margens para dúvidas no gabinete do primeiro-ministro de que o Palácio de Belém alimentava com fugas de informação aquele semanário que, por sinal, se publicava no dia imediato ao dos encontros". Esta é igualmente a sua opinião, Prof. Cavaco Silva?
- CS: "Várias vezes protestei junto do Presidente, chegando mesmo a fazê-lo por escrito, dizendo-lhe que estava seguro de que a fonte da fuga de informações estava no seu gabinete, embora me fosse difícil apresentar provas objectivas. Embora com pouca convicção, Mário Soares negava sempre".
- PMTF: Dr, Mário Soares...
- MS: "Nunca divulguei nada que o primeiro-ministro me tivesse confidenciado. Ele sabe muito bem isso. Foi esse, aliás, um dos fundamentos principais da nossa relação de confiança".
- PMTF: Por que razão o Prof. Cavaco Silva não informou antecipadamente o então Presidente da República, o Dr. Mário Soares, que já não iria ser candidato a primeiro-ministro nas eleições de Outubro de 1995?
- CS: "Como eu esperava, foi-me perguntado [durante a conferência de Imprensa a 23 de Janeiro de 1995] se tinha comunicado previamente a minha decisão ao Presidente da República. Eu não o tinha feito- o que o deixou irritado comigo, como manifestou no encontro que tivemos na quinta-feira seguinte - porque receava que, por essa via, ocorresse uma fuga de informação para a Comunicação Social. Como não podia em conferência de Imprensa invocar esta razão, respondi que, tratando-se de uma decisão pessoal, respeitante a um cargo partidário e não ao Governo, tinha entendido que não necessitava de informar previamente o Presidente da República".
- PMTF: E o que tem a dizer sobre isto, Dr. Mário Soares?
- MS: "Deveria, apesar de tudo, ter-me informado. Pedia-me uma audiência e, meia-hora depois, fazia a sua comunicação ao País. Há actos de cortesia institucional que não devem ser omitidos. Noblesse oblige, como dizem os franceses...".

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