20050920

Para memória futura, vinda do passado...

Crónica do chefe de redacção do semanário "Tal&Qual", José Paulo Fafe, a 31 de Outubro de 1997, altura em que o ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho anunciou que iria processar a publicação:

"Não sei se estão lembrados que já há uns quantos anos, durante uns meses, o
prof. Cavaco teve um ministro que contava anedotas. Agora, anos depois, o
engenheiro Oliveira Guterres resolveu brindar-nos com um ministro que,
embora não conte anedotas, é, ele próprio, uma verdadeira anedota.
Vem isto a propósito da noticiada intenção do sr. Manuel Maria Carrilho de
processar este jornal por alegado 'abuso de liberdade de Imprensa', ao que
parece relacionado com três manchetes que o 'T&Q' publicou nos últimos
meses - 'Ministro dá tachos', 'Ministro paga sexo na Internet' e 'Ministro
gasta 12 mil contos numa casa de banho'.
Embora já tenha aprendido a não me espantar com as habituais tropelias do
sr. Carrilho, confesso que desta feita fiquei de boca aberta e ainda mais
convencido que a dita criaturinha perdeu definitivamente o juízo.
Recorrendo a um conhecido advogado da nossa praça e 'ameaçando' só parar nos
tribunais, o sr. Carrilho mostrou uma inequívoca e notável queda para a
esperteza saloia.
É que ­- recorde-se -­ nunca o sr. Carrilho desmentiu uma única linha do que
foi publicado neste jornal. Ou seja, admitiu que é um mãos-largas a
distribuir lugares no seu ministério; que subsidia um site na internet que é
um verdadeiro antro de pornografia e prostituição; e, finalmente, através de
uma polémica e pomposa 'nota à Imprensa', confirmou que gastou 12 mil
contos do erário público na remodelação da sua célebre casa de banho, no
Palácio da Ajuda.
E porque é que o sr. Carrilho, não desmentiu uma única vírgula. Pela simples
e única razão que nada havia a desmentir. Mas ele tinha que dar uma de
homenzinho, arranjar maneira de se ver livre dos sorrisos marotos dos
colegas de governo, tentar iludir uma opinião pública que o transformou em
chacota nacional.
Vai daí, o sr. Carrilho deu uma de homenzinho e ­- trás! -­ toma lá processo
que já almoçaste... Sim, porque o sr. Carrilho ­- pobrezito - leva-se a
sério. Fala de cátedra, exige respeito, quer ser adulado, pretende-se
indispensável, chega mesmo ao ponto de sem achar bonito.
A mim, se me é permitida uma opinião sobre este Jack Lang de pacotilha, que
não conheço e de quem apenas sei reconhecer uma triste história que nada
abona a seu favor, acho-o exactamente ao contrário: chato, insuportável,
apalermado e feio! Mas isso são contas de outro rosário...
Voltando à vaca fria: alguém que o conhece de perto, contou-me há dias
que o sr. Carrilho anda convencido que este jornal está envolvido numa
campanha contra ele e a sua sinuosa obra governativa. Coitado... Se o sr.
Carrilho pudesse ser mosca e escutar a galhofa que se gera aqui na redacção
de cada vez que é pronunciado o seu nome, certamente coraria e num ápice
perderia essas rídiculas peneiras de possuir estatuto e perfil para ser
objecto de qualquer campanha que seja.
O sr. Carrilho ainda não percebeu que é um autêntico manancial para a
chacota nacional. Quando nomeia a torto e a direito, quando subsidia a mais
reles pornografia, quando exige que lhe troquem a sanita ou quando vai bater
à porta do seu advogado, o País estremece de tanto rir.
E a culpa, convenhamos, não é proprimante do 'T&Q'... Agora, ao que parece,
o sr. Carrilho decidiu processar este jornal. É um direito que lhe assiste.
Como a mim -­ e certamente a muitos dos nossos leitores ­- nos assiste o de
rir à gargalhada. É mesmo um quase um dever!"

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