20090313

Morreu o jornalista que não queria ser posto na ordem...



Nunca trabalhei com João Mesquita. Nunca fiz parte do seu círculo de amigos, mas tive a honra de o conhecer durante as reuniões do MIL - Movimento Informação é Liberdade. Durante a minha intervenção defendi a ideia de que uma Ordem de jornalistas começava a fazer cada vez mais sentido face à actual desordem, e como exemplo mencionei o genial "slogan" da campanha de 1992 que, na altura, me levara precisamente a votar contra a ideia que agora defendia: "Sou jornalista, não me metam na ordem!". Do outro lado da sala respondeu João Mesquita: "Esse 'slogan fui eu que o criei". Obviamente, aquele jornalista passou a ser a pessoa com quem eu iria querer trabalhar para um melhor futuro do jornalismo em Portugal. Agora é tarde. Contudo, nunca deveremos esquecer a vida e o exemplo do João Mesquita que surge bem plasmado nesta entrevista:

"É preciso pensar mais no público do que em nós, jornalistas, pensar mais em quem lê os jornais do que em quem os faz”.

"Vínhamos para o jornalismo basicamente pelo gosto de escrever e pela paixão de intervir. Éramos pessoas comprometidas socialmente, tínhamos intervenção cívica e política e experiência de vida – desse ponto de vista receio bastante que se tenha regredido e que hoje, genericamente falando, se venha para o jornalismo por motivos menos nobres do que aqueles que nos trouxeram. A forma de encarar a profissão hoje será muito mais a de uma carreira e, consequentemente, como um meio de promoção, de fazer dinheiro e ganhar estatuto. Nós não pensávamos na carreira, em sermos directores, em sermos estrelas… Não tínhamos ambições dessas”.

"No Expresso, recebia telefonemas das fontes, algumas das quais chegavam a dar indicações sobre a forma de publicação dos textos. Estive lá pouco tempo, portanto não deu para tirar conclusões, mas agora quando leio os livros do arquitecto Saraiva ou a história do PSD do professor Marcelo , percebo que as minhas suspeitas sobre a influência de certas fontes no jornal eram fundamentadas. Claro que, na generalidade, os jornalistas do Expresso não eram manipuláveis, mas foi ali que me confrontei pela primeira vez com tentativas declaradas de manipulação”.

“Nunca deixei de exprimir as minhas opiniões sobre o jornalismo e sobre as condições do exercício da profissão, mas julgo ser uma pessoa com um razoável feitio, nunca tive conflitos pessoais com camaradas. O que todos sabem é que não sou subserviente, que não sou seguidista, que continuo a ter um juízo bastante negativo sobre a evolução do jornalismo. O que está a acontecer comigo já aconteceu e acontece com muitos outros. Ainda há poucos meses, o Público despediu uma série de jornalistas , entre os quais alguns que eu considero serem ‘apenas’ dos melhores profissionais da nossa imprensa diária. Portanto…".

“A tendência dominante vai contra aquilo que eu penso que devia ser feito, a degradação das condições de trabalho e de vida dos jornalistas é cada vez maior. Vive-se uma situação de desregulação total no sector, inclusive de ausência de princípios éticos. E nos jornais domina a ideia de que eles não são para ler, mas para ver. A principal razão da crise dos jornais é essa: quando se fazem jornais para não serem lidos, pois não serão lidos! É muito mais interessante e fácil para o cidadão comum olhar para uma televisão ou para um ecrã de computador, ou mesmo só ouvir rádio, do que estar a ver jornais”.

Atente-se ainda neste comentário do autor da entrevista, José Luiz Fernandes:

"Por que não tem este jornalista lugar numa redacção? Dir-se-á que a experiência, a memória histórica, o conhecimento de fontes deixaram de ser factores de valorização profissional. Aliás, é público e está amplamente documentado que, sobretudo, desde os primeiros anos deste século as empresas vêm executando um programa de afastamento das redacções dos jornalistas com idade superior a 50 anos. Actualmente, essa tendência já atinge alguns profissionais com menos de 50 anos e, num ou noutro caso, até com menos de 40 – desde que não seja suficientemente moldável e submisso, segundo os padrões da hierarquia. Dir-se-á, então, que jornalistas com espírito crítico não são bem vistos nas redacções do jornalismo actual".

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