20081003

Lar do Comércio revisitado

Amanhã, dia 4 de Outubro, haverá missa de um mês pela memória da minha avó Alda. Por coincidência será no mesmo dia em que ela iria fazer 95 anos. O meu pai já foi buscar alguns dos pertences da sua mãe ao Lar do Comércio, mas o braço-de-ferro que manteve com o presidente daquela instituição ainda só lhe permitiu trazer os bens mais leves. Os móveis, segundo as indicações que recebeu, só podem ser levantados durante o horário normal de expediente – o que lhe dificulta a vida, pois se fosse permitida alguma hora extra poderia fazer a mudança com a ajuda dos meus irmãos. Mas, não deixaram, sendo mais um sinal da prepotência demonstrada e da falta de sensibilidade humana de quem manda naquela direcção.
Entre as fotos que a minha avó tinha em sua posse encontrei algumas que foram uma surpresa, pois nunca as tinha visto. Que pena não poder falar sobre a história que está por detrás de muitas delas, mas, na realidade, nunca consegui sentar-me com a avó Alda assim como o faço com muitas pessoas que não conheço para ouvir histórias de famílias que não conheço.
Assim, não sei o que ela fazia de patins na Foz, nem sei como foi a sua viagem a Roma nos anos 50...




A ironia disto tudo é que a avó Alda, apesar de ter um jornalista na família, deu uma entrevista a outro jornalista há uns anos. Foi à jornalista Sandra Silva Costa, para uma reportagem do diário Público, a 26 de Julho de 2003, por ocasião do Dia dos Avós . O título, recordei-o há dias, era sintomático da minha situação com a avó Alda...



Os laços com ela diminuiriam com a minha vinda para Lisboa, acabando por a ver quando ela ia almoçar a minha casa num ou outro fim-de-semana em que visitava a família no Porto. Ou então no Natal, quando ela pensava que aquele seria sempre o último Natal em família, mas que nunca era.
Dizia a avó Alda que queria morrer com a família junta, contudo tal era impossível. Desavenças familiares insanáveis impediam isso, mas quando ela fez 90 anos reuniram-se todos os filhos, netos e bisnetos quantos fora possível. E fomos muitos os presentes, mais do que os ausentes...



Entre os bens da minha avó encontrei esta foto onde ela segura o meu pai, então com três meses…



Encontrei ainda esta quadra, simples, mas linda de morrer...



... e ainda a respectiva foto da Alda com os seus três filhos. O meu pai é o mais velho. O filho que está no meio, com aquele sorriso aberto, cabelo louro e ondulado, é o Nelo. Morreu de cancro e a avó Alda só foi informada disso quando já tinha sido o funeral… O terceiro é o Carlos, aquele que a avó Alda, numa demonstração de força única aos 84 anos, foi visitar ao Lubango, Angola, há 10 anos....



Também encontrei uma outra coisa que andava à procura: o exemplar do jornal interno da instituição, o "Catassol", com o registo da vinda da avó Alda a Lisboa para cantar as Janeiras na Assembleia da República.



Fora em Janeiro de 1999, pouco depois de ter entrado no Lar do Comércio como vitalícia. O que já não esperava encontrar – pois tinha-me esquecido de todo – foi o singelo texto que na altura eu mesmo escrevi para o jornal do Lar do Comércio...



O mais importante, contudo, foi ler a mensagem que então assinou o Presidente do Lar do Comércio, sobretudo quando a nota introdutória do texto do jornal começava por enaltecer a "bonita idade" da minha avó - a mais idosa de todos - naquela deslocação ao Parlamento português...




Serve isto para dizer que a avó Alda foi bastante útil para a promoção do nome do Lar do Comércio. Era uma pessoa jovial e energética, apesar da idade. E era linda, como prova a foto que ilustrou um artigo do diário "Comércio do Porto" quando o Lar do Comércio, em mais uma acção de exposição visual, organizou um passeio de carros antigos…



A avó Alda, senhor presidente José Moura, não merecia depois o que lhe fizeram. Ela foi a imagem da alegria do Lar do Comércio. Ela ajudou muito aquela instituição. Estão aqui as provas do muito que deu e, como paga, quando o que ela precisava para acabar os dias finais era um pouco de humanidade, recebemos esta carta dias antes dela morrer.
Ainda haverá quem tenha coragem de dizer que foi justo o que lhe fizeram?

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5 Comentários:

Blogger JOSE 08 disse...

HEY THERE. JUST DROPPING BY FROM MALAYSIA.... NICE BLOG U HAVE THERE... VISIT MY BLOG TOO AN DONT FORGET TO CLICK ON MY ADDS TOO....

03 outubro, 2008  
Anonymous Anónimo disse...

Excelente reportagem!
Pena que os jornais e revistas de hoje em dia sejam incapazes de fazer reportagens do género...

04 outubro, 2008  
Anonymous Anónimo disse...

Força, Frederico ! Para quando um novo livro seu ? Depois do Eu sei que você sabe, o Enigma da Praia da Luz e Poeta & Espião gostava de continuar a ler mais obras suas ! Fazem falta mais jornalistas como o senhor a este país.

04 outubro, 2008  
Anonymous Anónimo disse...

Uma conclusão retiro detoda a triste situação com que fomos confrontados:

" O Lar do Comércio" está a ser gerido como um autocarro que já não tem para onde ir! O Sr. Presidente José Moura denuncia cansaço e mostra sinais evidentesde que está esgotado nas suas capacidades de gestão e liderança. O "Lar" está a funcionar pela força da inércia. É tempo de renovação. Oxalá apareçam pessoas que, com outra dinâmica, com jovialidade e força, sejam capazes de retirar esta respeitável Instituição do marasmo em que se arrasta, de modo a ser um criado um ambiente mais vivo e actuante.
A manter-se a actual situação o "Lar do Comércio" corre o sério risco de passar a ser mais um armazém de idosos, triste e rotineiro onde os dias se arrastam penosamente para todos que ali habitam.

08 outubro, 2008  
Blogger Consultora Educacional disse...

Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver nosso Curso de Ingles. Melissa

26 outubro, 2010  

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