20041201

1871 em 2004

“Há muitos anos a política em Portugal apresenta este singular estado: Doze ou quinze homens sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas à outras, pelo ar, numa explosão de risadas.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá estão, - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país, e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus carácteres e às suas famílias.
Os outros, os que não estão no poder são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, os interesses do país e a pátria.
Mas, cousa notável!
Os cinco que estão no poder, fazem tudo o que podem – intrigam, trabalham, para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se. Conspiram, cansam-se para deixar de ser – o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais e os interesses do país!
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros – os verdadeiros liberais – entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do país, e os que caíram do poder, resignam-se cheios de fel e de amargura – a vir ser os verdadeiros liberais e os interesses do país.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha sido por seu turno esbanjador da fazenda e ruína do país...
Não há nenhum que não tenha sido demitido ou obrigado a pedir demissão pelas acusações mais graves e pelas votações mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de dirigir as coisas públicas, - pela imprensa, pela palavra dos oradores, pela acusação da opinião, pela afirmativa constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o país neste caminho em que ele vai, feliz, coberto de luz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, num choito [trote miúdo e sacudido] triunfante!”
Junho de 1871 – “Farpas” de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, edição "Principia" de 2004, págs 68 e 69

Este texto foi escrito pouco depois da Comuna de Paris mas parece incrivelmente actual. Como é possível que estes escritos sejam quase um decalque da actual situação política nacional, onde PSD e PS alternam no poder? É simples: a fórmula histórica repete-se para gáudio de uma elite que divide entre si o poder.
E para poder manter o povo na ignorância, a disciplina de História é maltratada na escola, os clássicos da nossa literatura são vulgarizados nas aulas de Português sem esquecer a Matemática, que a muitos arrepia pois é uma disciplina que “obriga a pensar”.

Pensem:
P - O que mudou na política portuguesa em quatro meses?
R - Assim, de repente, só me lembro da eleição do novo secretário-geral do PS, o tal que há muito estava apontado para ser o escolhido...
P - As instituições democráticas estavam a funcionar?
R - Sim.
P - Houve algum escândalo político que obrigasse o Presidente da República a dissolver o Parlamento?
R - Não. Ninguém no Governo foi acusado de pedofilia nem sequer a Imprensa, por exemplo, descobriu que uma qualquer alta figura política tentou ocultar, manipular ou conspirar para que isso não viesse a público. Não houve qualquer escândalo económico ou um facto que pudesse ter sido imputado ao primeiro-ministro. No fim, demitiu-se um ministro que era amigo pessoal... Portanto, foi uma questão pessoal... Perdeu-se um governo por causa de uma desavença pessoal?
P - O primeiro-ministro era atacado na Imprensa mas isso provocou qualquer reacção pública, qualquer greve geral a pedir a sua demissão?
R - "Sim" à primeira, um redondo "não" à segunda pergunta...
P - O governo manipulou a comunicação social?
R - Claro que sim, como qualquer governo. Só que, desta vez, os anteriores "esbanjadores da fazenda" tinham o título de "interesses do país" em mais jornais do que os actuais "ruína do país"... Ou será que desde que Fernando Gomes, o antigo ministro socialista da Administração Interna foi demitido isso fez com que, automaticamente, tivessem terminado os assaltos a bombas de gasolina?! Terminaram sim, mas apenas dos alinhamentos dos telejornais... Da mesma forma que alguém ingenuamente poderá acreditar que vai ser a partir de agora que Marcelo vai poder falar livremente. Logo ele, que nunca deixou de dizer apenas o que queria dizer mas nunca disse o que se deveria dizer...
P - É possível que Santana Lopes tenha "forçado" esta situação para sair como uma vítima e tentar a conquista do poder pelo poder?
R - Não descarto essa hipótese. O futuro nos dirá, mas tudo isto já estava escrito há muito tempo... desde 1871, por exemplo.

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