20040610

Uma carta portuguesa para o 10 de Junho

Mão amiga enviou-me esta missiva:

Exmo.Sr.
Mais uma vez fico surpreendida com os seus comentários. Desta feita
futebolísticos. Mas afinal?! Portugal deve ganhar!! Ora essa!! só isso nos poderá dar auto-estima, não compreende?! Não vê que é disso que os
portugueses precisam para viver?! É ver as bandeirinhas por todo o lado, agitadas ao vento, vitoriosas e tão patrioticamente colocadas. Mais nenhum evento poderia dar o orgulho de ser português. Dê-lhes uma revolução ou os próprios heroísmos da época de Descobrimentos. Não! Nada disso. Os cérebros bloquearam, e com apenas um jogo desportivo, se mantém as esperanças de uma vida melhor.
A felicidade? A esperança? O bem estar? Só a vitória no futebol pode dar tudo isso.
Qual amor, qual carapuça! Qual realização pessoal qual couve! Nem a saúde pode ser tão motivadora como o futebol.
Aposto que nas banquinhas da sorte, que vendem pedrinhas para a saúde , amor, etc... já venderam todas as da vitória de Portugal no Euro!!!
Não é capaz de entender isso?!
Por isso se vir uma estrela cadente esta noite, feche os olhos e peça o seu maior desejo do momento: "Oh! Deus!! Faz com que Portugal ganhe no jogo de futebol".
Pois afinal, para a grande maioria das pesoas, a vida não passa de um jogo, onde as peças são as aparências e o futebol. Há desejo maior que ganhar esse jogo?! É toda a vida, a nossa vida medíocre que nos ofereceram e que temos de aceitar.
Por isso:
Que Ganhe Portugal!!!
Sempre atenta,
....

P.S. A bandeira de um país é um símbolo.
A bandeira não é um produto de promoção de hipermercado ou algo que pode ser vendido em conjunto com um jornal ou estar associada a uma marca comercial.
A bandeira deve ser erguida alto por quem, por exemplo, representa o País no estrangeiro: "Ergue bem alto essa bandeira Rosa Mota! Carlos Lopes!" Até aceito que Figo o faça quando comemora a vitória do Real Madrid.
Agora, não me peçam para ficar contente com esta massificação foleira, rasca e pretensamente patriota.
É patrioteira.
A bandeira é de todos nós e não é propriedade de ninguém.
Sente-se a bandeira, não se compra, não se negoceia, não se massifica para depois, num dia seguinte a uma derrota, ou até à vitória, ser atirada ao chão e pisada em nome de outros valores mais egoístas, outras modas, que, entretanto, se levantarem.
Por isso, cuspo nas vossas bandeiras, pois essas que vocês aí exibem nas varandas não são as do meu País, Portugal.
As vossas são as bandeiras do pagode.

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