20071020

O novo livro do sr. Tavares



Sinto que não posso escrever sobre o sr. Tavares (que lança no fim do mês o mais recente romance, "Rio das Flores") porque ele colocou-me um processo em tribunal por causa de um artigo que escrevi para a "Focus" sobre a questão de plágio do "Equador" e que também aborda este blogue. Por isso, aqui fica o sr. Tavares através das palavras do próprio sr. Tavares na entrevista de hoje ao "Expresso" com o título "Finalmente estou a tornar-me um escritor".

"Gostei imenso do primeiro título, que era 'Uma Vida Inteira'. Tinha-o registado e quando já estava adquirido descobrimos que o Miguel Esteves Cardoso escreveu um romance há dez anos chamado 'A Vida Inteira'".

" - Foi a todos os sítios que estão no livro?
- Não fui a Berlim, em 1936. Adorava ter ido. Faz-me lembrar uma coisa que o Chico Buarque me disse uma vez. Estava a falar-lhe do Budapeste, que achava extraordinário como alguém conseguia escrever sobre uma cidade onde nunca esteve. Disse-lhe que para escrever sobre um sítio tenho de lá ter estado. E ele respondeu assim: 'Engraçado, você esteve em África em 1900 para escrever Equador' (risos)".

"Há uma passagem no livro em que conto que na primeira noite que o Diogo dorme numa fazenda, ele está de janela aberta e vê-se um bocado de Lua, até que há um pássaro que pousa no parapeito. Isso aconteceu-me realmente. E achei fascinante estar a adormecer a ver a Lua através da janela, com um pássaro a parar e olhar para dentro do quarto como que a dizer: quem és tu"?

" - O protagonista do livro, Diogo Flores, tem também essa sua necessidade. Andámos à procura do Miguel Sousa Tavares na personagem principal.
- Se procuraram, não é nenhum elogio. Eu comecei por querer que o Diogo fosse uma personagem simpática e no fim do livro não gosto dele.
- E, portanto, não se revê nessa atitude?
- Não, não me revejo (risos). Por isso é que estava a dizer que, se o quiserem comparar comigo, não é nenhum elogio. Digamos que o Diogo é uma personagem que começou bem mas que cresceu mal ao longo da história. Se tivermos em conta que o tinha projectado para ser uma personagem simpática e atraente, acho que sim. Tudo esmiuçado, ele não é um grande caracter, como dizem os ingleses".

(Esta é sobre o Euro 2004 e concordo a 100 por cento!)
"- Mas achou que havia um aproveitamento e um sentimento demasiado nacionalista?
- Em termos colectivo, havia. Eu, que escrevo no jornal A Bola todas as semanas, como não alinhei nisso, às tantas já era anti-patriota. Porque dizia que não percebia porque de repente andávamos todos de bandeirinha à janela de casa e no carro. Era uma coisa ridícula. Amar a pátria não tem nada a ver com isso. Começa, por exemplo, por pagar os impostos. Gostava de saber quantos dos que andaram de bandeirinha pagaram os todos os seus impostos".

(Contudo, depois desta, temo o pior...)
" - Mas qual é a sua rotina de escrita?
- Só não escrevi aos fins-de-semana. Começo a escrever a seguir ao almoço e depois vai até parar. Às vezes pára às cinco da manhã. Isso significa que janto num quarto de hora e apenas vejo os telejornais, por dever de ofício. Mas escrevo devagar. Posso estar ali dez horas e escrever uma página. Pode acontecer-me o contrário, mas nunca consigo escrever mais do que 12 por dia. É o meu limite absoluto. Não consigo. Depois, quando é um livro baseado em documentação, como este, a escrita é muito mais lenta, porque tenho de tomar notas de tudo o que li. Tenho de ter essas notas ao lado do meu computador e estou constantemente a lá ir. Para datas, locais, nomes. Se for uma cena puramente romanceada, que não tenha suporte documental nenhum, é mais rápido, sobretudo se eu tiver pensado nela antes. Acredito naquela máxima do Picasso: 'Espero que quando a inspiração chegar me encontre acordado'".

"Se eu quiser vender meio milhão de exemplares amanhã, sei o que faço. Palavra que sei.
- O que é que faz?
- É fácil de imaginar. Faço uma literatura light e erótica, melhor do que a que existe. E vendo meio milhão de exemplares tranquilamente".

" - O próprio primeiro-ministro tentou convencê-lo a ir para a RTP?
- O próprio primeiro-ministro. Um convite para director-geral da RTP. E eu dei-lhe uma resposta que, passados uns anos, o Sócrates, já como primeiro-ministro, me fez recordar: 'Eu faço as três coisas que mais gosto na vida, ler, escrever e pensar e ainda me pagam bem por isso. Porque é que eu hei-de ir para a RTP?' E ele diz que ficou com uma inveja profunda e o Guterres também, que lhe terá dito: 'Nem vale a pena pedir-lhe para pensar oito dias'".

" - Está preparado para a crítica do Vasco Pulido Valente?
- O Vasco Pulido Valente arrasou o Equador sem o ter lido. Dizia que era exotismo, culinária e erotismo. E, passados uns tempos, estive com um amigo comum que me disse: 'Sabes que o Vasco não tinha lido o teu livro e eu insisti, 'ó Vasco, mas lê o livro' e o Vasco, 'não, é uma merda''. Até que um dia ele disse que o livro até não era mau. Foi-me contado assim e eu acredito na fonte. Eu sou grande admirador do Vasco. Costumo dizer a brincar que, de facto, só há duas coisas que precisavam ser subsidiadas no país: a agricultura e o Vasco Pulido Valente. A agricultura porque, se não, o país desequilibra-se e tombamos ao mar; e o Vasco Pulido Valente porque aquele pessimismo é necessário. A mim faz-me falta. Eu leio o Vasco e digo: 'Também não é assim tão mau!' (risos) Com o seu pessimismo militante, o Vasco contribui para o optimismo de muita gente. Ele escreve maravilhosamente, tem talento e é engraçadíssimo. Agora, só conhece dois países no mundo: Oxford e o Gambrinus. Acho pouco".

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6 Comentários:

Anonymous Ana Borges disse...

"finalmente estou a tornar-me num escritor"

Eu, simplesmente, não tenho palavras para descrever este senhor.
Acho absolutamente inadmissível que um gajo, tipo Dan Brown, que escreve romancezitos de leitura fácil, ouse comparar-se a Torga, a Eça ou a Hemingway!
Mas isto está tudo louco ou quê?

20 outubro, 2007  
Anonymous Pedro Branco disse...

Apoiado Ana!

Ainda por cima é copião!

Pior que isto só mesmo o Luís Miguel Rocha...

20 outubro, 2007  
Anonymous Anónimo disse...

Nunca será possível comparar Sousa Tavares a Eça ou Hemingway. Estes últimos escreviam sobre o seu tempo, sobre as pessoas que viviam no tempo em que eles também viviam. O Sousa Tavares não escreve sobre a Lisboa de 2007. Nem sequer da Lisboa da Expo 98. Nem se queima a escrever sobre a Lisboa de 1980... Não. Ele escreve sobre o portugal de 1900 e sobre o Brasil de 1930. Assim evitas as chatices que marcaram Eça e Hemingway. Aquilo que fez deles grandes e incomparáveis. Lá por escrever coisas sobre o tempo em que Eça e Hemingway viveram não é o mesmo do que viver hoje como Eça e Hemingway viveram...

21 outubro, 2007  
Anonymous Anónimo disse...

O homem é mesmo triste ao admitir que não conhecia o título do livro de um escritor (esse sim, escritor) português, MST não será nunca um escritor como MEC. quanto mais não seja porque, está visto, nunca leu sequer MEC!...

21 outubro, 2007  
Anonymous arquimedes disse...

"As primeiras linhas do Rio das Flores são as primeiras linhas de Cem anos de Solidão,devidamente mascaradas",diz "Pitágoras"no blogue "Atlântico"

24 novembro, 2007  
Anonymous Anónimo disse...

Com tantos bons livros que há para ler e há quem ainda se interrogue se deve, ou não, ler MST. Eu, por mim, vou continuar a ler Camilo Castelo Branco, Raul Brandão e Aquilino Ribeiro. Prefiro a companhia dos grandes à literatura de plástico.

25 novembro, 2007  

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